Bruxaria,  Bruxaria devocional,  Conceitos básicos,  História da Bruxaria

Bruxaria

Introdução

  • Bruxaria é um termo muito amplo e por isso já começo falando que esse texto não tem a pretensão de criar verdades absolutas e inquestionáveis. Cada praticante de bruxaria pode ter uma definição diferente para o que seria a bruxaria. Espero que com esse texto você conheça algumas dessas visões diversificadas e então crie as suas próprias conclusões.
  • Eu tenho a tendência de falar “bruxa” no feminino, porque boa parte do meu público é feminino, mas a bruxaria não é uma prática só de mulheres, todas as pessoas podem ser praticantes independente de gênero ou sexo.
  • Eu considero a bruxaria parte integrante do movimento do paganismo, por isso, recomendo a leitura do texto sobre paganismo primeiro.
Descubra se você é bruxa!

Definição de bruxaria

  • Por aqui irei reunir algumas visões diferentes do que é bruxaria para te ajudar a refletir e criar suas próprias conclusões:
    • Bruxaria histórica – É o termo utilizado por acadêmicos e que tem um tempo histórico para a sua criação. A bruxa no contexto histórico foi um termo usado pela Igreja Cristã para denominar pessoas que eram adoradoras do Diabo e que foram perseguidas pela Inquisição.
    • Feitiçaria histórica – É o termo utilizado por acadêmicos e que veio como oposição ao termo de bruxaria histórica. Neste caso o praticante de feitiçaria seria um devoto ou sacerdote de uma religião não cristã ou que realizava práticas de manipulação de objetos (ervas, cristais, energias, etc.) para alcançar objetivos práticos (saúde, vingança, etc.) ou tinham conhecimentos de medicina tradicional. Como parteiros, curandeiros, xamãs, sacerdotes, etc. Alguns feiticeiros foram considerados bruxas, mas nem todas as bruxas eram feiticeiros.
    • Bruxaria neopagã – Caminho religioso que se desenvolveu a partir do resgate do paganismo pré-cristão de diferentes culturas. É uma praticante de magia, podendo variar o sistema mágico e suas técnicas. Ela também é chamada de bruxaria devocional porque possui culto a divindades. O panteão culto varia de acordo com o paradigma religioso do praticante, podendo inclusive acumular mais de um panteão. O princípio da bruxa é ir contra o status quo religioso, sexual e social, se apropriando do termo “bruxaria” como forma de declaração de heresia e posicionamento político. Possui práticas ligadas aos ciclos naturais, sacraliza suas manifestações, é animista e politeísta, podendo ser monolatra. A bruxa tem práticas de resgate ancestral como necromancia, adivinhação, divinação e cura. A bruxa busca estar atento a pautas ambientais, feministas, anti-racistas, contra desigualdade social e anti-preconceitos no geral. A bruxa busca a liberdade como um todo, e a autonomia do praticante, sem prejudicar a liberdade do outro e buscando o poder dentro de si. Não é um caminho dogmático e nem segue um livro sagrado. Não é considerado reconstrucionismo porque pode incluir práticas inteiramente modernas e personalizadas, assim como realizar técnicas e rituais com paradigmas de diferentes culturas.
    • Bruxaria lato sensu– Este caso é semelhante ao anterior, mas exclui a questão religiosa. O praticante não tem práticas devocionais, podendo inclusive ser de outras religiões ou ser ateu. A bruxaria seria considerada um ofício para prestação de serviços como feitiços e consultas oraculares técnica mágica e oracular. Além disso, a bruxaria pode ser considerada um modo de encarar a realidade mais próximo da natureza e com a busca do autoconhecimento. Esse termo também pode ser adotado por pessoas revolucionárias que lutam por questões sociais e ambientais menos desiguais.

