
Violante Pires
Introdução
- Violante Belloni Pires, conhecida como bruxa de Itinga, feiticeira de Itinga, Macebth de Itinga, a pithoniza brasileira ou coruja de Itinga e que hoje corresponde ao bairro do Éden, no município de São João de Meriti, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro (cidade onde eu nasci e moro até o momento).
- Quero fazer um agradecimento especial as sacerdotisas do Tear das Feiticeiras que me apresentaram a história dessa bruxa que viveu na minha terra.
- Introdução
- Cidade de Itinga
- Fontes primárias, secundárias e terciárias
- Jornal Crítica – 01 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 300
- Jornal Crítica – 02 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 301
- Jornal Crítica – 03 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 302
- Jornal Crítica – 05 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 303
- Jornal Crítica – 06 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 304
- Jornal Crítica – 07 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 305
- Jornal Crítica – 08 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 306
- Jornal Crítica – 09 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 307
- Jornal Crítica – 10 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 308
- Imaginário da bruxa
- Referências
Cidade de Itinga
- Violante viveu no bairro de Itinga onde tinha uma Linha Auxiliar que atravessa o bairro e tinha uma estação com o nome do bairro. A palavra Itinga tem origem no tupi guarani que significa água limpa, já que na época a população usava poços artesianos.



- Em 1933, com a construção de uma nova estação de trem, o bairro passou a se chamar Éden, em referência ao paraíso cristão. Acredita-se que a mudança de nome tenha sido para tirar o estigma de bairro de bruxas.
- O caso de Violante Belloni Pires, acusada de feitiçaria pela Caravana, grupo editorial do jornal Crítica, parece estar envolvido, com a mudança de nome do local para o do paraíso bíblico.

Fontes primárias, secundárias e terciárias
- Acredita-se que a lenda da bruxa do Itinga foi criada pela empresa de loteamento do bairro para chamar atenção para o local. Com o tempo acrescentou-se à história, uma personagem que vivia escondida na estação de trem que era abandonada.
- Eu não tenho formação formal em história ou arquivística, portanto, as transcrições feitas a seguir são totalmente amadoras e tem a função de auxiliar na documentação e trazer ao conhecimento da maior parte de pessoas o conteúdo desses jornais. As palavras são escritas com ortografia diferente da atual e podem estar escritas errado por um erro de interpretação meu, portanto, recomendo a leitura dos jornais na íntegra. As palavras que não reconheci por estarem apagadas, preferi deixar com reticências “…”.
Jornal Crítica – 01 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 300
- Em uma reportagem publicada em 1º de novembro de 1929 no jornal Crítica é narrado sobre uma excursão de trem de seus jornalistas a Itinga, esse grupo foi chamado de Caravana. Nessa reportagem é falada de uma idosa que morava no bairro campesino do Estado do Rio de Janeiro e que hoje corresponde ao bairro do Éden, no município de São João de Meriti.


“Typos que se haloam tie um prestígio de assombração, as bruxas, tão negadas na existencia pelas creaturas sem fé, existem verdadeiramente.
Há espíritos negativistas, que attribuem phenomenos palpavelmente reaes á febre da imaginação humana. A’ luz escassa desse negativismo, a existencia das bruxas, por exemplo, é uma coisa irreal, – a resultante de uma superstição, à qual a fria sciencia do seculo do arranha-céo e da synchronisação empresta o nome, tão simples na apparencia, mas no fundo, tão cruel, de fetichismo… – Ora, bruxas! Deixemo-nos de lórias… Mas, a despeito de tudo quanto é negativismo, dentro do século que a moda revolucionou, o homem, bem a despeito de tudo, não deixa, nem deixará de ser, como já disse, alhures, uma resultante daquillo que as leis lhe mettem no espírito, – as leis fataes da natureza que nos rodeia. A alma de Mackbeth vive dentro do seculo, quer queira, quer não queira a sciencia. Inculca-nola a propria natureza, enquanto os homens de sciencia, que tudo contestam, vão se inteiriçando de fria indifferença ante as revelações do sobrenatural, curvados sobre as retortas dos laboratorios, na obstinada pesquisa do “porque” da vida, que é um segrego inviolavel a todas as investigações humanas. E como o seu espírito se eziravia, por entre o denso emmaranhamento de hypotheses a de confecturas, cujas consequencias são vãs, elles caem na immensa avides do negativismo. Isto porque tudo investigaram, tudo perquiriam, tudo pesquisaram, mas nada o espírito apprehendeu…
Em local bem distante do “struggle for life”, longe do cosmopolitismo da cidade febril, existe uma bruxa, que a “Caravana de CRITICA”, surprehendeu. Um duende dos sonhos mãos que, a noite, nos empolgam? Não! Verdadeira bruxa, que ainda relemos, presa, na nossa visão. Acompanhamol-a em seus passos. Sentimos cair, dentro dos nossos ouvidos, reperentindo nos nossos nervos, as suas palavras, num sonido extranho. Parece-nos que ainda a sua figura, bem perto, nos acompanha. Escrevemos e, em espírito, aqui sentimola comnosco. Nas linhas que ahi vão e nas quues fixamos todas as impressões que recolhemos do seu contacto comnosco, vão também a reproducção ao vivo da bruxa de Itinga, que offerecemos aos cem mil leitores de CRITICA.“
Crítica, 01/11/1929, p.1 – Transcrição amadora de Héspera.
“Entregue a Bruxedos
Há dias se murmuram na cidade casos sobrenaturaes occoridos num dos suburbios da Linha Auxiliar. Não se precisavam bem os factos, que provocavam ‘frissons’ na população, pela forma por que eram contados.
A ‘Caravana de CRITICA’ poz-se immediatamente em acção, e auxiliada por esse grande “detective” de mil olhos, que é o público, ficou inteirada dos successos nocturnos de Itinga, successos macabros desenrolados na hora propícia dos mysterios da mafia negra.
De indagações em indagações souberamos que ali, numa florescente localidade da Linha Auxiliar, uma mulher se entregava a bruxedos. E contaram-nos então coisas horripilantes, que punham tremurus no nosso systema nervoso.”
Crítica, 01/11/1929, p.1 – Transcrição amadora de Héspera.
“Os mais idosos costumam relembrar suas infâncias atemorizadas pela ação de uma bruxa que perambulava pelas imediações no início da década de 1930. Nesta época, o bairro chamava-se Itinga (águas claras) e a lenda foi criada pela empresa de loteamento para chamar a atenção. Com o tempo acrescentou-se à história o detalhe de que a personagem se escondia na estação, então abandonada.”
Rocha, 2004, p. 52.


