Deuses ctônicos,  Panteão helênico

A Grande Mãe

A figura feminina

  • As representações vindas do Paleolítico e Neolítico da figura feminina são marcadas por mulheres nuas, com seios, triângulo púbico e nádegas fartas.
  • O entendimento do significado da palavra “mãe” também era atribuído a quem gere e nutri outros seres. Com isso, a fertilidade e a fecundidade também são associadas ao feminino. Isso porque é através da mulher que existe a continuidade da vida.
  • As vênus paleolíticas são as primeiras representações da Deusa mãe uma vez que remontam cultos da fertilidade feminina.

O mito da deusa-mãe

  • Também chamada de Deusa Primordial ou A Grande Mãe;
  • É a representação cultural da troca entre o ser humano e a natureza. Ele vai mudar de acordo com o contexto cultural do grupo que cria esse mito.
  • As Deusas-mãe de uma forma geral são deusas que propiciam a vida do grupo.
  • Quando o Homem deixa de ser um caçador-coletor para o hábito sedentário, os valores e a representação da Deusa-mãe também mudam.
  • Anteriormente o caçador-coletor associava o consorte da deusa um animal feroz, como um touro ou leão. Já o Homem sedentário já começa a entender o seu papel na fecundidade e começam a associar a figura humana como um consorte da Deusa.
  • Além disso, o Homem sedentário também começa a ter uma preocupação maior com a vida após a morte, também sendo transferido esse conhecimento para as divindades.
  • Com o passar do tempo, a natureza una da deusa-mãe passa a ser substituída por uma fragmentação em diferentes deusas. Cada deusa vai representar um recorte dessa deusa primordial. Isso também é resultante do aumento da complexidade da sociedade.

Mitologia helênica

  • O panteão helênico é bastante complexo e cada divindade tem uma preocupação especial com algum aspecto da natureza, da vida física dos seres vivos ou questões morais e psicológicas.
  • Em primeira instância, os deuses são mais associados a terra, mar ou céu. Como hoje o foco é a terra, vemos que a adoração a divindades da terra tem sido algo presente desde os cultos neolíticos.
  • A seguir mostro duas classificações muito encontradas para os deuses do panteão helênico:
  • Deuses Olimpianos
    • São deuses encontrados acima da superfície da terra;
    • Também chamados de deuses telúricos, deuses celestiais;
    • Em inglês “ouranic gods”;
    • Tradicionalmente as oferendas são partilhas com os deuses;
    • Oferendas em altares elevados;
    • Oferendas que pudessem ser queimadas;
    • Mãos com palma para cima;
    • Exemplos: Chronus, Zeus, Hera, Poseidon, etc.
  • Deuses Ctônicos
    • São deuses encontrados na terra ou no subterrâneo;
    • Termo usado para se referir aos deuses do submundo, deuses da terra e deuses da agricultura;
    • Ctônico vem do grego χθονιος khthonios, “relativo à terra”, “terreno”;
    • Em inglês “chthonic gods”;
    • Oferendas em altares baixos ou diretamente no chão;
    • Mãos com palma para baixo;
    • Tradicionalmente não se compartilha as oferendas com os deuses, enterra-se;
    • Exemplos: Nyx, Érebo, Perséfone, Hades, Deméter;
  • Percebam que quando falamos de deusas da terra, essa classificação não fica tão clara já que vemos deuses olimpianos e urânios também sendo chamados de deuses ctônicos, como é o caso de Réia e Deméter.

Deusas da terra gregas

  • Na mitologia grega, existe uma linhagem de deusas que eram relacionadas a maternidade, fecundadidade e prosperidade da terra.
  • Essa linhagem de deusas da terra começa com Gaia e termina em Perséfone. Sendo Deméter o exemplo da deusa-mãe mais claro no panteão grego.
  • Também é importante falar que traços da deusa-mãe se refletem em outras deusas como Hera, Afrodite e Ártemis.
  • A terra é morada dos vivos e dos mortos, portanto, uma deusa da terra tem domínios sobre o que nasce e o que morre. Elas também são associadas a oráculos e sonhos já que elas tem domínio sobre todo o ciclo de vida-morte, sendo Gaia a primeira profetisa.

“Soberana, rainha doadora de frutos e concedente das estações, Déo,
e sua filha, a belíssima Perséfone,
propícias a meu canto, vida aprazível garantam.
Certamente eu de ti lembrarei em outra canção.”