Bruxaria na Grécia Antiga

  • Por conta da minha bruxaria ter uma base na Fé Helênica. Eu acho interessante começar falando brevemente sobre a bruxaria no contexto helênico.
  • Os praticantes da magia na Grécia Antiga poderiam ser chamados com os seguintes termos, segundo o autor da obra “Sobre a Doença Sagrada”, Platão e na obra “Elogio a Helena” de Górgias de Leontini (cerca de 485-380 AEC):
    • Magos (magoi) – Termo deriva do persa antigo para sacerdote, magu que também é etimologicamente associado ao avéstico com um sentido de “membro de uma tribo”. Só que o termo mageia que passou para o latim como magus que originou o nosso termo “magia”. O termo “mageia” se refere a atividade dos magos, já o termo magikos é um adjetivo relacionado. Os termos manageuein (utilizar encantos, sortilégios), manganon (encanto, poção), mageuein (se um magos, utilizar artes mágicas), mageumata (encantos, feitiços) são todos derivados. Esse termo magos nos fala quase nada sobre o que essas pessoas de fato faziam. Para os gregos, os magoi persas eram especialistas religiosos, mas quando o termo foi para o grego por volta do século V AEC, era um termo que se referia a charlatania e ganhos pessoais. A primeira citação que se tem do termo “magos” em grego encontra-se em Heráclito de Éfeso, do final do século VI AEC, relatada por um autor posterior chamado Clemente de Alexandria (início do século III EC), deixando na dúvida se ela foi original e tinha conotação pejorativa ou se era em referência aos magoi persas.
    • Goes – Outro termo usado para os magos é o goes, que são os praticantes de outro tipo de magia, a goeteia. O goes originalmente era um especialista em goös que é um tipo de lamentação para os mortos. Posteriormente os goes tinham habilidade de invocar o espírito dos mortos e a goeteia passou a ser exclusivamente essa prática de invocação dos mortos. Tanto o termo goes quanto magos passou a ser uma ofensa próxima a trapaceiro;
    • Purificadores (kathartai) – Eram um grupo que poderia ser separado entre os purificadores com status de profissionais e outros que eram menos legítimos, que surgiam apenas em situações de crise para oferecer seus serviços. Existem muitos mitos e relatos que falam o poder de purificar doenças e loucura, assim como a purificação de cidades inteiras após sacrilégios e maldições. Exemplo de purificadores famosos são Melampo, Epimênides de Creta e Empédocles de Acragas;
    • Sacerdotes mendicantes (agurtai, tecnicamente metragurtai e menagurtai) – Eram mendigos errantes, frequentemente vindos da Ásia Menor, que às vezes alegavam possuir habilidades proféticas. Outro grupo de agurtai podem ser devotos de Reia ou Cibele, a Mãe dos Deuses, originários da Frígia;
    • Adivinhos (manteis) – Era um grupo heterogêneo que no Período Clássico, estavam ligados a templos e a exércitos formando uma classe profissional de adivinhos. Exemplo é a Pítia, do Templo de Delfos que herdava a sua posição vitalícia no templo. Adivinhos militares famosos foram Tisâmeno e Hegesístrato, de Elis. Eles eram conhecidos por sua capacidade de interpretar as entranhas de animais sacrificados, como vacas, ovelhas e cabras para auxiliar em decisões militares verificando se os deuses estavam favorecendo alguma ação. Também existiam outras formas de adivinhação, como a observação do voo e canto de aves. Existiam também os adivinhos itinerantes que viajavam entre cidades oferecendo seus serviços, como exemplo de Deífono da Apolônia. Os manteis também eram conhecidos por se comunicar e evocar a alma dos mortos (psykhagogein);
    • Charlatães (alazones) – É um termo perjorativo para qualquer tipo de curandeiros e presunçosos, bravateadores e fingidores no mundo antigo, mas além de enganar, não ofereciam nada sobre a magia;
    • Feiticeiras (pharmakis, no feminino e pharmakeus, no masculino) – Termo para praticantes de feitiçaria que utilizavam a pharmaka (no singular pharmakon), que era o nome dado a drogas que poderiam ser remédios, venenos ou psicotrópicos, tendo sentido medicinal e mágico. Segundo Aristófanes em sua obra “As Nuvens” qualquer um poderia contratar uma pharmakis da Tessália, que era a região ao norte da Hélade, onde era a terra natal das feiticeiras. Termos relacionados estão o feitiço (epoidai), magia (pharmakeia) enfeitiçar (pharmakeuein) e o lançar um encanto (ekgoeteuein). Exemplos de pharmakis mitológicas são Circe e Medeia.