“O Anti-Cristo
Ainda hontem diziamos que Laureano Ojeda, recolhido ao infortunio de uma prisão hospitalar, não perdera as suas maravilhosas faculdades.
Enoch, na sua extraordinaria clarividencia, tivera a intuição de um falso propheta, o Anti-Christo, creatura enviada por Satanaz para espalhar entre nós do Brasil – terra abençoada por Deus – a sua força occulta a serviço do Mal.
Se ainda não pudemos encontrar o agente do Tinhoso, descobrimos, porém, uma das suas grandes auxiliares – uma mulher megera – uma bruxa com forma humana. Orientada a ‘Caravana de CRITICA’ seguiu hontem para Itinga, num dos primeiros trens da manhã.”
Crítica, 01/11/1929, p.1 e 8 – Transcrição amadora de Héspera.
- Violante não era a única praticante de bruxaria na região: os moradores locais quando abordados pelos jornalistas, disseram que “em todos os distritos do município de Nova Iguassu eram communs os moambeiros” (Crítica, 01/11/1929, p. 8).
- Além da gíria usual “contrabando”, de acordo com o Dicionário da Umbanda, organizado por Altair Pinto, a palavra “muamba” ou “moamba” também significa feitiço, despacho, trabalhos para fazer o mal e é muito utilizada no contexto de cultos de origem afro-brasileira. Assim, podemos supor que a bruxa era mais associada às religiões de matriz africana como Umbanda e o Candomblé, do que ao neopaganismo.
“O Jogo do Empurra
Quando falamos da já celebre pythoniza da magia negra, os populares esbugalhados, furtavam-se a dar informações sobre a creatura que se mantem em contacto íntimo com os agentes do Tinhoso. E, por todas as formas, procuraram afastar do covil da mulher-bruxa os investigadores da Caravana de CRITICA. Diziam elles que em todos os districtos do municipio de Nova Iguassu eram communs os ‘moambeiros’. Em cada canto o ruido do pandeiro assignula, o rito de Exu. Diziam a ‘uma voce’ que não valeria o nosso passeio a Itinga. Encontrariamos ‘moambeiros’ em toda a extensão do próprio Districto Federal. Insistimos. Queríamos ir á casa da celebre feiticeira Violante.
Afinal depois de várias monabras, conseguimos “tapear” os interessados e abordámos um matuto, que nos levou até as vizinhanças da casa da comparsa do Diabo.”
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.


- Recepcionados pela Bruxa de Itinga em sua casa, os jornalistas dedicam longos trechos da matéria descrevendo sua aparência como “velha e mirrada, andrajosa e de vez sumida sumida, em consequencia de pertinaz laryngite, que nos parece incurável” (Crítica, 01/11/1929, p. 8) e “(…) que não atraiçôa (…) siquer o mais leve traço da natural e intructiva amabilidade feminina (…)” (Crítica, 01/11/1929, p. 8). Em uma fotografia veiculada no jornal, confirmamos se tratar de uma mulher de origem humilde e idade mais avançada.
“A Feiticeira
Minutos depois estavamos em frente à esqueletica creatura, de ‘tics’ oculares bem pronunciado. Era uma mumia ou uma mulher?
Não sabemos bem. Violante, a celeberrima feiticeira do Brasil, não tem expressões humanas. E’ velha e mirrada, andrajosa e de voz sumida, em consequencia de pertinaz laryngite, que nos parece incuravel.
Vimol-a na sua casa – antro de aspecto repugnante, onde impera a falta de asseio. Veiu ao nosso encontro, a piscar furiosamente os olhos. E anta aquella carcassa horrenda, tremos nervosamente.
As Porcas não devem ser assim tão medonhas…”
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“Narrações Fantasmaticas
Decerto, leitor amigo, recordas as narrações fantamaticas e apavorantes com que, em tua meninice tua avozinha punha termo ás tuas traquinadas garotas e impertinencias caprichosas de gury incorrigivelmente travesso, pois não?
Ainda deves ter em mente, bem impressionante viva, aquella figura espectral e grotesca, a um tempo, capripede e com um só olho faiscante e rubro, na testa cornea, estridulando gargalhadas que te faziam arrepios pavidos dos nervos, cabriolando em acrobacias incríveis, á cuja simples evocação teu somno se agitava em pesadellos horrendos: o Sacy Perêrê…
Hoje, ris e galhofas de teus pueris receios daquelle tempo remoto, e gargalhas, zombeteiro, dos pavores nocturnos que, te inspiravam, ao soar da meia noite e fazes remoques a ti proprio, á lembrança dos bruxedos e feitiçarias de velhos ‘paes-João’ africanos e das macabras visões de duendes, em rondas soturnas pelo ermo da noite quieta, pinchando gemidos bizarros, em saracoteios e correrias allucinadas.
– Como me intimidavam aquellas fantasias! – dizes, de ti para ti.
Fantasias? Talvez, leitor amigo, tenhas razão.
Comtudo, si te quizeres dar ao incommodo de uma rápida digressão a Itinga – esta velha localidade campesina do E. do Rio – ver-te-ás salteado dos mesmos receios fantamaes que te intraquillisavam o somno.
Nós, como tu, também rimos e fizemos debiques incredulos do que nos contaram ácerca das apparições extra-tumulares e das magias satanicas com que uma velha de physionomia tôrva de maga medieval tem posto em panico toda a pacata e burguezíssima população escassa daquelle rincão fluminense.
Si, porém, tu te queres poupar aos aborrecimentos de uma viagem tal, acompanha, então, a narração do que ali presenciámos e verificarás que, no mundo da ficção há realidades que apavoram.
A que exposmos abaixo pertence a este numero.”
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.

