Rituais & Feitiços

Tatuagem ritualística

Introdução

  • O termo tatuagem é derivado do taitiano “tau” ou “tatau”, que significa originalmente “ferida, desenho batido”. Trata-se de uma onomatopeia, a partir do som produzido pela batida do instrumento que era utilizado para bater no tronco oco ao fazer a tatuagem. Antigamente, esse instrumento era utilizado para a percussão, no curso de cerimoniais verdadeiros e próprios da tatuagem na ilha do Taiti.
  • O termo inglês tattoo foi introduzido na Europa pelo explorador inglês, James Cook, quando do seu retorno, em julho de 1769. Com o tempo, foi traduzido para outras línguas: tattowierung, em alemão; tattuaggio, em italiano; tatouage, em francês; tattooing, no inglês moderno; e tatuagem, em português.
  • O termo tatuagem entrou nos dicionários de Língua Portuguesa ainda no século XIX.

Tatuagem: (substantivo) feminino. Conjunto dos meios, com que se introduzem debaixo da epiderme substâncias corantes, vegetais ou minerais, para se produzir desenhos duradouros e aparentes. […] Tatuar: verbo transitivo. Fazer tatuagens em (de tatan, traduzido do taiti)

Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, editado em Lisboa em 1899.
  • No contexto ritualístico, a tatuagem é uma técnica de magia que consiste na gravação de um símbolo na pele de maneira permanente de maneira que aquele símbolo tenha um significado mágico.
  • Essa técnica pode ser usada para diferentes finalidades podem ser várias, entre elas:
    • Oferenda devocional para uma divindade;
    • Pagamento de tratados feito com espíritos/divindades;
    • Simbologia de processo iniciático, rito de passagem ou vertente religiosa;
    • Invocação da energia relacionada a uma planta ou animal;
    • Feitiçaria de ligação, proteção, glamour, autoestima, etc.;
  • O objetivo do texto de hoje é reunir o que funcionou comigo para ajudar vocês a criarem seus próprios rituais para aproveitar o potencial mágico dessa técnica.
  • As partes do texto sobre histórico e estigmatização da tatuagem são baseadas principalmente no trabalho de Lise e colaboradores (2013) para dar um contexto da tatuagem para ser base para a nossa compreensão ritualística. Veja a referência completa no final para aprofundamento.