“Aqueles que vagam pela noite: magoi, bacantes, mênades, iniciados.”

Citação de Clemente de Alexandria (início do século III EC) sobre uma profecia de punição por fogo para esses caminhantes noturnos que foi proferida por Heráclito de Éfeso, do final do século VI AEC.

Medea. Artista: Frederick Sandys  (1829–1904).
  • Basicamente existem três termos ligados a magia na Grécia Antiga: mageia, goeteia e pharmakeia. Já o termo feitiço ou encantamento tem proximidade com o termo epoide que significa “canto entoado sobre ou contra”, que se relaciona com os termos epaeidein e kataeidein que significa “enfeitiçar”, o termo epoidos que significa “encantador” e katadesmoi que significa “feitiço de amarração”.
  • Como foi possível ver, o termo epoidos, goes e magos já possuiu uma conotação pejorativa equivalente a charlatão, fraude ou trapaceiro. Esse significado perdurou até o Período do Império Romano.
  • Os termos goes e goeteia eram considerados termos mais classicamente gregos do que magos, que era mais próximo do termo persa com conotação positiva. Por isso, os termos derivados de magos tiveram menor circulação entre os gregos, o que mudou entre os romanos. Os romanos usavam os termos magus (mago), magia (magia), magicus (mágico) com frequência maior e sem o preconceito que os gregos tinham com o termo. Virgílio (70-19 AEC) usa o termo magicus pela primeira vez em sua obra Éclogas e o termo magicae artes (artes mágicas) em Eneida.
  • De maneira geral, os praticantes de magia na Grécia Antiga realizavam purificações, sacrifícios de sangue, invocação dos mortos, escrita em placas de imprecação e encantos de amarração, feitiços, uso de drogas, fabricavam estatuetas e interpretavam presságios. Além de terem poder de atrair a Lua, provocar eclipses, controlar o clima e retornar a energia vital dos mortos. Muitas dessas práticas envolviam a invocação de divindades e o sucesso dependia da ação divina sobre as questões solicitadas.
  • O termo de “Strix” também foi correlacionado a bruxas ou feiticeiras, tendo a imagem de uma mulher-pássaro que voava a noite ou projetava a sua alma para penetrar casas e devorar, destruir e roubar bebês recém-nascidos.
  • Esse termo pode ter três significados principais dependendo da fonte:
    • Uma mulher, chamada Polifonte, devota de Ártemis que foi punida por ignorar Afrodite sendo transformada em strix (veja mito abaixo). Esse termo foi cunhado para praticantes de feitiçaria da região da Macedônia, Tessália e da Trácia;
    • Como ave, possui características marcantes de um morcego por ser noturno, ser um presságio do mal e ter um grito agudo e estridulo como morcego em voo, e ficar de cabeça para baixo como um morcego empuleirado.
    • Como mulher-pássaro, ela seria odiada pelos homens e deuses por possuir desejo de sangue e carne humanos, mas Boios transfere essa característica para o filho de Polifonte, o Agrios que seria um abutre.