“Scenas Horripilantes
Entravamos naquelle ambiente transidos pelo que ouveramos sobre a feiticeira. Violante Belloni Pires é de facto a mais perigosa das nossas sacerdotisas da Magia Negra.
A Caravana de CRITICA apurou detalhes impressionantes sobre a vida nocturna da Erinxy brasileira, de recursos extraordinários.
Nas redondezas, desde Nilopolis até Pavuna, boqueja-se que Violante Belloni Pires – a feiticeira de Itinga – tem um pacto com o Diabo. A’ noite erra o amo em fogo fatuo pelas campinas. Desde ás grotas, atravessa os vallados, acompanhada de um monstro mysterioso. Dizem os moradores que os dois caminham sempre unidos até o alvorecer. Chegam até a dansar bailados macabros. O monstro faz arreganhos aos matutos que regressam aos seus ranchos ás deshoras. Dizem que é um monstro de quatro pernas e três braços – uma coisa disforme, fauces horrendas, fantasticas. O matuto treme. Si os olhos da féra são phosphorescentes dentro das fauces se contorce a língua ignea.
O monstro é a forma humana do Diabo que todas as noites apparece para o ‘rendez-vous’ com a sua comparsa.
Outras vezes é o bode preto que cabrioleia junto aos ranchos. A imaginação popular não tem ‘limites. E’ ainda o Tinhoso que se transforma no Capripede para os encontros nocturnos com a Macebth de Itinga. Não ha no bruxo maximo – São Cypriano – scenas apavorantes commo as poucas terras devolutas da florescente localidade do Estado do Rio, dois kilometros além de S. Matheus e para onde converge a multidão daquelles que vão pedir á Maga vingança ou castigos para os seus inimigos.”
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“Ouvindo o Matuto
Antes de transpormos o tugurio da feiticeira, palestramos com o matuto, que nos servia de cicerone. Tem elle pela bruxa de Itinga um respeito, que chaga ás raias do medo.
Tantas scenas presenciou que não se atreve a commentar os actos da feiticeira. Tal a sua covardia que nem á noite sae de casa. De uma feita, encontrou a bruxa e o monstro na estrada que liga Itinga a Nilopoles.
Quiz se approximar e um cheiro de enxofre o suffocava. Lembrou-se de ali mesmo na beira da estrada, a joelhar-se e resar a Ave Maria.
O monstro desappareceu envolto numa nuvem de fumo, e a feiticeira ficou estatelada no chão, sem sentidos. O matuto, que nos deu o seu nome – Arthur Florencio Simas – recolheu-se rapidamente ao seu rancho. Não poude conciliar o somno.
A scena deprimira o seu systema nervoso. Depois, nunca mais saiu de casa á noite e evita encontrar-se com a bruxa, que o apavora.
O matuto é rasoavel no seu medo. Sabe que outras pessoas presenciaram scenas terriveis. Violante é a encarnação vivida de Nostradamus. Ademais, soffrera um desastre de trem e esse desastre foi previsto pela feiticeira.
Encontrara-a quasi na estação de Nilopoles e Violante, em palavras rispidas, mandara-o voltar para casa.
– Si embarcares, serás victima de um desastre.
De facto, ao tentar apanhar o carro em movimento caiu, contundindo-se seriamente. O camarada mostrou-se assombrado com a clarividência de Violante. Fóra testemunha de que ella predissera a morte de um lenhador. O desgraçado abatia rijo uma grande arvore… Nos golpes da machada havia como que um rythmo. A megera olhou para o lenhador e sentenciou:
– Dentro de 10 minutos, morrerás.
A árvore caiu pesadamente sobre o infeliz, que morreu como que fulminado pelo peso da grande árvore.
Lendo os olhos, Violante parece que advinha a vida dos consulentes desde o berço ao túmulo. Esses casos impressionaram a gente rude, cujos casebres se espalham em todos os districtos de Nova Iguassu.“
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
- Os autores do jornal também associam a Violante a personagem Lady Macbeth da obra Macbeth (1605) de William Shakespeare. Essa personagem não é uma das três bruxas da peça, mas é frequentemente associada a uma bruxa e seus poderes demoníacos devido às suas ações e falas.
“A Notoriedade da Feiticeira
A fama da bruxa ganhou fronteiras. Não é só em Itinga que ecoam as suas faculdades. Durante muito tempo, Violante empolgou a população de Sapê, zona onde proliferam os ‘macumbeiros’. Os ‘paes de santo’ respeitam a bruxa, que sempre trabalha com duas linhas.
A fama da Macbeth carioca induspoz a polícia contra ella. Perseguida tenazmente, Violante resolveu transferir a sua residencia para o Estado do Rio, onde as autoridades são mais complacentes.
São sem numero as scenas de assombração em que se envolveu a Violante em Sapê. O povo do bello logarejo já dizia que a feiticeira tinha pacto com os elementos infernaes.
Naquella época, Violante andava errante pelos cemiterios, para os encontros macabros com os emissarios de Satanaz. Nesses logares santos, a feiticeira fica sempre circumdada de luzes estranhas.“
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“Cagliostro Através de Um Novo Avatar
As virtudes de fakirismo milagroso da velha bruxa de Itinga, não se cingem, tão só, ás manifestações materizadas de factos na apparencia absurdos e logicamente recusaveis, por seu caracter sobrenatural e magico, nem á therapeutica feitceira de ‘passes’ e rezas que abysmam de admiração a quantos, transidos de espanto, amedrontados, assistam a todos os sortilegios lendarios que fizeram a celebridade immortal dos Nostradamus, Ruggero Ruggieri e de tantos outros magos, iniciados nos labyrinthos dos mysterios quasi irreaes do extra-terreno, cuja effigie a crendice popular medieva fixou nos fastos do tempo.
Cagliosto – o torvo bruxo da lenda, que envelheceu e alquebrou-se em infatigaveis vigílias estudiosas, buscando soffregamente o philtro da juventude eterna, morreu vendo seu sonho esfumar-se nas brumas do impossível.
Assim, ao rolar dos seculos, todos o seus successores, sempre sem exito, mas sempre com a mesma irrefreavel sêde de conquista á vida, o que ella nos rouba em energias.
Violante, porém, logrou o que até hoje nem a sciencia, com Voronoff, nem coisa alguma conseguiu. Sua thaumaturgia diabolica não ignora segredos nos escaninhos da feitiçaria restauradora da juventude.
E os philtros que suas longas mãos esqualidas fabrica, dão, aos que os ingerem, energias vitaes de poder allucinante.
Endoidecem de desejos delirantes os organismos mais flebilmente depauperados. São antes de vida que escorrem de seus cadinhos parfa a alegria e para o prazer dos que succubiram á velhice ou aos excessos de existencias malbaratadas nos altares de Venus. Dão allucinações de ‘Sabbat’.
Há também, outros aspectos da sciencia satanica de Violante, que reservamo-nos para divulgar em sequencia á nossa reportagem.
Assim, desvendamos aos olhos de nossos leitores, amanhã, copiosa e pormenorisadamente, os mysterios e bruxedos que a ‘Caravana’, em sensacional depoimento, vão revelar ao público.“
Crítica, 01/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.