Histórico

I) Tatuagem no Mundo

  • A prática da ornamentação da pele está associada à própria presença da humanidade. Assim, a tatuagem parece ter sido inventada diversas vezes, em diferentes momentos e lugares do planeta, em todos os continentes, com maior ou menor variação de propósitos, técnicas e resultados.
  • Acredita-se que ela derive das cicatrizes corporais, ou seja, o homem primitivo passou a gostar de marcar seu corpo, inicialmente para assinalar fatos da vida, como nascimento, puberdade, reprodução e morte e, posteriormente, para marcar fatos sociais, como tornar-se um guerreiro, casar-se, celebrar vitórias e identificar prisioneiros. Alguns autores creem que ela tenha sido distribuída pelo mundo, através das grandes navegações dos países europeus.
  • Acredita-se que a tatuagem era uma prática desconhecida, ou, antes, esquecida pela cultura ocidental até o retorno do navegador inglês, James Cook, de suas explorações aos Mares do Sul, atual Polinésia, em 1769.
  • Desse modo, é possível afirmar que, antes mesmo de desenhar sobre a rocha, o homem primitivo, de qualquer maneira e por alguma razão, marcava a sua pele com incisões que deixaram cicatrizes ou marcas coloridas de pigmento propositalmente inserido.
  • São muitos os achados arqueológicos que comprovam a existência atávica da tatuagem. O mais antigo ser humano tatuado do mundo que se tem conhecimento é o chamado Homem de Gelo. Ele foi identificado como sendo um corpo da Idade do Bronze, com cerca de 5.300 anos, tendo sido encontrado por um caçador na Itália, junto a fronteira com a Áustria, em 1991. Seu corpo possuía cerca de 60 tatuagens, que consistiam em pontos e linhas simples, localizados na região lombar, na parte posterior do joelho esquerdo e no tornozelo direito.
  • Outro achado arqueológico importante é um corpo da civilização Cita, encontrado congelado, em 1948, na Sibéria, e datado do século V AEC. Ele mostra uma pele totalmente tatuada, com cenas de lutas com animais mitológicos.
  • Outros achados confirmam a existência da tatuagem na Antiguidade. É o caso da múmia da sacerdotisa da deusa Hator, no Egito, tatuada no ventre com imagens de símbolos de fertilidade, ou da estátua feminina exposta no museu do Cairo, datada de 1200 AEC, com tatuagens no pescoço.
  • Um dos achados mais recentes data de junho de 2006, a 2.600 metros de altitude, nas Montanhas Altay, na Mongólia, em uma elevação tumular ou “kurgan”. Trata-se de uma múmia de um guerreiro Scythian – povo nômade iraniano. O homem, que aparentemente era abastado, está vestido com um casaco de pele de castor, ornamentado com zibelina e lã de carneiro, em estado de conservação notavelmente bom. A pele ainda intacta da parte superior de seu corpo revelou algumas tatuagens.
  • Se for desconsiderada a hipótese de que a tatuagem surgiu autonomamente, em diversas regiões do mundo, pode-se afirmar que o Egito Antigo possui um papel fundamental na distribuição da tatuagem pelo planeta. Por volta de 2700 AEC, na mais remota civilização referida na origem da tatuagem, o ato de tatuar vinha imbuído de um significado altamente religioso.
  • A exportação desse hábito, através do frequente escambo comercial e político, mantido, no período, com a Arábia, a Pérsia, a Grécia e a ilha de Creta, faz crer que foi do Egito que a arte da tatuagem partiu para o mundo, no período entre 2800 a 2600 AEC.
  • Por volta de 2000 AEC, essa técnica ornamental se espalhou pelo sul da Ásia, indo até a China, no leste desse continente. Em seguida, foi introduzida no Japão, seguramente por relações marítimas mantidas com o restante do continente asiático. Foi ali que essa arte se difundiu e alcançou um nível técnico, coloração e interpretativo de extraordinária qualidade. Por volta de de 1100 AEC, a arte da incisão na pele emigrou para Bornéu, Formosa e outras ilhas do Oceano Pacífico.
  • Na maior parte do mundo greco-romano antigo, as tatuagens eram vistas como uma marca de punição e vergonha. Os gregos, que, segundo o historiador Heródoto, aprenderam a ideia das tatuagens penais com os persas no século VI AEC, tatuavam criminosos, escravos que tentavam escapar e inimigos que derrotavam em batalha. 
  • Um exemplo famoso é o dos atenienses tatuando os sâmios derrotados com uma coruja, o emblema sagrado de Atenas, apenas para ter o favor retribuído quando os sâmios derrotaram os atenienses e tatuaram seus prisioneiros com um navio de guerra sâmio. 
  • No Império Romano, os escravos eram marcados para mostrar que os seus impostos tinham sido pagos. O imperador Calígula tatuou gladiadores – como propriedade pública – e os primeiros cristãos condenados às minas. Mas entre muitas das culturas antigas que os gregos e romanos encontraram – trácios, citas, dácios, gauleses, pictos, celtas e bretões, para citar alguns – as tatuagens eram vistas como marcas de orgulho. 
  • Heródoto nos conta que, para os trácios, as tatuagens eram muito admiradas e “a tatuagem entre eles marca o nascimento nobre e a falta de nascimento inferior”. Um vaso grego do século V AEC (à esquerda) retrata uma mênade trácia tatuada, uma seguidora do deus Dionísio, matando o músico Orfeu como punição por abandonar Dionísio para adorar o deus sol, Apolo.