Homero, Hino Homérico II
  • Provavelmente, a mudança das figuras da deusa mãe na cultura helênica tem relação com o processo de civilização da sociedade grega. Claramente a deusa Gaia tem aspectos mais selvagens e tinha o poder de criação sem auxílio de deuses masculinos, dominando toda a existência e sendo indomável.
  • Enquanto Rheia já aparece casada e ligada mais a maternidade, sendo um marco do patriarcado quando os homens percebem o seu papel na concepção.
  • Deméter além de ter filhos com auxílio de deuses masculinos, é ligada ao processo da agricultura, uma grande marca civilizatória e que define a mudança de hábitos tidos como selvagens para hábitos civilizados e sedentários, os sacrifícios não eram mais de pessoas e animais, passando a ser de grãos.
  • Culminando em Koré, uma deusa frágil e propriedade de seus pais, sendo o maior símbolo de dependência e domesticação da mulher grega que só tinha os papéis de procriação e cuidados domésticos. A mudança de Koré em Perséfone também pode ser vista como um resgate do poder feminino e de seus domínios de fertilidade e morte.

I) Gaia

  • Gaia ou Gaea (do grego Γαια Γαιη Γη, terra) era a deusa da terra. Ela era uma das divindades elementares primordiais (protogenoi) nascidas no início da criação, segundo a Teogonia de Hesíodo.
  • Gaia foi a grande mãe de toda a criação – os deuses celestiais descenderam dela através de sua união com Uranus (Céu), os deuses do mar de sua união com Pontos (Mar), os Gigantes (Gigantes) de sua união com Tártaros (o Poço), e criaturas mortais nascidas diretamente de sua carne terrena.
  • Gaia era a principal antagonista dos deuses celestiais. Primeiro ela se rebelou contra seu marido Uranus, que havia aprisionado vários de seus filhos gigantes em seu ventre. Mais tarde, quando seu filho Cronus a desafiou aprisionando esses mesmos filhos, ela se aliou a Zeus em sua rebelião. Por fim, ela entrou em conflito com Zeus, pois ficou furiosa com a prisão dele de seus filhos Titãs no Tártaro. Ela deu à luz uma tribo de Gigantes (gigantes) e mais tarde o monstro Typhoeus para derrubá-lo, mas ambos falharam em suas tentativas.
  • Na antiga cosmologia grega, a Terra era concebida como um disco plano circundado pelo deus-rio Oceanus e circundado acima pela sólida cúpula do céu e abaixo pelo grande fosso (ou cúpula inversa) do Tártaro. A terra sustentava os mares e as montanhas em seu peito.
  • As mais antigas menções a Gaia estão na Ilíada (3.104) de Homero e na Teogonia (117) de Hesíodo. Píndaro, posteriormente chama a deusa de Γαια, “Terra Mãe”, assim como Ésquilo, que recorreu a uma forma mais arcaica Mα Tα, “Mãe Terra”.
  • Ela também foi chamada de “Senhora Terra”. Nas tabuinhas do Período Micênico, “ma-ka” se referia a Deméter e “ma-te-re te-i-ja” a Rheia, sendo o termo “po-ti-ni-ja”, “senhora”, um termo muito usado para diversas divindades micênicas femininas como Rheia, Tétis, Erínias, Hera, Atena e Deméter, sendo nenhuma a Gaia de Homero e de Hesíodo.
  • Gaia nas obras de Homero é concebida de uma forma animista, não puramente com um corpo material, mais como um espírito da terra do que uma deusa com formato antropomórfico como as demais divindades gregas. Ela não seria um agente ativo na criação do cosmos e nem possui agência direta nas questões humanas. No entanto, não podemos levar Homero como última palavra nos cultos helênicos.