Jornal Crítica – 02 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 301
- A reconstituição de Roberto Rodrigues está relacionada a um ritual relatado por Violante, em que, após entoar um “comando cabalístico”, forma-se uma densa nuvem de fumo. Da fumaça, surge um bode preto que serve de montaria para a bruxa. Na ilustração, a vemos vestida com uma longa capa preta esvoaçante e descalça, guiando a besta pelos chifres, na companhia de uma pequena criatura não identificada acocorada na cabeça do animal.
- Na segunda publicação sobre Violante, também é possível perceber que ela era uma senhora com alguma doença respiratória que fazia com que ela ficasse com crises de tosses. A aparência idosa é constantemente tratada como algo maligno.
“Um pedaço bucolico da estação de Itinga, da Linha Auxiliar. Um desses recantos, um desses largos proscenios sertanejos, em que a única civilização é a tempestade continua de uma locomotiva, irrompendo em um desespero de velocidade, na angustia dos kilometros, afóra pelos campos interminaveis.
E’ nesta natureza, em local aonde se vão por um caminho estreito marginado de plantações no seio de um pequeno bosque formado pela elegancia e flexibilidade de seu número de árvores de eucalyptus, á beira de uma grola, engrinaldada de murias, álvas e florescencias agrestes, preticas e nativas, em que vive a bruxa de Itinga, na pratica e no diabolismo das suas magias.
A sua figura, caricatural e infante, é um insulto contrastante à belleza daquelas paragens e á quietude embalsamada do pequeno bosque de eucalyptus.
Quando lá chegamos, ella nos veio ao encontro, na disformidade do seu physico, degenerado e batido de molestias e hereditariedades impiedosas. A grande fronte degenerada, ensombreada das tragicas e algromanticas preocupações de seu mioster; o peito, uma inseria de arcabouço tuberculoso; os braços e as pernas, frangalhos ridiculos, magros e estravagantes, baloiçando-ex. Ella veiu andando com insegurança e falex-nos em sumida voz, absurdamente humana, denunciando a larynge enferma e uma esthma roasonante e felina.
Os olhos brilharam-lhe duramente, em fulgores morbidos, dardejando o mundo de presagios, mãos e incríveis, que ella distribuía, derramava no espírito dos fanaticos, abrindo uma floração tremenda de medos, horrores, reacções, esmagadores, visões melodramaticas, religiosas e sangrentes e diabolicas, um inferno inexistente, que é a própria fonte e a força de seu prestígio de maga.
Theatrahaxava-se, a megera, astuciosa e que não atraição na figura siquer o mato teve traço da natural e instructiva amabilidade feminina, em gestos, attitudes procuradas com o fim de impressionar, despertar o ‘frisson’, as sensações angustiantes.
Mas, era ella saltar da obscuridade da grota e cahir-lhe a luz em cheio e a natureza rodeal-a, desfazia-se o funebre prestígio. Fugia a feiticeira e saryia, apenas despertando commiseração, a esqueletica andrajosa figura de uma faminta mendiga truanesca, gesticulando tragicamente entre roseiras, boninas e folhas folhudes de couves.
O tom da sentença era terrível. Excecutou-a e, mal as palavras de Violante trespassaram-lhe os ouvidos, sentiu nas entranhas um brado estrangulado de angustia o infeliz homem, que em nosso caminho deparamos, roto e esmarrido, cheio de andrajos e de fome.
Theodomiro Augusto da Rosa fôra uma creatura feliz na sua pobreza. Nunca lhe faltara o pão para a bocca, adquirido à custa de um labor insano, no trabalho de todos os dias. Mas pertencia ao rol dos que não creem. Sentia pela bruxa o mais profundo desprezo. Além disso, Theodomiro misturava o desprezo à galhofa.
Humilde lavrador que, através do esforço, cantava, dentro da sua tapéra, o hymno da fartura e da abundância, tão alto como nas tulhas e nos celleiros, elle não escapou a precepção sobrenatural da bruxa, que lhe surgiu certa vez, na hora enlada da meia-noite, em plena encruzilhada, cuspindo fogo pelas narinas.
Envolveu-lhe o corpo uma onda tremenda de frio. As pernas não lhe podiam suster o busto – bamboleavam. O homem tremia, como hastil sacudido pelo vento. E a voz da bruxa falou, sumida, como o éco das vozes de outro mundo:
– Olha,, tu me galhofas! Mas tu sofrerás fome. Nunca mais comerás. Lembra-te bem!
Desde o dia seguinte, o homem não pode levar mais á bocca alimento qualquer. Sentava-se á meza para comer e, quando se preparava para levar á bocca a primeira garfada, um bando de aves negras, sinistramente estranhas, invadia a sala, devorando-lhe umas a refeição, enquanto outras o bicavam por todo corpo, obrigando-o a fugir. Durou mezes o supplicio. E Theodomiro só se libertou da furia das aves negras quando implorou da bruxa o allivio para mal que Violante lhe impuzera, segundo elle nos contou, tremulo ainda, quando recordava a sentença terrível.
– Nunca mais comerás!”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.