Na obra᾿Ορνιθογονία de Boio foi contada a história de Polifonte que Antonino Liberalis preservou em seu Μεταμορφώ σεων συναγωγή. Isso pode ser resumido da seguinte forma: Polifonte, filha de Hipponoos e Traissa, rejeitou Afrodite e foi para as montanhas como companheira de Ártemis em seus
esportes. Irritada com o insulto, Afrodite menosprezada fez com que ela se apaixonasse loucamente por um urso. Ao descobrir sua situação, Ártemis, com ódio amargo, virou as feras contra ela. Então Polifonte fugiu com medo para a casa de seu pai e no devido tempo deu à luz dois filhos, Agrios e Oreios. Estes se tornaram homens de enorme tamanho e imensa força. Eles não demonstraram honra a Deus ou aos homens, mas foram desenfreadamente insolentes para com todos. Eles levaram todos os estranhos que encontraram e festejaram com sua carne. Assim, eles provocaram a ira de Zeus, que enviou Hermes para puni-los. Ele iria cortar suas mãos e pés, mas Ares, a quem Polifonte traçou sua linhagem, os salvou desse destino. Tanto a mãe como os filhos, porém, foram transformados em pássaros. Polifonte tornou-se “uma strix que chora a noite, sem comida ou bebida, com a cabeça abaixo e as pontas dos pés acima, um prenúncio de guerra e conflitos civis para os homens. Oreios se tornou um pássaro que não é visto como bom e Agrios se tornou um abutre que de todas as aves mais detestadas pelos deuses e pelos homens e possuidoras de um desejo constante por carne e sangue humanos.

Obra᾿Ορνιθογονία de Boio, dificilmente posterior ao século IV AEC (Oliphant, 1913).
  • Com um significado latino, é possível ver a primeira menção de strix em Pseudolus de Plautus, por volta de 191 AEC. No entanto, essa menção pode ser vinda do original grego visto na comédia Medeia, do século IV AEC, como menção a obra de Boio. Eles dão ênfase ao aspecto antropofágico da strix, que devota vísceras de suas vítimas ainda vivas.
  • A única outra referência latina está em Titínio, do século II AEC, preservado no Liber Medicinalis de Quintus Serenus Sammonicus, no capítulo de título “Infantibus dentibus vel strige inquietatis”. Nessa passagem, o Titínio fala da strix como um bicho-papão do berçário, sendo indicado o uso de um encanto de alho para afastá-las.
  • Existem também referências a strix em obras de Ovídio, Petrônio e João Damasceno que trouxe o imaginário da bruxa horrível na literatura latina, assim como o folclore europeu do vampiro e demônio devorador de crianças.
  • Strix também é um termo relacionado a uma variedade de coruja, sendo um gênero de corujas-sem-orelha ou coruja-da-floresta.
  • Existe um debate se a strix seria um morcego, coruja ou abutre. Existem inúmeras fontes, mitos e lendas que trabalham com a ideia da mulher-pássaro em diferentes culturas e tempos históricos. Fato é: a ideia das bruxas terem relação com mulheres-pássaro estava presente desde a Grécia Antiga até hoje. Veja também o texto sobre sereias, que também eram mulheres-pássaro em sua raíz helênica.
  • Conheça o trabalho do Tear das Feiticeiras que tem um foco em Bruxaria com Fé Helênica e se aprofunda na Strixcraft que busca honrar as bruxas da tessália e sua magia.