II) Tatuagem nas américas

  • A respeito da entrada da tatuagem no continente americano, existem numerosas hipóteses. Mucciarelli (1999) sustenta que essa técnica foi introduzida a partir da Polinésia, durante a migração dos povos polinésios. Outros afirmam que o povo siberiano aprendeu a tatuar a partir da população asiática Ainu, emigrada para o Alasca, e que depois essa técnica teria se difundido para todo o norte da América.
  • Devido à colonização europeia das Américas, a característica da tatuagem neste continente modificou-se. Tanto a tradição foi esquecida, como os registros históricos foram perdidos, deixando, assim, uma grande lacuna na história da cultura americana.
  • A cultura Moche do antigo Peru é conhecida por cerâmicas elaboradamente decoradas, ourivesaria, têxteis e murais – e pessoas. Embora a evidência física real de tatuagem seja rara, há um grande número de artefatos que indicam que a tatuagem era provavelmente uma prática comum e estimada no mundo Moche, de acordo com Edward Swenson, da Universidade de Toronto. 
  • Swenson acredita que embora seja possível que as marcas na máscara dourada (à esquerda), por exemplo, possam representar tatuagens reais, é mais provável que sejam tatuagens “falsas” estilizadas que não foram inscritas no rosto do falecido enterrado com a máscara, mas , pelo contrário, simbolizavam sua identidade e força vital. 
  • Um motivo interessante que é frequentemente encontrado é uma série de moscas em fase de pupa em volta do pescoço, que Swenson acredita simbolizar a morte e o renascimento. “Se o colar de mosca puder ser interpretado como uma espécie de tatuagem, então eu suspeitaria que alguns indivíduos foram tatuados em rituais importantes de crise de vida, como depois que os iniciados alcançaram com sucesso um novo status social ou ritual”, explica Swenson. 
  • “Da mesma forma, os xamãs são frequentemente representados com animais antropomorfizados, talvez sugerindo a sua capacidade de mudar de forma em estados de transe.” Animais, tanto realistas quanto sobrenaturais, também adornam o corpo da “Dama de Cao” (topo), uma múmia bem preservada encontrada no sítio de El Brujo em 2005.
  • Suas tatuagens incluem bagres estilizados, aranhas, caranguejos, felinos, cobras , e um ser sobrenatural comumente chamado de Animal da Lua. “Só podemos especular sobre o significado destes motivos”, diz John Verano, da Universidade de Tulane, que escavou a múmia com o diretor do Projeto El Brujo e do Museu, Régulo Franco. 
  • “Mas as aranhas estão associadas à chuva, bem como ao sacrifício humano e à morte, e a serpente é um elemento importante associado em muitas culturas andinas antigas a divindades, fertilidade e também ao sacrifício humano”, acrescenta Verano. “As tatuagens podem muito bem ter sido adotadas por razões estéticas na sociedade Moche, mas provavelmente também desempenharam um papel fundamental na facilitação de transformações para novos estados de ser”, diz Swenson.
Múmia da cultura Monche, do Peru (450-500 EC). Fonte: John Verano e Régulo Franco, Projeto El Brujo.
Máscara da cultura Monche, do Peru (450-500 EC). Fonte: Linden-Museum, Stuttgart, Foto A. Dreyer
  • De cerca de 1200 a 1600 EC, os nativos americanos que falavam línguas muito diferentes e viviam em uma vasta área do que hoje são os Estados Unidos seguiram práticas religiosas semelhantes, conhecidas hoje como Complexo Cerimonial do Sudeste. 
  • De acordo com David H. Dye, da Universidade de Memphis, que estudou tanto as representações rituais em artefatos quanto as tradições orais dos nativos americanos, a tatuagem era uma parte vital dessas ideias religiosas compartilhadas. “Eles desempenharam um papel importante na celebração da perpetuação da vida”, diz Dye. 
  • “Para os guerreiros, as tatuagens faciais eram armadilhas para capturar a alma de alguém que matavam em batalha. Capturar essas almas inimigas através de tatuagens permanentes ajudou não apenas a prolongar suas próprias vidas, mas também a facilitar a passagem de seus parentes falecidos.” Muitas das evidências de tatuagem vêm de potes de cerâmica que retratam cabeças humanas fortemente tatuadas. Estas embarcações eram muitas vezes decoradas com motivos de pássaros, que parecem estar relacionados com o Homem-Pássaro, divindade que assegurava o renascimento diário do sol e simbolizava o triunfo da vida sobre a morte. 
  • Frequentemente, essas tatuagens assumiam a forma de penas ou garras de raptor ao redor dos olhos. “Ao tatuarem-se com motivos de pássaros, eles se tornaram aquela criatura sobrenatural”, diz Aaron Deter-Wolf, da Divisão de Arqueologia do Tennessee. “As tatuagens permitiram que eles incorporassem sua força.”
Cultura Mississipiana, EUA, 1350-1550 EC.
Fonte: Detroit Institute of Arts, EUA. Compra da Founders Society com fundos da Fundação Mary G. e Robert H. Flint.
  • Por mais de 1.000 anos, uma cultura floresceu onde hoje são os estados mexicanos ocidentais de Jalisco, Nayarit e partes de Colima. A maior parte do que sabemos sobre a cultura vem de artefatos retirados de tumbas de poço – geralmente por invasores de tumbas – incluindo exemplos de estatuetas ocas de cerâmica fortemente tatuadas. Alguns estudiosos acreditam que as estatuetas representam deuses, enquanto Christopher Beekman, da Universidade do Colorado, Denver, suspeita que elas possam de fato representar as pessoas com quem foram enterrados. Certamente os desenhos pretendiam comunicar identidade e estatuto, especialmente considerando que as estatuetas parecem ter sido utilizadas em contextos cerimoniais, e também instaladas em áreas residenciais para serem vistas e visitadas. Segundo Beekman, é notável que a tatuagem ocorra com destaque ao redor da boca, o que pode remeter, como na sociedade maia clássica, ao sopro de vida ou à capacidade de fala polida desses indivíduos.