“Romaria a Itinga
Abramos um parentheses no nosso noticiario sobre a bruxa de Itinga. Hontem, foi avultado o número de pessoas, que procuraram na florescente localidade fluminense a estranha figura da mulher, ligada por sortilegios com os agentes de Satanaz.
A romaria á essa da Eiruxy, não obstante o tempo inclemente, foi avultada. A princípio, a bruxa de Itinga não queria receber as pessoas desejosas de conhecel-a. Depois, não houve remedio e Violante, das 8 horas da manhã ás 8 horas da tarde attendeu vasta clientela.
Para mais de quinhentas pessoas foram à Itinga, mas nem todas puderam ser attendidas pela sacerdotiza da magia negra.
A população de Itinga viveu hontem horas de grande agitação. Em turno da ensinha branca, a beira de uma grota, onde a megera realiza as cerimonias do ritual, aglomerava-se a multidão, que commentava os detalhes descritos pela Caravana de CRITICA.”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
- Os autores do jornal também chamam a Violante de “pithoniza brasileira” em alusão a sacerdotisa grega do Templo de Delfos que era chamada de Pitonisa ou Pítia e que revelava oráculos por inspiração de Gaia e posteriormente Apolo.
“A pithoniza brasileira
Não obstante … dos consulentes. Violante criou … mas a Machbet de Itinga não modificou a sua resolução.
Entre os curiosos, hvia pessoas até de pontos bem distantes de Itinga. Alguns estudiosos queriam estudar a feiticeira sob o ponto de vista theosophico, attrahidos pela fama das suas bruxarias.
Não resta a menor dúvida de que Violante foi hontem em toda a parte, principalmente nos suburbios, o thema de todas as conversas.”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“No antro da bruxa
O interior do antro onde a asyla a bruxa é sordido. A casa, feita a sopapas, estereotypa perfeitamente a miseria em que vivem os seus moradores.
O povo imagina sempre lendas e symbolos. Moradores da vizinhança dizem que ‘á noite’ as corujas, ás dezenas, gargalham soturnamente nos galhos dos eucalyptus, que circumdam o tugurio da feiticeira.
Diz o povo que as aves agoureiras são as anunciadoras da approximação do monstro, que faz a renda as casas de Itinga.
As paredes são despidas de orneios e quadros. São paredes brancas, onde não há nem os rectabulos communs em todas as casas de macumbeiros. Violante está afastada de qualquer ideia christã. Quando … pelas perguntas, feiticeira confessa não … de mar. No entanto, todo o mundo sabe que Violante faz ‘trabalhos’ e ‘mandingas’, principalmente á meia noite das sextas-feiras, dies altás asiagos. E todos os seus trabalhos faz com o auxilio do monstro, em cuja companhia vaguela pelos campos devolutos de Itinga.
No interior da casa de Violante só há mysterios.
A própria gente que a cerca tem como a bruxa phyatonomias ….
São acolythos nos ritos do dia.
Tivemos arrepios de medo no meio daquella gente sordida e immunda. Nos terrenos fronteiros crucitavam corvos. Estavamos de facto entre bruxas.”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“Feiticeira ha vinte e cinco annos
Durante uma hora supportamos estoicamente o ambiente horrendo, cercados de uma legião de mulheres endemoniadas.
Estavamos sentados ao lado da bruxa, que numa voz sumida respondia as nossas perguntas. Interrompia de quando em quando as suas palavras para tossir. Era uma tosse nervosa, bem irritante. Ha contrastes formidaveis na vida das bruxas. Violante affirma que tem um poder illimitado para curar. No entanto, a feiticeira precisa bem de soccorros immediatos para o seu estado de saúde.
Não erramos, mesmo como profanos, firmando o seu diagnóstico. Aquela tosse seca e continua diz bem do estado dos seus pulmões.
Ha vinte e cinco anos que Violante se entrega á prática de bruxarias. Em menina sentia-se perfeitamente á vontade nos terreiros das macumbas e cangerês. Dos sertões de Manáos, veio para os latifundios do Rio e, com as lições dos paes de santo, tornou-se eximia conhecedora dos mysterios da magia. A sua fama correu todos os terreiros e os próprios sacerdotes da maldade a temem.
Um trabalho de Violante acarreta desgraças sobre desgraças. Ha vinte e cinco annos que a bruxa vive a … de espíritos vingativos.
A sócia de Satanaz desconhece dificuldades.”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
“A estranha cavalgada do bo’de-preto
Violante tem pacto estranhos com o demo. Aos saltos, guinchos e uivos, os clientes se retorcem em danças macabras, num ‘sabbat’ allucinante.
Ela preside a essas … da meia noite.
O rosto da bruxa se transfigura, tomando aspectos terríveis. Os musculos da face se distendem, em rugas e tregeitos pavorosos. Os seus olhos despendem chispas.
O seu todo assume aspectos terrificantes. E sob a luz vermelha dos archotes, que bailam na sombra da noite, banhando de sangue o verde de paysagem. Violante á a Imperatriz daquelle conclave de sacerdotes da Magia Negra.
Silvos estridentes fazem-se ouvir no silêncio lugubre das cercanias. Gemidos prolongados: queixumes de almas penadas e lamentações impregnam o ar. Então, Violante descrece, cum o dedo espetado no espaço estranhaos signaes de kabala negra.
Forma-se no fundo do scenario de magia uma densa nuvem de fumo, que ora se adelgaca, ora de avoluma para, finalmente, assumir uma forma nítida, quasi palpavel, mas ainda immaterial.
E’ quando Violante, em … solta um silvo estridente e ranqueja um commando cabalístico:
– Manã – usã – Girim – Tu-Ta-Balo – Maniacu!
Milagre! Bruxedo! Suprema revelação da Magia Negra!
A nuvem obedecendo, ao estranho rito, ás palavras articuladas pelo Nostradamus feminino, materializa-se em movimentos rápidos! …
A bruxa de Itinga já solta um derradeiro uivo.
– Curimáu!
E a nuvem já não é mais nuvem. E’ um bode, um bode preto, que, qual um ardego corsel, leva a Machbeth … numa cavalgada … pelos campos em fora.
Das faces do animal sae um cheiro acre de enxofre que contamina o ar estiolando as plantas e florinhas por onde passa a mysteriosa montaria da bruxa.
Dos olhos em chamma, chispas como que holophotes terríveis. … os prados numa phosphorescencia macabra. E elle ganha as serras de montes, vencendo léguas em minutos apenas.”
Crítica, 02/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.
Jornal Crítica – 03 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 302
- No terceiro dia seguido de publicações sobre Violante, começam os comentários sobre perseguir, ameaçar e matar a bruxa de Itinga por causa de seus atos malignos.
- Também é importante notar que o escritor das matérias costumam salientar que os moradores de Itinga são pessoas pobres e com poucos conhecimentos, sendo facilmente impressionáveis. A forma que ele descreve é bastante desrespeitosa e se supõe que o leitor do jornal são pessoas de classe social mais privilegiada.