Bruxa histórica

  • A bruxaria como um termo histórico faz referência ao termo usado pela Igreja Católica para se referir a prática de pessoas na Europa que supostamente eram adoradoras do Diabo, o opositor da igreja. Dessa forma, qualquer pessoa que não fosse cristã ou contrariasse algum dogma ou prática cristã era automaticamente considerada bruxa(o).
  • Durante o final da Idade Média e o Período Moderno desenvolveu-se uma caça às bruxas, a Inquisição, chefiada pela Igreja Católica e também Protestante em diferentes países da Europa e da África. O paganismo já tinha sido criminalizado desde 391 EC por Teodósio e suas divindades consideradas demônios.
  • Como o Deus Cristã era o bem e a perfeição, precisava ser criado a visão do Diabo que é responsável por todos os males existentes. Ele era mentiroso e ardiloso, sendo adorado pelas bruxas.
  • Cada local possuía suas particularidades, mas em geral, a bruxa história pelo menos uma das características a seguir:
    • Adoradora de demônios, realizou pacto com o Diabo e realizavam reuniões ocultas na floresta;
    • Bruxas comem crianças e causam doenças e a morte;
    • Bruxas cavalgam em vassouras, fazem danças nuas em roda ao redor de fogueiras, ficam possuídas por demônios e praticam orgias;
    • Em maioria, mulheres que segundo os manuais da Inquisição eram mais propensas a praticar bruxaria por serem mais frágeis, estúpidas, supersticiosas e sensuais. Mulheres bonitas que despertavam o desejo e inveja; ou mulheres idosas viúvas que eram solitárias;
    • Praticantes de religiosidades não-cristãs;
    • Feiticeiros;
  • Dificilmente uma única pessoa não acumulava todos os motivos para ser considerado bruxo, mas cerca de 50 motivos para ser considerado bruxa na Europa também poderiam ser encontrados em culturas de países da África.
  • Dessa forma, para diferenciar a bruxa histórica, foi criado o termo feiticeiro para definir a pessoa que entende que pode manipular energias ocultas no universo a fim de obter um resultado prático desejado.
  • Praticantes de feitiçaria eram chamados de curandeiros, parteiros, xamãs ou adivinhos. Eles utilizavam elementos naturais como ervas, cristais, astrologia e oráculos para resolver questões físicas através do sobrenatural. Era possível também obter respostas por meio da alteração da consciência, por visões mediúnicas ou por sonhos. Em diferentes culturas, a figura do feiticeiro ocupava o papel de sacerdote de suas religiões. Pessoas com o padrão de feiticeiro são encontradas em diferentes lugares do mundo em diferentes momentos históricos.
  • Na África, a feitiçaria é mais comumente praticada por mulheres do que por homens, mas os xamãs ou curandeiros são, na maioria dos casos, homens.
  • Muitos feiticeiros foram considerados bruxos porque conseguiam atingir resultados que não eram explicados pela Igreja, logo, teria algum favorecimento demoníaco. No entanto, nem todo bruxo era feiticeiro. A bruxa histórica era um bode expiatório para todo evento indesejado como doenças e mortes, ela era a culpada por todos os males. Dito isso, épocas com muita tensão política e disseminação de doenças coincidiam com aumento da necessidade de purificação contra o efeito de bruxas.
  • Essa mensagem da bruxa diabólica fez com que entre 1450 e 1750, mais de 110 mil pessoas fossem torturadas e mais de 40 a 60 mil delas fossem mortas acusadas de bruxaria. Na Inglaterra era mais comum enforcar as bruxas, enquanto no resto da Europa era mais comum queimá-las.
  • A demonologia suméria e babilônica trouxe conhecimentos de demônios que também passaram a ser associados às bruxas. Houve uma construção de que a bruxa era perversa, a feitiçaria era algo praticado a margem da sociedade, feito de forma escondida e era um tabu entre os greco-romanos. Os daemons gregos (mais tarde chamados de demônios) podiam ser bons ou maus como dizia Sócrates. No entanto, Xenócrates, discípulo de Platão, dividiu o mundo espiritual entre os deuses com características benéficas e os daemones com características maléficas. Além disso, as bruxas foram vinculadas a invocação desses daemones, sendo então a base da visão cristã da bruxa maléfica.
  • Os cultos de mistérios como os mistérios dionisíacos que envolviam ritos de fertilidade, orgias e alterações de consciência e que aconteciam muitas vezes em florestas e montanhas à noite também se tornaram crime, também auxiliando na construção do imaginário da reunião das bruxas.
  • O bode, símbolo de poder e fertilidade em muitas religiões pagãs, passou a ser símbolo do Diabo cristão. Deuses como Pã, Cernnunos, Dioniso, Zeus e Poseidon que eram associados ao bode ou touro eram sincretizados com o Diabo cristão.
  • Pensando na atualidade, o feiticeiro seria o que é chamado de magista, aquele que pratica magia por técnicas de feitiçaria para obtenção de resultados. O bruxo pode ser feiticeiro ou não, assim como feiticeiro ser ou não bruxo. Existem muitos sistemas mágicos, cada um com seus conjuntos simbólicos e práticas que podem estar associadas a uma vertente de bruxaria ou não. Até mesmo o cristianismo tem suas práticas mágicas.