  • Já nos poemas de Hesíodo, Gaia possui mais vitalidade e caráter pessoal. Ela auxilia na evolução do mundo divino e desempenha um papel nas lutas das dinastias divinas. Ela é enfermeira de Zeus, que segundo Hesíodo veio de Creta, o que era uma concepção popular dominante.
  • No Hino Homérico 30 a Gaia, ela é esposa de Urano, e é chamada de “mãe dos deuses”, denotando seu poder nutritivo e criativo, título muito associado a Rheia-Cibele. Gaia seria a deusa generosa que abençoa os lares com filhos e ricos estoques de alimentos.
  • Havia efetivamente, uma frequente associação entre Gaia, Rheia e Deméter.
  • Na pintura grega de vasos, Gaia era retratada como uma matrona rechonchuda que se elevava da terra, inseparável de seu elemento nativo. Na arte do mosaico, ela aparece como uma mulher de corpo inteiro, reclinada na terra, muitas vezes vestida de verde e às vezes acompanhada por tropas de Karpoi (Carpi, Frutas) e Horai (Horae, Estações).
  • Na Ilíada, o cordeiro negro e o javali eram sacrificados para Gaia. Ela atuava em fechamento de juramentos, na vingança pela quebra de juramentos, apesar da função de punir os mortos por perjuros era de Hades e Perséfone.
  • Gaia teria sido a primeira profetisa, apesar de ser raros os registros da própria Gaia fazendo previsões, e que teria dado esse poder a sua filha Têmis.
  • Em Dodona existem registros do culto de uma deusa primitiva da terra associada a um deus do céu ariano. Em Olímpia, Gaia também teria sido associada a Zeus, tendo um assento profético no templo, segundo Pausânias. No norte da Grécia quase não há vestígios do culto de Gaia. Existe um templo na costa de Bizâncio que sugere que ele existia em Mégara antes da partida dos colonos. Também existem registros de culto de Gaia na Etólia, Cyzicos, Tebas, Delfos, Atenas, Maratona em Tetrápolis e Agéia. Delfos era originalmente um local de culto a Gaia e Poseidon que foi substituído ao culto de Apolo com a chegada dos indo-europeus, fato que foi narrado pela morte da filha de Gaia, a serpente Píton pelo deus Apolo.
  • Na Agéia, existe um relato de Pausânias e Plínio, de que as sacerdotisas tinha que respeitar severa castidade e que bebiam o sangue de touro antes de descer uma caverna para fazer suas previsões. O touro também é uma animal sagrado para deuses da terra. Algo semelhante acontecia em Argos, onde a sacerdotisa de Apolo Piticos bebia um gole de sangue de touro. Essa prática era comum no culto de Gaia em Delfos e teria sido levada para o culto de Apolo.
  • As serpentes são muito associadas a deusas da terra e métodos oraculares. Além da serpente Píton, também é possível ver que o oráculo de Trofônio tem a ninfa Hercyna utilizando o símbolo de serpente e que precisava ser propiciada com bolos de mel. Em Épiro também já foi relatado por Eliano um sistema oracular baseado em serpentes sagradas, assim como em santuários de Asclépio para a adivinhação médica.
  • O culto de Gaia se manteve vivo através de outras divindades e suas emanações. Têmis se tornou a responsável pelos processos jurídicos. O culto dos mortos e julgamento dos perjúrios ficou com as Erínias, Apolo, Atena, Hades e Perséfone. Réia-Cibele teria sido um grande culto a deusa mãe, mas a mais brilhante das emanações ativas de Gaia foi Deméter.