“O espírito de crendice popular, tão radicadamente vinculado á indole de nosso povo de cultura inferior, soffre, ás vezes, suas transformações, tanto mais espantosas quanto imprevistamente chocantes. Assim o que se deu agora com Violante.
De começo, toda a aescassa população do villarejo primitivo da Linha Auxiliar, – sertanejos rudes e destemerosos à força do contacto brutal e da luta com a natureza, mas, fundamentalmente simples creanças ingenuas e facilmente impressionaveis a manifestações super-naturnes – à narração e, posteriormente, á visão das incrivelmente pasmosas feitiçarias diabolicas da maga socia de Satanaz, arrepiava-se em fremitos de aterrorisado pavor, á só evocação do nome fatídico de Violante, que, de então, passou a ser uma figura espectral e terrível de bruxa lendaria, agitando de indiziveis pesadellos a tranquilidade quieta do somno dos moradores de Itinga.
O prestígio e os dons satanicos de maleficios de que a horripilante megera e senhora, porém, derramatam na alma do povo tão pavidos sentimentos de medo que se tornou insuportavel, por mais tempo a presença de Violante ao pequeno rincão fluminense.
Assim, os protestos e imprecações de colera rebeliada surdiam aos ouvidos de uns e de outros, avolumaram-se com tal impeto que, em breve, com o rolar dos dias transcorridos através a inquieta espectativa de todos, rugindo ameaças, de sangrento extermínio, quasi todos os habitantes daquelle obscuro e semi-ignorado pedaço de mundo, após concertarem-se num plano homicida, foi categoricamente resolvido a morte da bruxa.
Hontem, ao cahir da noite, estavam todos a postos. Mais tarde, à sombra profunda do céo sem estrellas e sem lua, o estranho exeretoo de camponezes, bem municiados de foices, páos e toda a sorte de armas de que dispunham, iniciaram a penosa marcha rumo ao antro demoníaco da horrenda harpia.?
Todos movendo-se com cantelas de ladrão receioso de ser surpreendido silenciosos, frente à casa; estacou a sombria caravana.
Rapidamente deliberaram o ataque que deveria colher Violante inopinadamente de modo a annullar-lhe qualquer tentativas de reacção. E, com uma rapidez de felino em bote preparado, numa corrida furiosamente allucinada, aos gritos raivosos e exclamações assassinas investiram.
A megera, comtudo, mão grado o adeantado da hora, em vigilia, assomou à porta.
Violante, como temos visto, é uma horrida e fantasmal … Seu vulto pavorosamente magro de uma magressa esquelética e de uma lividez de egresso de tumulos, lembra uma hedionda figura mythologica e infernal. Desse modo, a primeira impressão dos assaltantes … retroceder subitamente intimidados. … porém, um momento, todo este … a um grito mais … e iniciativo de um:
– Vamos …
A esta voz imperativa exhartação logo outra e outra succederam e após … lados, num rugido collectivo de ira corajosa, encheu o silencio da noite todas as imprecações revoltadas de toda a turba:
– Mata esta peste!
– Vamos chacinal-a!
– Morte á cadella de Satanaz!
Resolutos das palavras froam á acção. E uma chuva de pedras, lançadas por mais de 30 mãos que se crispavam de odio violento, desabou por obre a carcassa da feiticeira, sem, comtudo, attingil-o.
Encorajados ante sua passividade, avançaram, foices e machadinhas em punho, definitivamernte dispostos a liquidal-a.
De repente, porém a um só tempo, estancaram.
Uma nevoa diffusa e pallidamente vermelha, envolvia Violante que, envolta em um longo farrapo negro, a guisa de capa, no terreiro, estoreia, a princípio lentamente e após, com certa ligeireza, o corpo esqualido num savacoteio grotesco e impressionante.
Alguns mais audaciosos, todavia, deram passos á frente. Mas esta decisão foi ephemera. Porque, o pavor panico que os empolgou a todos, superou-lhes a valentia ao espectaculo fantasticamente macabro que se lhes deparava.
Violante aos poucos, denudando-se á medida que prosseguia em seus passos de choreographia demoniaca, transformara-se num esqueleto a sacudir, em chocalhos medonhos as articulações num indescriptivel … de mamulengo e, após, como que se fluidicando immaterializava-se, à proporção que mais opaca se ia tornando a nuvem que a circumdava até desaparecer aos olhos terrificados de toda aquella gente que, gelada e incapaz de um gesto, desabalou num corrida louca e vertiginosa, os corações quasi sem pulsar, numa ansia louca de pôr distancias infinitas entre elles todos e o horrendo theatro daquella visão de allucinar.
Entre os camponeses do numeroso pelotão de expedicionários, havia um jovem que, segundo apuramos, não … emoção que o abalou.
Ouvim-nos um seu companheiro de jornada que, tendo ele sido presa de forte crise nervosa á vista da impressionante transfiguração de Violante, ficou, mais tarde, em tal estado de perturbação mental que ninguem crèem em sua cura.
Este jovem, que fôra um dos mais vehementemente empenhados em liquidar a bruxa, além da loucura que o abateu, está aos cuidados de curandeiros locaes.”
Crítica, 03/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.