Estatuetas da Tumba do Poço Ocidental, México, 100 AEC-400 EC. Fonte: Instituto de Artes de Detroit/Compra da Sociedade dos Fundadores/Biblioteca de Arte Bridgeman.
  • Um povo indígena conhecido como Ibaloi certa vez mumificou seus mortos honrados e os colocou para descansar em troncos ocos nas cavernas ao redor do que hoje é o município filipino de Kabayan. 
  • Em vida, esses povos antigos conquistaram o direito de serem cobertos por tatuagens espetaculares representando formas geométricas, bem como animais como lagartos, cobras, escorpiões e centopéias. “De acordo com relatos etnográficos do século XIX, os guerreiros caçadores de cabeças Ibaloi reverenciavam essas criaturas como ‘animais presságios’”, diz o antropólogo e estudioso de tatuagem do Smithsonian, Lars Krutak. 
  • “A visão de um antes de um ataque poderia fazer ou destruir todo o empreendimento.” Depois de tomar com sucesso a cabeça de um inimigo em batalha, um guerreiro teria esses animais propícios permanentemente gravados em seu corpo. 
  • Algumas múmias Kabayan também apresentam tatuagens menos assustadoras, como círculos em seus pulsos que se acredita serem discos solares, ou linhas em zigue-zague interpretadas de várias maneiras como relâmpagos ou campos de arroz escalonados. 
  • “Todas estas tatuagens parecem representar o ambiente circundante”, diz Krutak, que observa que a maior atenção dada às múmias na última década ajudou a alimentar o ressurgimento da tatuagem tradicional, que tinha em grande parte desaparecido. 
  • Hoje, milhares de pessoas que traçam sua descendência até os antigos Ibaloi usam desenhos em suas peles inspirados nos de seus ancestrais.
Múmia da Cultura Ibaloi, Filipinas, cerca de 1500 EC. Fonte: Biblioteca de Arte Bridgeman, Gunther CO Deichmann.
Nativos da tribo Ibaloi.

