Bruxaria devocional,  Conceitos básicos,  Deuses ctônicos,  Panteão helênico

Deuses urânios e ctônicos

Introdução

  • O texto tem por objetivo apresentar a diferença entre o culto de deuses urânios e deuses ctônicos dentro do paradigma helênico e também uma alternativa a esse paradigma dentro da bruxaria moderna e na minha prática pessoal.
  • Comecemos pela definição dos termos:
    • Ouranía ou Urania (do grego Οὐρανία, ΟΥΡΑΝΙΑ, do inglês “ouranic”, do Céu, celestial, de Ouranós (Urano; Gr. Οὐρανός). Esse termo se refere aos deuses helênicos que são celestiais, olimpianos, telúricos, ligados a racionalidade e a luz.
    • Chthonia ou Khthónia (grego χθόνια, ΧΘΟΝΙΑ, do inglês “chthonic”, terreno, protetor dos campos). O termo khthonic refere-se à superfície da terra. Khthonic não se refere ao que está sob a terra que é referido pelo termo ypokhthonic (ὑποχθόνιος). No entanto, hoje em dia esse termo é usado para deuses ligados a fertilidade, agricultura e também ao subterrâneo, sombras e submundo.
O conselho dos deuses. Artista: Raffaello Sanzio (Criação: 1517 a 1518).

Oferendas aos deuses

  • Partindo do conceito de Xênia, a hospitalidade grega diz que ao se alimentar na casa de alguém, você se torna convidado daquela pessoa, então se estabelece uma relação de respeito recíproca entre o anfitrião e seu convidado. Com isso, fazer uma oferenda para os helenos é uma forma de convidar a divindade e iniciar uma conversa com ela. Eles não veem as oferendas como moedas de troca, mas como um gesto de respeito.
Oferenda para Hermes.

Altar helênico

  • O templo é a morada dos deuses, normalmente não é local de culto ou reunião de fiéis.
  • O altar helênico é um espaço para fazer a maior parte dos rituais e onde os fiéis se reúnem. Ele pode ser ou não dedicado para uma divindade em particular. No culto cívico, o altar poderia ser uma fogueira. No culto doméstico, a lareira da casa também era considerado um altar onde eram feitos sacrifícios.
  • O santuário helênico já tem relação com uma área devocional onde o altar está localizado. O santuário poderia ser um templo e o altar ficaria fora do tempo. Se o altar estivesse dentro do templo, ele era usado para sacrifícios sem sangue.
  • Atualmente, o seu altar helênico pode ser feito dentro da sua casa. A área da sua casa pode ser vista como um santuário.
O conselho dos deuses. Artista: Peter Paul Rubens (Criação: 1622-1624).

Deuses urânios

  • Os deuses urânios (“Ouranic Theoi”, “Theoi Ouranioi” ou “Theoi Meteoroi”) por morarem no alto do monte Olimpo, também são chamados de olimpianos.
  • Na Grécia antiga seus altares eram chamados de ‘bômos’ (βωμός), em geral cubos isolados de cerca de 1 m de altura, apesar de existirem de tamanho maior.
  • Os altares de sacrifícios eram quadrados ou redondos e muitos tinham um “epipuron” (ἐπίπυρον) ou tinha uma reentrância no topo para queimar as oferendas de animais. Altares improvisados ​​para as divindades ourânicas eram feitos de terra, turfa ou pedras coletadas no local. O que importava era que a oferta fosse sacrificada no alto, acima do chão.
  • Altares para libações poderiam ter um cano que drenava o líquido.
  • Rituais eram diurnos e realizados nas cidades.

Bomos (βωμός) – significa propriamente qualquer elevação; um altar para os deuses urânios.

Epipuron (ἐπίπυρον) – uma panela ou braseiro móvel, usado em cima de um bômos para servir de altar para holocaustos. Poderiam ter três pés e eram feitos de metais preciosos. Eles poderiam ser usados sem o bômos no culto doméstico em casas que não tinham lareira.

Glossário do site “Hellenic Reconstructionism”, vide referências.
Epipuron
Medea e as filhas de Pelias (Altes Museum, Staatliche Museen zu Berlin, 421 AEC – 411 AEC). Descrição: O relevo de três dígitos mostra Medeia à esquerda; Do lado direito, uma das filhas mais novas de Pelias está arrastando o pesado caldeirão de três pernas usado como altar portátil; Contemplando a natureza monstruosa do que está acontecendo, a filha mais velha fica na borda direita da cena voltada para a frente, com a cabeça entre as mãos. 