“A Romaria a Itinga
Não podíamos imaginar o successo da nossa reportagem sobre a bruxa de Itinga. Hontem, o telephone norte 7852, da Caravana de CRITICA tilintava, a cada instante. Eram pessoas que procuravam informes sobre a localidade, onde se refugiou a Macbeth brasileira.
Hontem a romaria a Itinga foi mais avultada do que no dia anterior. O povo o testemunha de factos sobrenaturaes, que impressionaram vivamente.
A bruxa ia recebendo paulatinamente os consulentes. Alguns foram á Itinga com o proposito unico de estudar ‘in-locum’ a feiticeira, cuja fama já ganhou fronteiras.
Os seus sortilegios assombram até o mundo scientifico.
Perto de mil pessoas attingiram hontem a florescente cidade, mas nem todas lograram ser attendidas pela coruja de Itinga.”
Crítica, 03/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.”
“Minutos Enervantes
Hontem tivemos que interromper a serie de considerações sobre a personalidade de Violante, a celebre ‘mandigueira’. Como dissemos, passamos uma hora ao lado da Macbeth.
Foram, porém, minutos enervantes. Chegamos a sentir arrepios e calafrios. Naquelle lapso de tempo, a physionomia da feiticeira se transmudou varias vezes. Era agora uma velha repellente de esgares nervosos. Depois, sentimos que aquella figura tomava outras proporções. As suas unhas eram como que garras duncas, cresciam e diminuiam a proporção que as fitavamos.
O ambiente mysterioso nos assombrava. Aquella esmirrada figura de mulher nos desassocegava, punha tremuras no nosso systema nervoso. Fugimos do antro da bruxa.
Cá fora, respiramos livremente.
O ambiente era de socego e calma.”
Crítica, 03/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.”
“Uma Questão de Coragem
Cá fora, ao lado dos ‘rails’ da estrada de ferro, populares commentavam o sucesso do dia, Itinga jamais viu tanta gente como nestes últimos dias.
Espíritos mais affoitos affirmavam que teriam a precisa coragem para a meia noite ir de encontro á bruxa. Outros, porém, mostravam-se mais covardes. Não se poderia guardar fortaleza de animo quando os factos são sobrenaturaes.
Um negociante de Nilopolis, Sr. Carlos Garcia Cavalcante contradizia a opinião dos que arrotavam valentias. Elle que jamais recuara de qualquer propósito, uma noite quasi morrera de susto.
Regressava á Nilopolis, pela estrada que liga estação a de Itinga quando nas proximidades do tugurio da bruxa viu-a em palestra com o monstro a que já alludimos.
O Sr. Garcia Cavalcante tentou prosseguir viagem. O monstro escancarou as enormes mandíbulas e elle sentiu no rosto o halito fervente tresandando a enxofre. Só se recorda que ali ficou extendido na estrada. De manhã, sol já de fora é que recuperou os sentidos. E, gesticulando desafiava a qualquer passar na noite de sexta-feira pela estrada de eucalyptus.
Ha casos reaes de assombramento. E’ caso de perguntar qual dos leitores tererá a coragem precisa para enfrentar á meia noite o monstro horrendo que vagueia pelos campos devolutos de Itinga.”
Crítica, 03/11/1929, p.8 – Transcrição amadora de Héspera.”
Jornal Crítica – 05 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 303
- Assim como as bruxas durante a antiguidade e a perseguição da Inquisição, a Violante também foi retratada com animais como bodes, corujas e serpentes.