II) Tatuagem no Brasil

  • A tatuagem entre os nativos brasileiros é mencionada em muitos livros de antropólogos brasileiros e estrangeiros. Um dos primeiros data de 1512 e foi escrito por Henri Estienne, um explorador que levou alguns nativos brasileiros para a Europa e os exibiu na corte francesa. Ele relata que a face dos nativos era decorada com cicatrizes e tatuagens azuis, alguns com linhas azuis das orelhas às tíbias (ossos da perna).
  • Outro autor, o religioso calvinista Jean de Lery, escreveu um livro chamado “História de uma Viagem feita à terra do Brasil”. Ele esteve no Rio de Janeiro, de 1577 a 1578. No capítulo XV de seu livro, refere o desenho cicatricial feito pós-festim antropofágico: Os executores desses sacrifícios humanos reputam o seu ato grandemente honroso; depois de praticada a façanha, retiram-se em suas choças e fazem no peito, nos braços, nas coxas e na barriga das pernas sangrentas incisões. E, para que perdurem toda a vida, esfregam-nas com um pó negro que as torna indeléveis. O número de incisões indica o número de vítimas sacrificadas e lhes aumenta a consideração dos companheiro.
  • O jesuíta Fernão Cardim também relatou, em sua obra “Tratados da terra e gente do Brasil”, outras incisões dos indígenas brasileiros. Entre os nossos indígenas, sabe-se que os tupinambás do século XVI tatuavam-se por iniciação, hierarquia, magia, luto e sacrifício. Nas tribos dos gês, tupis, cainguás, guaraios e cabilas, a tatuagem era parte de um rito de iniciação feminina. Entre as tribos dos auetés e camarrituras, esse tipo de técnica era considerada um instrumento mágico medicinal. Entre os caribas e guanás, era como um elemento de distinção. Os indígenas guanás e cadieus, por sua vez, consideravam a tatuagem um ornamento sexual. Já para os kadiwéus, a pintura no corpo era feita para diferenciar o homem do animal.
  • Os desenhos indígenas eram quase sempre geométricos, com linhas, tramas ou manchas, no rosto ou no corpo. Os nativos brasileiros usavam muitos instrumentos diferentes para escarificação e tatuagem: diamantes, espinhos de palmeiras, dentes de peixes e de mamíferos.
  • Membros da tribo dos munducurus, por exemplo, usavam um pedaço de madeira com dentes de roedores, dispostos próximos, em linha, com o qual eles faziam a incisão de uma série de linhas paralelas na pele. Sabe-se também que, no Brasil pré-colonial, era comum os indígenas se tatuarem temporariamente, com seivas das plantas urucum e jenipapo.
Tatuagens temporárias em criança da Etnia Kayapó.
  • No Brasil, a disseminação da tatuagem ocorreu no século XIX, com a abertura dos portos e a mistura de marinheiros estrangeiros com a população das cidades litorânea. Os marinheiros ingleses trouxeram a tatuagem ao Brasil, assim como a propagaram pelo resto do mundo. No século XX, iniciou-se o interesse médico criminalista pela tatuagem, tentando enquadrar e diagnosticar o fenômeno.
  • Já em 1902, o estudante de Medicina baiano Álvaro Ladislau de Albuquerque apresentou uma tese sobre tatuagem. O jornalista e escritor João Paulo Alberto Coelho Barreto – que utilizava o pseudônimo “João do Rio” –, por sua vez, lançou, em 1908, o livro “A alma encantadora das ruas”, em que faz comentários sobre tatuagens: Há tatuagens religiosas, de amor, de nomes, de vingança, de desprezo, de profissão, de beleza, de raça, e tatuagens obscenas […]. Nome no calcanhar é a maior ofensa […]. Quando envelhecem, as pobres mulheres mandam apagar os sinais, porque querem ir limpas para o outro mundo. Para apagar as tatuagens, as mulheres empregavam vários processos, como aplicação de óleo fenicado, ácido sulfúrico, nitrato de prata e oxalato de potássio, em geral substâncias cáusticas.
  • João do Rio refere: Há três casos de tatuagens no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade.
  • Podemos dizer que a arte brasileira tem fortes vínculos com a tatuagem, desde 1925, quando Leão de Vasconcelos escreveu o livro “Tatuagens Sentimentais”, com 31 poemas sobre o tema. O vínculo é verificado na história da Literatura e também na Música Popular Brasileira.
  • A tatuagem está presente, por exemplo, em personagens notórios como o Guma, de Jorge Amado, e o Gaúcho, de Graciliano Ramos. Na música brasileira, a tatuagem já foi cantada por Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Nelson Cavaquinho e Rosa Tattooada, entre outros.
  • Se, no início do século XX, os “artistas da agulha” eram meninos de dez ou doze anos, que percorriam as ruas oferecendo seu trabalho, o precursor da tatuagem contemporânea no Brasil foi um dinamarquês: o desenhista e pintor profissional Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido popularmente como Lucky, ou Mr. Tattoo. Ele chegou ao país em 1959 e se estabeleceu em Santos, no Estado de São Paulo.
  • Segundo Marques, o estímulo decisivo para a classe média urbana brasileira se tatuar veio com a canção “Menino do Rio”, de Caetano Veloso: todo mundo quis ser Menino do Rio. A canção virou hino. Caetano transformou a tatuagem em fato socialmente aceitável e desejável.
  • Quanto aos indígenas que atualmente vivem em território brasileiro, atualmente estima-se que existam cerca de 60 tribos ainda desconhecidas, vivendo na profundidade da floresta. É provável que a tatuagem seja praticada em muitas dessas populações. Conforme Marques (1997) há cerca de quatro anos, as autoridades brasileiras encontraram uma tribo desconhecida da civilização, em que os membros tinham séries de pontos, formando linhas tatuadas na face.
Indígena We’e’ena Tikuna, nasceu na Terra Indígena Tikuna Umariaçu no Amazonas, Alto Rio Solimões.
Indígena We’e’ena Tikuna cantando a música Marakanandé.