  • Suas oferendas, como bolos, pães, frutas, grãos e carnes, podem ser queimadas e oferecer incensos e o devoto direciona o olhar e a palma da mão aberta para o céu. Os devotos reservam parte das oferendas para os deuses, mas também podem compartilhar de parte dos sacrifícios.
  • As libações de vinho eram misturadas com água.
  • As cerimônias para deuses urânios envolvia festas e tinham um tom leve, poderiam ser feitas nos templos e dentro da cidade.

Deuses ctônicos

  • Os deuses ctônicos (“Khthonic Theoi” e “Theoi Khthonioi”) por estarem relacionados a terra e ao submundo.
  • Os altares para sacrifícios em honra de deuses ctônicos eram baixos e se chamavam “eschára” (ἐσχάρα). Também existiam poços de oferendas chamados “bothros” (βόθρος). Em alguns casos também usavam um epipuron.
  • Rituais noturnos e realizados fora da cidade.

Bothros (βόθρος) – fosso de oferecimento aos deuses ctônicos.

Eschara (ἐσχάρα) – um altar baixo usado em holocaustos, geralmente para heróis, semideuses e espíritos (da natureza). Às vezes usado para indicar a projeção correspondente no topo de um bômos que continha seu próprio fogo.

Glossário do site “Hellenic Reconstructionism”, vide referências.
  • No Hino Homérico II a Deméter é citado o poço Partênio, também chamado de poço Kallichoron (significa “estrutura bem moldada”), poço de Deméter ou poço das virgens, onde Deméter teria descansado após peregrinar em busca de sua filha raptada. Esse poço é encontrado nas ruínas do santuário Telestério em Elêusis e é datado do século VI ao V AEC. O poço tem 6 m de profundidade com um fundo de metal. Acredita-se que são depositadas oferendas nesse poço e eram feitos rituais religiosos ao redor dele.
  • O devoto pode ficar de joelhos, olhando para baixo e com as palmas das mãos voltadas para baixo, dando batidas no chão.
  • Tradicionalmente as oferendas não são compartilhadas entre os devotos, sendo oferendas inteiramente votivas, sendo queimadas ou enterradas. Isso ocorre porque os deuses ctônicos geralmente são relacionados com situações produtoras de miasmas, como o nascimento e a morte, por abrir portais para o submundo. Elas eram feitas mais para apaziguar as forças do deus.
  • Os deuses ctônicos recebiam libações sem vinho como água, leite e mel ou com vinho sem misturar com água.
  • As cerimônias para deuses ctônicos eram feitas fora dos muros da cidade, ou iniciavam dentro da cidade e terminavam fora da cidade. O tom da festa era mais sombrio porque a invocação de deuses ctônicos gerava medo.

Deuses psicopompos

  • Existem deuses que conseguem caminhar entre os ambientes urânios e ctônicos. Isso se reflete aos epítetos ligados aos céus, agricultura e morte em uma mesma divindade. São deuses como Perséfone, Hermes, Hécate e outros psicopompos.
  • Ainda tem os deuses como Hermes que tem o papel de guiar almas de mortos entre os mundos e poder levar mensagens dos deuses entre os mundos, esses são chamados de psicopompos.
  • Neste caso, o culto de deuses com essa dualidade ctônica e urânia, você faz associações com seus epítetos para saber como se comportar no ritual helênico.
Almas na margem do Aqueronte. Artista: Adolf Hirschl (1903).

Controvérsias acadêmicas

  • Segundo Ekroth, G. (2019), a divisão urânio-ctônica defendida pelos estudiosos modernos é baseada principalmente nas fontes literárias, particularmente aquelas que datam do período romano tardio ou mesmo bizantino, como o trabalho de lexicógrafos, gramáticos e acadêmicos que tinham pouco ou nenhum conhecimento prático dos rituais que eles descreveram.
  • Suas explicações podem até, em grande medida, ser especulações de poltrona, em vez de reflexões de cultos realmente praticados. Além disso, o modelo fez uso de uma mistura indiscriminada de fontes de várias datas e personagens, com pouca atenção às mudanças ao longo do tempo.
  • As tentativas de aplicar as categorias olímpica e ctônica ao material arqueológico e iconográfico mostraram as dificuldades do modelo diante da realidade cultural, e hoje muitos estudiosos são céticos quanto à utilidade do modelo para entender as práticas sacrificiais.