II) Cibele

  • Cibele ou Kybele (do grego Κυβηλη, de uma caverna, aquela que governa as montanhas ou monte Cibele”) era a antiga Mãe Frígia dos Deuses, uma deusa da natureza primitiva adorada com ritos orgiásticos nas montanhas da Anatólia central e ocidental. 
  • Cibele também é chamada de mãe de Alce, do rei frígio Midas e de Nicéia.
  • A terra natal de Cibele é a Frígia, tendo culto remontando o segundo milênio AEC, ela pode ter uma possível precursora do culto no Neolítico mais antigo em Çatalhöyük, no sul da Anatólia. Cibele chega na Grécia Antiga por volta do século V AEC tendo o templo chamado Metroum, em Atenas.
  • Cibele nunca foi totalmente assimilada aos cultos gregos, provavelmente porque elas já partilhavam muitas semelhantes com deusas que já existiam na Grécia Antiga, como Reia na Grécia continental, Afrodite no Monte Ida , Ártemis em Karia e Deméter na Samotrácia.
  • Ela é a divindade central dos Mistérios da Samotrácia e Lemnia, já sendo sincretizada com Rheia e Hécate. Pausânias identificava Cibele como equivalente a Gaia, por ser a grande mãe, mas outros relatos sincretizam Cibele com outras deusas como Rheia, Deméter e Hécate.
  • O culto de Cibele era orgiástico, incluía música alta de tambores, címbalos e pandeiros. A voz de Cibele era simulada pelo zumbido de abelhas.
  • As sacerdotisas de Cibele eram retratadas com tambores e recebiam o nome de Melissae, nome que também foi dado a sacerdotisas de deusas sincretizadas. Já os sacerdotes dela, os Galli, eram eunucos e as iniciações com remoção do órgão genital ocorriam por volta de 25 de março. Existem mais referências sobre os Galli do que sobre as Melissae, e ainda assim são referências tardias e romanas.
  • Um dos mitos diz que Cibele era mãe de Sabazius, identificado pelos gregos como Dioniso, e lhe ensinou os seus mistérios, e assim um elemento dionisíaco foi amalgamado com a adoração de Reia. A confusão tornou-se então tão grande que o culto da Reia cretense foi confundido com o da mãe dos deuses frígios, e que as orgias de Dionísio se entrelaçaram com as de Cibele.
  • Sob o nome de Cibele, encontramos seu culto no Monte Sipylus, Monte Coddinus, na Frígia, que recebeu seus colonos da Trácia. Lá seu culto era bastante universal, pois dificilmente há uma cidade na Frígia em cujas moedas ela não apareça. 
  • Na Galácia, ela era adorada principalmente em Pessinus, onde se acreditava que sua imagem sagrada havia caído do céu. O rei Midas I construiu um templo para ela e introduziu solenidades festivas, e posteriormente um mais magnífico foi erguido por um dos Attali. O nome dela em Pessinus era Agdistis. Seus sacerdotes em Pessinus parecem, desde os primeiros tempos, ter sido, em alguns aspectos, os governantes do lugar, e ter obtido as maiores vantagens possíveis de suas funções sacerdotais. Mesmo depois que a imagem da deusa foi transportada de Pessinus para Roma, Pessinus ainda continuou a ser considerada a metrópole da grande deusa e a principal sede de seu culto. 
  • Sob nomes diferentes, poderíamos traçar o culto de Cibele ainda mais a leste, até o Eufrates e até mesmo Bactriana. Ela era, de fato, a grande deusa do mundo oriental, e lá a encontramos adorada sob diversas formas e sob diversos nomes. No que diz respeito aos romanos, desde os tempos mais remotos eles adoravam Júpiter e sua mãe Ops, a esposa de Saturno. Quando, portanto, lemos que, durante a guerra de Aníbal, eles buscaram em Pessinus a imagem da mãe dos deuses, devemos compreender que o culto então introduzido era bastante estranho para eles, e ou manteve-se distinto do culto às Operações, ou uniu-se a ele. Um templo foi construído para ela no Palatino, e as matronas romanas a homenagearam com o festival da Megalésia. A forma como ela era representada nas obras de arte era a mesma da Grécia, e seus sacerdotes castrados eram chamados de Galli.
  • Em todos os países europeus, Reia foi concebida para ser acompanhada pelos Curetes, que estão inseparavelmente ligados ao nascimento e à educação de Zeus em Creta, e na Frígia pelos Corybantes, Atys e Agdistis. Os Coribantes eram seus sacerdotes entusiastas, que com tambores, címbalos, trompas e armadura completa executavam suas danças orgiásticas nas florestas e nas montanhas da Frígia. 
  • O leão era sagrado para a mãe dos deuses, porque ela era a divindade da terra, e porque o leão é o mais forte e importante de todos os animais da terra, além de que se acreditava que os países em que a deusa era adorada, abundava em leões. Na Grécia, o carvalho era sagrado para Rhea. O ideal mais elevado de Reia nas obras de arte foi produzido por Fídias; raramente era representada em pé, mas geralmente sentada num trono, adornado com a coroa mural, da qual pendia um véu. Os leões geralmente aparecem agachados à direita e à esquerda de seu trono, e às vezes ela é vista andando em uma carruagem puxada por leões.
  • No entanto, Cibele chega a Roma em 204 AEC com grande pompa e circunstância após consultas, tanto no Oráculo de Delfos quando com os Livros Sibilinos (uma coleção de versos do oráculo chamado “A Sibila”), sobre como superar as ameaças de Aníbal, o Grande, na Segunda Guerra Púnica. O prenúncio do tirano não poderia ter surgido em hora pior para os romanos. A fome e a peste se alastraram e uma guerra pioraria ainda mais a situação. O oráculo disse “se algum dia um inimigo estrangeiro invadisse a Itália, ele poderia ser derrotado e expulso, se Cibele, a Mãe dos Deuses de Ida, foi trazida de Pessinus para Roma.” Parecia o segredo para o sucesso e vitória contra o inimigo. A chegada da deusa também parecia ser aceita por conta das supostas raízes troianas de Roma. Aníbal foi, provavelmente derrotado, e o culto a Cibele se estabeleceu.
  • O sacerdócio de Cibele em Roma não foi tão aceito por conta da castração masculina e pelas festas orgiásticas. Com isso, os cidadãos romanos foram proibidos de se tornarem sacerdotes. Uma nova deusa abelha surgiu entre os romanos, a deusa Melona que protegia a doçura do mel e suas sacerdotisas também se chamavam de melissas.
  • O mito mais conhecido é do seu nascimento hermafrodita e seu amor pelo jovem Átis narrado por Pausânias. Átis teria nascido no solstício de inverno, assim como outros deuses solares mais tardios.
  • Em um dos mitos, Cibele era filha do deus do céu e da mãe terra frígia. Ela nasceu como uma hermafrodita chamada Agdistis que foi castrada pelos deuses para se tornar a deusa Cibele. O deus do céu frígio é identificado com o Zeus grego no relato do mito de Pausânias.