Papéis da tatuagem

  • Em muitos momentos da História mundial, foram utilizadas marcas no corpo, para punir os “fora da lei”. Essas eram feitas com tinta ou a ferro quente, como no gado. O corpo era marcado para apartar, diferenciar, exibir poder, discriminar, punir.
  • A lista de uso punitivo da tatuagem é muito extensa, no “currículo” da humanidade. Vai desde os prisioneiros da Grécia antiga às prostitutas do reinado de Luis XIV, na França, passando pelos escravizados franceses que existiam já em 1685 – ou os do Brasil, Alemanha, Suécia, Holanda, Espanha e Estados Unidos do século XIX, fugitivos ou não, – e pelos presidiários norte-americanos e desertores do exército britânico do século XIX, além dos prisioneiros nazistas do século passado.
Os membros das gangues rivais Ms-13 e 18th Street de El Salvador podem não conseguir esconder as alianças que abandonaram. Esse é apenas um desafio que eles enfrentam.
  • O branding, ou a marca da pele a ferro quente, hoje considerado uma variante da tatuagem, foi utilizado, inicialmente, por volta de 1520, quando surgiu, no Brasil, a lei e o hábito de marcar os escravizados a ferro quente. Isso deu origem à profissão de marcador, presente nos portos.
  • Em 1831, quando traficar escravizados tornou-se ilegal, os negros foram emancipados, e esse hábito desapareceu. Existem também vários relatos, na História, acerca da utilização da tatuagem com fins práticos, que se confundem, por vezes, com o uso punitivo. Esse tipo de imagem também foi utilizada por gregos e romanos para indicar o pertencimento a uma classe baixa ou a alguma categoria social, como escravizados, prisioneiros e estrangeiros.
  • Também na Antiga Roma, a tatuagem tinha outra utilidade. Os soldados costumavam tatuar, no dorso das mãos, o nome do general de sua divisão, para facilitar a identificação.
  • Existem, ainda, relatos de tatuagem em guerreiros samurais do século XVI, utilizadas para identificação dos corpos mortos em batalhas. No Japão, o Código Joei, de 1232, menciona a existência de uma tatuagem penal. No governo Tokugawa, ao redor de 1603, é relatada a prática de tatuagem, como forma de punição, sendo que, em 1720, ela substituiu a pena de amputação de narizes e orelhas. Naquela época, crimes como extorsão, fraude e trapaças eram punidos com a tatuagem. Os criminosos eram tatuados com um anel negro ao redor do braço, para cada ofensa, ou com um caractere japonês na testa. Após 150 anos de uso, a tatuagem penal foi abolida em 1870.
Tatuagem em homem japonês, cerca de 1875.
  • Outra utilidade da tattoo, entre as mulheres do Oriente Antigo, era evitar que fossem levadas para o Japão, já que era um “hábito” frequente, na época, o sequestro de mulheres, e era de conhecimento público que os japoneses não gostavam de mulheres tatuadas.
  • Durante o regime nazista, Joseph Goebbels propôs a Hitler tatuar, nas axilas dos soldados, o tipo sanguíneo, para facilitar seus tratamentos, se necessário.
  • A tatuagem tem sido amplamente utilizada, nos dias atuais, tendo atingido índices de destaque, em relação a outros momentos históricos. Uma das explicações para o renascimento da tatuagem, no panorama ocidental, é o seu resgate, por grupos jovens, nos idos de 1980, especialmente punks, para expressar seu inconformismo perante a sociedade.