Bruxaria solitária ou em coven

  • A bruxa pode ser solitária é aquela que realiza suas prática sozinha na maior parte do tempo. Em contraste a isso, existe a bruxa de coven, que realiza práticas junto com um grupo fixo de outras bruxas, um coven.
  • A bruxa solitária pode estar nessa condição por morar em local isolado e sem acesso a outras bruxas, ou por não ter encontrado um coven com princípios semelhantes aos seus, ou por preferir estar sozinha. Mesmo a bruxa solitária pode realizar práticas em grupo esporadicamente.
  • Os covens de bruxas podem ser pequenos ou grandes, ser organizado com uma liderança central ou liderança descentralizada. Ele pode desenvolver uma tradição inteiramente nova ou seguir uma tradição pré-existente. Uma das grandes dificuldades de manter um coven é conseguir unir diferentes pessoas sob os mesmos princípios, mesmo que eles sejam flexíveis, é preciso ter uma base seguida pelos seus membros. Como a bruxaria é muito diversa, é difícil reunir pessoas que tenham disponibilidade e o mesmo objetivo.

Autoiniciação

  • A iniciação é o rito iniciático que marca uma passagem temporal. Existem várias iniciações que acontecem na nossa vida, como o nascimento, a menarca, o primeiro sexo, o casamento, na maternidade, o sair da casa dos pais, o primeiro emprego, a velhice e a morte.
  • Algo muda no iniciado antes e depois da iniciação. Essa mudança acontece sendo ritualizada ou não, mas é recomendável ter o ritual para demonstrar a sua sacralidade. Esse ritual pode mudar de acordo com a vertente religiosa, tradição ou do praticante.
  • No contexto da bruxaria, entre as inúmeras utilizações, a iniciação pode significar o início em uma tradição ou caminho espiritual, ou a transição entre graus em tradições.
  • E autoiniciação? Esse tema é controverso e não existe um consenso entre as bruxas. As bruxas solitárias normalmente são aquelas que mais realizam autoiniciações. A sua justificativa é a falta de um coven ou tradição que ela se adeque e são os deuses que iniciam as pessoas e não sacerdotes.
  • Bruxas de tradições que foram iniciadas por sacerdotes justificam que não tem como alguém se autoiniciar porque o iniciante não tem o conhecimento necessário para isso e nem tem a capacidade de autogerir o seu caminho iniciático.
  • Quem está certo? Não é aqui que você terá essa resposta. Fato é: quem inicia uma pessoa são as divindades em ambos os casos. Ter um sacerdote que já foi iniciado para te guiar é um fator facilitador e faz evitar erros ou retrabalhos. Nem todos tem o privilégio de ter um coven de uma tradição que te abarque em sua cidade ou tem recursos para se deslocar até um. Todo iniciado precisa estar disposto a morrer e renascer para experimentar dos mistérios. A bruxaria é um caminho de autonomia, não dogmático busca pelo autoconhecimento, portanto, iniciático.

Vertentes de bruxaria

  • Devido a grande pluralidade de praticantes de bruxaria, foram sendo criadas diferentes vertentes para comportar seus membros e representar melhor seus pensamentos e práticas. Perceba que nada proíbe ou limita uma bruxa de ter práticas consideradas de mais uma vertente. Normalmente quando o praticante não se encaixa em nenhuma vertente pré-concebida ou ele mistura os preceitos de mais vertente, usa-se o termo de “bruxaria eclética” de maneira geral.
  • Como descobrir de qual vertente você é? Apenas experimentando e conversando com pessoas que estejam naquela vertente. Sempre bom perguntar para mais de uma pessoa, já que dentro da mesma vertente podem haver variações entre seus membros.