Jornal Crítica – 06 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 304



Jornal Crítica – 07 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 305
- O texto do jornal Crítica de 07/11/1929 traz na margem superior direita uma foto de uma senhora diante de uma árvore apanhando folhas. A imagem em si não representa nenhuma captura de um acontecimento que tenha rompido com a ordem cotidiana. No entanto, os títulos grandes que preenchem a parte superior e lateral da foto, assim como a legenda, constroem um acontecimento de ordem sobrenatural.


“A bruxa de Itinga, em meio ao Sabat, grita esse nome [Violante] que é o seu, aos duendes e aos bodes pretos. E para eles estas quatro sílabas tem um poder sobrenatural. A enviada de Satan exulta de demoníaca alegria quando alguém a procura para fazer mal (…). As mulheres são as melhores consulentes de violante. E para elas a megera emprega uma sorte de magia original e infalível. Ordena Violante que a paciente se dispa. Depois sobre o peito esquerdo, com uma navalha, faz uma incisão de alguns centímetros. O sangue jorra em borbotões. A feiticeira, então, com um morcego sinistro, suga a ferida longamente, sequiosamente, tragicamente.”
(Crítica, 07/11/1929)

- A Caravana diz receber informações de moradores locais a respeito de rituais envolvendo a ingestão de corações de crianças mortas, cozidos e “temperados de succo de hervas bizarras e intragaveis ao paladar de outra qualquer pessoa” (Crítica, 08/11/1929)
- Violante também aparece representada à esquerda, com um longo manto preto e segurando pelas pernas o cadáver de um bebê com uma ferida sangrando no peito, diante de seu pequeno caixão. Ela leva a mão à boca, como se devorasse o coração de sua vítima. À sua volta, vemos outras mulheres participantes do sabá, com expressões e gestos que transitam entre melancolia e tormenta.
Jornal Crítica – 08 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 306

Jornal Crítica – 09 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 307

Jornal Crítica – 10 de Novembro de 1929. Ano 1 – Número 308

Imaginário da bruxa
- As representações de Roberto Rodrigues sobre o caso da Bruxa de Itinga parecem intimamente relacionadas às pinturas feitas durante a Inquisição da Igreja Cristã e que retratam os sabás das bruxas ou aquelarre como eram conhecidos as reuniões de bruxas na Espanha. Era comum na iconografia medieval e moderna o demônio ser retratado como figura chifruda, de barba pontiaguda, cascos de animais e cauda bifurcada, pelo que a cabra e o bode se encontram também associados ao diabo e a feitiçaria.
- Assim como as bruxas frequentemente são retratadas como anciãs, onde a partir do romantismo se intensificou a ideia de que o corpo velho e sem fertilidade não eram alvos de desejo sexual e se tornaria algo maligno e repulsivo.
- É preciso salientar que segundo o IBGE em 1920, considerando a população acima de 5 anos, o analfabetismo girava em torno de 71% dos brasileiros, em sua maioria negros e pobres. Para a burguesia carioca, os jornais tratavam de crônicas do mundo não civilizado da periferia.
- Nessa década de 1920, o jornalismo brasileiro tinha um estilo francês com artigos polêmicos e gênero opinativo livre. Apenas na década de 1940 que o jornalismo brasileiro passou a utilizar técnicas americanas, adotando uma linguagem impessoal e menos emotivo, sem uso de tantas metáforas e adjetivos.
- O cenário do Rio de Janeiro do século XX não era favorável para a prática de nenhuma crença que não fosse cristã: terreiros e casas de lideranças religiosas estavam sendo invadidos e violados pela polícia, intolerantes e jornalistas. Ao mesmo tempo que a Constituição de 1890 garantia a liberdade religiosa, o artigo 157 do código penal de 1890 condenava a prática de espiritismo, da feitiçaria, magia, curandeirismo, este último considerado prática ilegal de medicina bem como a adivinhação, com destaque para a cartomancia, extremamente difundida entre as classes mais altas brasileiras.

Referências
- Souza, D. D. D. (2024). Representações, práticas e usos do espaço urbano por estudantes de uma escola pública na Baixada Fluminense: a experiência do CIEP 397 Paulo Pontes, em São João de Meriti (RJ).
- Schreiner, B. C. (2023). As reconstituições visuais de crime de Roberto Rodrigues no Jornal Crítica (1929). Faculdade de Belas Artes. Trabalho de conclusão de curso. Rio de Janeiro.
- Souza, R. M. e Silva, M. R. (2021). Estereótipos associados à religiosidade afro-brasileira nas narrativas jornalísticas cariocas na década de 1920. Revista Mídia e Cotidiano 15 (2): 256-280.
- Rocha, J. L. (2004). Memória ferroviária de uma cidade. Revista Pilares da História 3 (4): 46-53.
- Hemeroteca Digital da Biblioteca Digital. Jornal Crítica. 01 de Novembro de 1929. Anno 1 – Número 300; 02 de Novembro de 1929 Número 301; 03 de Novembro de 1929 Número 302; 05 de Novembro de 1929 Número 303; 06 de Novembro de 1929 Número 304; 07 de Novembro de 1929 Número 305; 08 de Novembro de 1929 Número 306; 09 de Novembro de 1929 Número 307; 10 de Novembro de 1929 Número 308. Disponível em <https://bndigital.bn.gov.br/acervo-digital/critica/372382> Acessado em 17/03/2026.