Como a Héspera faz?

  • Eu não sigo o paradigma helenista, embora creio que seja respeitoso aprender sobre os costumes tradicionais em honra aos ancestrais. Por conta disso, eu busco reproduzir nos meus rituais o máximo possível dos costumes tradicionais.
  • Eu não consigo concordar com o conceito de miasma como um todo, não vejo como tabu me relacionar com deuses ctônicos e nem vejo como poluição ter contato com várias situações consideradas produtoras de miasma.
  • Para mim, eu visito o submundo sempre que vou dormir ou entro em estado de gnose, por isso, vejo com maior naturalidade. No entanto, sei que estar em contato com o submundo requer proteções e respeito, não é um local totalmente seguro para iniciantes devido a grande quantidade de espíritos em situações diversas por lá.
  • Eu também não faço tantas diferenciações entre deuses ctônicos e urânios. Eu sempre tenho incenso e compartilho oferendas com deuses ctônicos e urânios. Eventualmente faço libações para deuses ctônios diretamente na terra ou no vaso de plantas. Também costumo enterrar oferendas de deuses ctônios.
  • A questão do gestual que acabo adotando, olhando para os céus ou para terra dependendo da divindade ou epíteto que estou trabalhando. No entanto, eu vejo os deuses como energias da natureza, então eles não se localização acima ou abaixo, mas por toda a parte, eles se manifestam em situações, pessoas, plantas e animais.
  • Eu tenho preferência por altares baixos porque eu gosto de sentar no chão e ter ele na altura dos olhos. Não é necessariamente algo relacionado com o tradicional helênico.
Exemplo de altar baixo que é a preferência da Héspera.
  • Eu não consigo deixar de fazer um paralelo entre o holocausto feito em altares com fogo e os churrascos que fazemos. Então, sempre que acendo a churrasqueira, eu peço para os deuses compartilharem comigo do banquete. Eu acredito que essas churrasqueiras na nossa atualidade seriam ótimos equivalentes para os epipuron clássicos, sendo ótimas e práticas para rituais coletivos.
Churrasqueira como substituto do epipuron.

Referências

  1. Carvalho, A. L. R. D. (2021). O Hino Homérico a Deméter e o Rapto de Perséphone: sentido do mito e o estabelecimento dos Mistérios eleusinos. Monografia. Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
  2. Ekroth, G. (2019). Why Does Zeus Care About Burnt Thighbones from Sheep? Defining the Divine and Structuring the World through Animal Sacrifice in Ancient Greece. History of Religions58(3), 225-250.
  3. Vernant, J. P. (2006). Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: WMF Martins Fontes.
  4. How to honor hellenic gods: ouranic vs chthonic. Disponível em <https://www.tumblr.com/heatherwitch/168907674410/how-to-honor-hellenic-gods-ouranic-vs-chthonic> Acessado em 15/01/2023.
  5. Glossary. Disponível em <https://hellenic-reconstructionism.tumblr.com/glossary> Acessado em 15/01/2023.
  6. The beginners guide to hellenisms. Disponível em <http://baringtheaegis.blogspot.com/2015/03/the-beginners-guide-to-hellenismos_14.html> Acessado em 15/01/2023.
  7. Bômos and bothros; the ritual altars of the ancient Hellenes. Disponível em <http://baringtheaegis.blogspot.com/2013/01/pbp-bomos-and-bothros-ritual-altars-of.html> Acessado em 15/01/2023.
  8. Sky gods. Disponível em <https://www.theoi.com/greek-mythology/sky-gods.html> Acessado em 15/01/2023.
  9. Underworld gods. Disponível em <https://www.theoi.com/greek-mythology/underworld-gods.html> Acessado em 15/01/2023.
  10. Eleusinian mysteries. Disponível em <https://eaglesanddragonspublishing.com/tag/eleusinian-mysteries/> Acessado em 15/01/2023.
  11. Kallichoron well. Disponível em <https://www.efada.gr/en-us/Archaeological-Sites-Monuments/Eleusis/Archaeological-Site-of-Eleusis/kallichoron-well> Acessado em 15/01/2023.

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