Tradições de bruxaria

  • Cada praticante solitário ou coven pode criar suas próprias regras, calendários, festivais e práticas de maneira personalizada. Se isso perdurar e for repetido, pode se tornar uma tradição. Cada vertente de bruxaria pode gerar diferentes tradições, onde todos os membros daquela vertente compartilham princípios básicos, mas a medida que os grupos se desenvolvem, particularidades podem ir surgindo diferenciando os grupos.
  • Não existe um critério objetivo que determine quando uma prática se tornou tradição. Normalmente o tempo que dá esse título de tradição, assim como a quantidade de adeptos daquela egrégora. Mesmo que você seja o único a seguir o caminho que escolheu, ele não se torna menos válido. O autoconhecimento que nos ensina o que funciona ou não para nós. A nossa verdade não precisa ser a verdade do outro e tudo bem.
  • Um exemplo claro é a Wicca, considerada a primeira vertente de Bruxaria Moderna fundada por Gerald Gardner na década de 1960, na Inglaterra, a partir de crenças de diferentes culturas e práticas de magia cerimonial vinda de ordens esotéricas. Existem um conjunto de práticas, crenças e rituais que todo membro da Wicca possui como a ideia de Deusa Tríplice, Deus Cornífero e Roda do Ano. No entanto, ao longo do tempo foram surgindo grupos que divergiram do pensamento primordial, que passou a se chamar Tradição Gardneriana, e criaram novas vertentes como é o caso da Tradição Diânica que tem enfoque na Deusa e assim por diante.
  • Na Wicca é mais claro o processo de formação de tradições porque a divulgação dessa vertente foi global e muito bem documentada, formando múltiplos covens ao longo do mundo. No entanto, outras vertentes além da Wicca também existem na bruxaria, imprimindo diferentes práticas e formas de culto.

Sistemas mágicos

  • Não confunda vertente de bruxaria com sistema mágico. A vertente de bruxaria é uma forma de praticar bruxaria, por exemplo, Wicca, Bruxaria Natural, Bruxaria Eclética, Bruxaria Diabólica, etc. O sistema mágico é um conjunto de técnicas de praticar magia, por exemplo, magia do caos, magia apotropaica, magia dracônica, magia elemental, magia natural, magia cerimonial, magia de cozinha, magia oracular, magia estelar etc.
  • O praticante de um sistema mágico pode ser chamado de magista. O magista parte do pressuposto que é possível manipular a energia presente no universo para favorecer a realização de um objetivo pessoal, transformando a realidade ou um padrão de pensamento.
  • O mesmo magista pode se especializar em apenas um sistema mágico ou em vários. O magista pode ser de diferentes vertentes da bruxaria, ser de outros caminhos religiosos ou não ter religião. Membros de ordens iniciáticas ocultistas também são magistas, por exemplo. Até mesmo cristãos são magistas, apesar de não admitirem. O poder emanado pela egrégora cristã e pela oração são inegáveis.
  • Aqui chegamos em outro ponto difícil de definir: a diferença entre magista e feiticeiro. Existem pessoas que tratam ambos os termos como sinônimos. Inclusive existem pessoas que também consideram bruxaria e feitiçaria como sinônimos, complicando essa distinção.
  • Na minha concepção, o magista manipula energia e gera transformações na realidade através da magia. O feiticeiro seria o magista que considera que o método empregado para gerar essa transformação um feitiço. Nem tudo que é feito por um magista é considerado um feitiço para todos, na minha prática, eu faço magia por meio de feitiços, mas também de outras práticas devocionais.
  • Existem algumas vertentes religiosas, de bruxaria ou não, que se encontram em um ou poucos sistemas mágicos. Veja alguns exemplos:
    • Igreja Católica que se concentra em Magia Simpática, Magia Católica, Magia Angélica e Magia Devocional;
    • Bruxaria natural que se concentra em Magia Elemental, Magia Apotropaica, Magia de Ervas, Magia de Cozinha;
    • Voodoo que se concentra no Hoodoo;
    • Helenismo que se concentra em Magia Apotropaica, Magia Sexual, Magia de Ligação e Magia Devocional;
    • Bruxaria Caótica que se concentra em Magia do Caos;
    • Vertentes nórdicas que se concentram no Seidr;