“A lenda local [Frígia] sobre ele [Átis] ser este. Zeus [isto é, o deus do céu frígio identificado com Zeus], diz-se, durante o sono, deixou cair no chão a semente, que com o passar do tempo enviou um Daimon, com dois órgãos sexuais, masculino e feminino. Eles chamam o daimon de Agdistis [Cibele]. Mas os deuses, temendo Agdistis, cortam do órgão masculino. Dele cresceu uma amendoeira com o fruto maduro, e uma filha do rio Saggarios (Sangarius), dizem, pegou o fruto e colocou-o no seio, quando ele imediatamente desapareceu, mas ela estava com criança. Um menino nasceu e foi exposto, mas foi cuidado por um bode. À medida que ele crescia, sua beleza era mais do que humana, e Agdistis [Cibele] se apaixonou por ele. Quando ele cresceu, Átis foi enviado por seus parentes para Pessinos [cidade da Frígia], para que ele pudesse se casar com a filha do rei. A canção de casamento estava sendo cantada, quando Agdistis apareceu, e Átis enlouqueceu e cortou seus órgãos genitais, assim como aquele que estava lhe dando sua filha no casamento. Mas Agdistis arrependeu-se do que tinha feito a Átis e convenceu Zeus a garantir que o corpo de Átis não apodrecesse nem se deteriorasse. Estas são as formas mais populares da lenda de Átis.”

Pausânias. Descrição da Grécia 7. 17. 8 (trad. Jones) (diário de viagem grego do século II EC).

III) Rheia

  • Rheia ou Rhea (do grego Ρεια Ρεα, fluxo, facilidade) era a titânide mãe dos deuses e deusa da fertilidade feminina, maternidade e geração. A sua grande importância para os helenos era genealógica, porque segundo Hesíodo, ela teria gerado todos os deuses olímpicos, exceto Afrodite, por isso é muito associada ao epíteto “Mãe dos Deuses”.
  • O nome da deusa Rheia aparece isolado, pela primeira vez, na Ilíada (14.203) de Homero, como esposa de Cronos e mãe dos deuses em Hesíodo (453). Já no Hino Homérico 14 são usados muitos atributos de Cibele para se referir a Rheia.
  • Como esposa de Cronos, ela representava o fluxo eterno do tempo e das gerações; como a grande Mãe (Meter Megale), o “fluxo” era o sangue menstrual, as águas do parto e o leite. Ela também era a deusa do conforto e do bem-estar, uma bênção refletida na frase homérica comum “os deuses que vivem à vontade (rhea)”.
  • No mito, Rhea era a esposa do Titã Cronos e Rainha do Céu. Quando seu marido ouviu uma profecia de que seria deposto por um de seus filhos, ele começou a engolir cada um deles assim que nasceram. No entanto, Rhea deu à luz seu filho mais novo, Zeus, em segredo e o escondeu em uma caverna em Creta guardada por Curetes que lutavam contra escudos. Em seu lugar, ela presenteou Cronos com uma pedra envolta em panos que ele prontamente devorou.
  • Aparentemente, Rheia era cultuada durante o Período Micênico, como “Mãe Divina” (ma-te-re te-i-ja), pelo menos em Pilos, embora seja possível que já exista uma associação entre Rheia e Deméter nessa época. A partir do Período Arcaico, no entanto, a deusa foi progressivamente incorporada pela deusa asiática da Anatólia, Cibele, personificação da fecundidade da natureza. Ambas eram retratadas como mulheres matronas, geralmente usando uma coroa de torre e acompanhadas por leões. No século III AEC a fusão entre as duas deusas já era completa.