  • No Brasil, a sua popularização ocorreu já nos anos de 1970. Hoje a tatuagem pode ser vista como uma maneira de os indivíduos expressarem seus padrões de vida e personalidade. A uniformização dos conhecimentos e a ampla cobertura dos meios de comunicação propiciam hoje em dia a difusão de costumes e padrões de beleza, de corpo e moda, enfim, de tudo, em nível global.
  • Entre outras coisas, essa generalização indica a interiorização de uma tendência à hegemonia de uma expectativa corporal que estaria se difundindo pelo mundo. Então, pode-se supor, nessa mesma linha de pensamento, que esteja ocorrendo a difusão e a reprodução do gosto atual pelo hábito da tatuagem.
Mulher tatuada.
  • Segundo os tatuadores, esse aumento é real e mundial e apresenta aspectos sazonais. É o que ocorre no Brasil, por exemplo, um aumento de procura de tatuagem no mês de setembro, com o início da primavera – que está associado a uma maior exposição dos corpos.
  • Nos EUA, contam-se mais de 40 milhões de tatuados, o que representa mais de 10% da população.
  • Na Europa, o crescente aumento da procura por tatuagem deu origem até a uma disciplina, ensinada nas universidades de Milão e Roma: a Psicologia da Tatuagem. Tal disciplina, no momento, discute, entre outros tópicos, o significado dos desenhos.
  • Ainda hoje, contudo, permanece a utilidade do papel identificador tribal da tatuagem, em muitos locais, como na região da Melanésia, Polinésia e Micronésia, onde a prática é extremamente difusa e exprime um notável nível estético, constituindo, contemporaneamente, um forte elemento de coesão social e de pertencimento a uma civilização e a uma cultura.
  • Para cada pessoa, a tatuagem tem um significado próprio, levando em consideração fatores particulares. A escolha por determinado desenho tem a ver com a história de vida de cada um. O indivíduo e o grupo social se entrelaçam.
Realização de tatuagem atualmente.
  • Em pesquisa realizada pela autora encontrou-se, resumidamente, que uma característica recorrente nos tatuados é o uso do desenho, como forma de se expressar. Vê-se, nas respostas dos entrevistados, a utilização da tatuagem como elemento de autoafirmação, bem como uma expressão do romantismo e o uso como uma prova de amor. Neste trabalho finalizado em 2007, a tatuagem foi descrita como um atrativo sexual; ainda foi percebida como sendo discriminada, como associada a presidiários ou “pessoas de má índole”; embora também vista por alguns como um enfeite, um adorno23.
  • Na pesquisa de Kim, o motivo mais frequente para se fazer uma tatuagem foi a impulsividade e a vontade de fazer parte de um grupo. Em outro trabalho, há também o relato de seu uso para disfarçar cicatrizes.
  • Em suma, apesar de muitos ainda relacionarem a tatuagem a grupos específicos, como os surfistas, motociclistas e punks – como ocorria no início de sua difusão pelo Ocidente -, na realidade atual, o que se vê é a perda dos limites de grupo, para uma expansão com objetivo sobretudo estético.
  • Atualmente, uma das mais inusitadas utilidades das tatuagens é a propaganda de marcas. A pele é tatuada com o logotipo da marca a ser divulgada, e a pessoa que tem seu corpo tatuado com essa finalidade recebe pelo período de uso estipulado, como um aluguel.
Homem com tatuagem.

Estigmatização da tatuagem

  • Apesar de existir, há séculos, seus elos históricos, com os credos e as religiões através do tempo, apresentam-na como marcas demoníacas, incluindo-se, os sinais de nascença.