Jovem místico

  • Assim como os anos 1960 foram palco do florescimento de muitos movimentos político-sociais como o feminismo e movimentos anti-racistas, surgiu também um movimento chamado “Nova Era” ou “New Age”.
  • Todos os conceitos tratados aqui são complexos, o New Age também é difícil de ser conceituado e não se tem um consenso claro de todas as suas ramificações. De maneira geral, esse movimento trouxe conhecimentos místicos e esotéricos vindo de diversas culturas, grupos ocultistas e metafísicos para a ampla sociedade. Essas práticas visavam um olhar ecológico e preservacionista da natureza, cura interior e o autoconhecimento com práticas espirituais e metafísicas.
  • Dessa forma, muitas pessoas que tinham acesso a conhecimentos tradicionais e antigos sem ter a preocupação de conhecer suas raízes e propósitos, ficando em suas superfícies e com objetivo utilitarista. O capitalismo que adora uma oportunidade de criar mercadorias e lucro, se aproveitou disso. Com isso, incensos, cristais e velas, assim como outras ferramentas de rituais pagãos, começaram a ser usadas de maneira leviana e desrespeitosa. Além do aumento massivo de charlatães que se fazem de oraculistas ou oferecem cursos ou produtos caros vazios de significado.
  • Com isso, o jovem místico ou o esotérico-espiritualista se tornou uma figura presente sendo difícil de ser diferenciado de praticantes sérios de tradições religiosas a primeira vista. Apesar do jovem místico ser inofensivo e conseguir resultados simples que o satisfazem, em algumas ocasiões a generalização e superficialidade de suas práticas gera uma propaganda negativa para os demais praticantes e para a sociedade como um todo.
  • Agora o praticante sério de bruxaria e paganismo precisa ter os seguintes desafios: resgatar e honrar conhecimentos ancestrais, adaptando-os de maneira respeitosa para a modernidade, muitas vezes com esforço solitário; sobreviver a intolerância religiosa e demonização de suas práticas; e reforçar a seriedade de suas práticas, demonstrando que não é negacionista e busca profundidade em suas práticas.

Conclusões

  • Após a leitura do texto, é possível perceber que existem muitas classificações que são arbitrárias, criadas para gerar identificação entre pensadores semelhantes. São termos que resumem um conjunto de crenças e que facilitam na formação de grupos.
  • Perceba que sempre haverá variação entre praticantes de uma mesma vertente ou sistema mágico pela natureza da prática ser autônoma, não-dogmática e personalizável. Não desanime com a enorme quantidade de vertentes, fique feliz de podermos praticar a nossa fé e a nossa magia de maneira livre. Experimente. Aprenda o que funciona e o que não funciona com você. Permaneça onde te faz bem.
  • A bruxaria no Brasil é uma realidade. Em São Paulo temos o primeiro Museu Brasileiro de Magia e Bruxaria, a Associação Brasileira de Bruxaria, a Convenção de Bruxas de Paranapiacaba, sem falar dos inúmeros grupos e praticantes das mais diversas vertentes.
  • O eixo Rio de Janeiro-São Paulo ainda são os grandes centros de bruxaria no país, mas isso está começando a mudar a medida que surgem novos praticantes engajados no sacerdócio. Além disso, a internet nos deu a chance de estar juntos sem precisar estar próximos fisicamente, o que auxilia muito em uma prática tão pulverizada.

Referências

  1. Russell, J. B. & Brooks, A. História da Bruxaria. 2 ed. São Paulo: Aleph, 2019.
  2. Oliphant, S. G. (1913, January). The story of the strix: Ancient. In Transactions and Proceedings of the American Philological Association (Vol. 44, pp. 133-149). Johns Hopkins University Press, American Philological Association.
  3. Ogden, D. (2021). The strix-witch. Cambridge University Press.
  4. Strix. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Strix_(bird)> Acessado em 19/03/2024.

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