IV) Deméter

  • Deméter (do grego Δημητηρ) era a deusa olímpica da agricultura, grãos e pão que sustentava a humanidade com a rica generosidade da terra. 
  • Ela presidiu o principal dos cultos de mistérios, os Mistérios Elêusis, que prometiam a seus iniciados o caminho para uma vida após a morte abençoada. 
  • Deméter era retratada como uma mulher madura, geralmente usando uma coroa e carregando feixes de trigo ou uma cornucópia (chifre da abundância) e uma tocha.
  • Deméter tem aspectos selvagens, civilizatórios e fertilizantes. Estudar o seu culto, é entender também sobre a construção da sociedade helênica e também sua transição para as cidades-estado.
  • Os termos “mãe-terra” ou “mãe-milho” são comumente empregados no culto de Deméter.

V) Perséfone

  • Perséfone (do grego Περσεφονη, destruidora da luz) era a deusa rainha do submundo, esposa do deus Hades. Ela também era a deusa do crescimento da primavera, que era adorada ao lado de sua mãe Deméter nos Mistérios de Elêusis. 
  • Perséfone foi intitulada Koré (a Donzela) como a deusa da generosidade da primavera. Certa vez, quando ela estava brincando em um prado florido com suas companheiras ninfas, Koré foi agarrada por Hades e levada para o submundo como sua noiva. Sua mãe Deméter se desesperou com seu desaparecimento e a procurou por todo o mundo acompanhada pela deusa Hécate carregando tochas. Quando ela soube que Zeus havia conspirado no sequestro de sua filha, ela ficou furiosa e se recusou a deixar a terra frutificar até que Perséfone fosse devolvida. Zeus consentiu, mas como a garota provou a comida de Hades – um punhado de sementes de romã – ela precisa passar uma parte do ano com o marido no submundo. Seu retorno anual à terra na primavera era marcado pela floração dos prados e pelo súbito crescimento do novo grão. Seu retorno ao submundo no inverno, por outro lado, viu a morte das plantas e a interrupção do crescimento.
  • Em outros mitos, Perséfone aparece exclusivamente como a rainha do submundo, recebendo pessoas como Héracles e Orfeu em sua corte.
  • Perséfone era geralmente retratada como uma jovem deusa segurando feixes de grãos e uma tocha flamejante. Às vezes ela era mostrada na companhia de sua mãe Deméter, e do herói Triptolemos, o professor de agricultura. Em outras ocasiões, ela aparece entronizada ao lado de Hades.

Outras mitologias

  • As deusas-mãe estão presentes em diferentes mitologias, veja alguns exemplos:

Referências

  1. Rosa, E. B. et al. Hinos homéricos: tradução, notas e estudo. Edição e organização Wilson Alves Ribeiro Jr. Edição bilíngue, português e grego. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
  2. Marquetti, F. R. (2003). A protofiguratividade da Deusa Mãe. Classica-Revista Brasileira de Estudos Clássicos, 15(15/16), 17-40.
  3. Farnell, L. R. (1907). The cults of the greek states. Vol 3.
  4. Ashley, E. (2023). Meeting the Melissae: The Ancient Greek Bee Priestesses of Demeter. John Hunt Publishing.
  5. Marquetti, F. R. Da sedução e outros perigos: o mito da Deusa Mãe. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
  6. Podcast Diálogo dos Olimpianos. 20. O Mito da Deusa Mãe (Entrevista com Flávia Marquetti).
  7. Gaia. Disponível em <https://www.theoi.com/Protogenos/Gaia.html> Acessado 15/07/2023.
  8. Kybele. Disponível em <https://www.theoi.com/Phrygios/Kybele.html> Acessado 17/02/2024.
  9. Rhea. Disponível em <https://www.theoi.com/Titan/TitanisRhea.html> Acessado 15/07/2023.
  10. Deméter. Disponível em <https://www.theoi.com/Olympios/Demeter.html> Acessado 15/07/2023.
  11. Persephone. Disponível em <https://www.theoi.com/Khthonios/Persephone.html> Acessado 15/07/2023.

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