I) Cristianismo

  • No início da era Cristã, ainda na clandestinidade e sob o jugo do poder pagão, os primeiros cristãos se reconheciam por uma série de sinais tatuados, como cruzes, as letras IHS, o peixe e as letras gregas.
  • Com o advento do Cristianismo, no entanto, surgiu a ideia de que o corpo tinha sido criado por Deus e que, por isso, não poderia ser alterado pelo homem. Dessa forma, a tatuagem foi submetida a um simbolismo Bíblico, passando a ser uma interdição religiosa (Deus tatuou Caim, o primeiro “pecador”, porém com essa marca também o protegeu de qualquer vingança6.) , como adverte na Bíblia Cristã.

“Se o Senhor imprimiu uma marca ao pecador, o homem não pode, ele mesmo, tatuar-se”

Bíblia Cristã – Levítico 6
  • Ainda no ano de 787 EC, a Igreja Católica posicionou-se contra a tatuagem, através do papa Adriano, que a proibiu formalmente, alegando que a prática estava associada à superstição e ao paganismo. De lá, até o fim da Idade Média, a tatuagem tornou-se uma prática quase esquecida18. Dessa forma, deu-se o desaparecimento das tatuagens da cultura ocidental (Europa).
  • Cabe citar, entretanto, que, em dois momentos da História cristã, essa prática ocorreu entre seus seguidores, a despeito de não ser aceita pela Igreja. No período das vigílias na Terra Santa, contra osataques dos muçulmanos, do século VII a X, era hábito ter tatuada uma cruz na parte interna do braço. Depois, na época das peregrinações a Jerusalém, na Idade Média, os peregrinos assumiram o hábito de tatuar sua fé, na forma de uma imagem religiosa, numa área visível do corpo.
Homem tatuado segurando a Bíblia Cristã.

II) Islam

  • A religião islâmica, bem como a Católica, proíbe as marcas no corpo. No Alcorão, lê-se: “[…] a tatuagem é uma marca satânica, causa maldição, as abluções rituais não têm nenhum efeito sobre a pele tatuada”.
  • Ainda hoje, para os muçulmanos do Norte da África, o corpo tem de ser imaculado, antes de entrar na casa do senhor e receber a sua benção.

III) Confucionismo

  • No período Edo da História japonesa, o primeiros hogun, Tokugawa Ieyasu, unificou o país e, com base no Confucionismo, em 1614, baniu o Cristianismo. Entre as normas impostas, estava a seguinte: “Corpo, cabelo e pele recebemos de nosso pai e mãe; não os ofender é o começo da devoção filial. Preservar o corpo é reverenciar deus”20. A partir de então, o uso da tatuagem foi proibido no Japão.

III) Yakusa

  • Ainda no Japão, surgiu a yakusa. Essa é a denominação de um notório sindicato japonês, cuja origem remonta ao período Edo, há mais de 300 anos. Naquela época, os ancestrais da yakusa usavam tatuagens, como marca de status.
  • A tatuagem constituiu-se na grande marca registrada do grupo, estando presente em 73% dos membros. A tatuagem era, então, uma demonstração de força, coragem e masculinidade, já que uma tatuagem de corpo inteiro demandava muita paciência e resistência à dor. Assim, na yakusa, as tatuagens representavam solidariedade, lealdade e confiança, conectando os membros.
  • Com o crescimento econômico do Japão, houve grande aumento da yakusa e os seus membros se tornaram, mais frequentemente, envolvidos em atividades criminosas. Como a tatuagem já estava associada ao sindicato, nesse processo, ela acabou sendo vinculada à ideia do crime.
  • Talvez tenha surgido aí o sentido negativo da tatuagem, como marca do mal, e via de consequência, como “coisa de gente sem destino” (marinheiros), “criminosos” e, finalmente, “presos”. O estigma do excluído, maculado nas imagens grafadas em seu corpo, portanto, aparece e toma lugar na história da delinquência e do cárcere, em todo o mundo.
O elo entre yakusa e a tatuagem.

IV) Tatuagem penal

  • A tatuagem penal, em vários locais e épocas, foi utilizada como uma forma de punição, que terminava por marcar seus possuidores. Eles passavam a ser vistos como marginais pelo resto de suas vidas.
  • No Japão, por exemplo, ela deu origem a um ciclo vicioso, uma vez que os criminosos tatuados eram rechaçados pela sociedade, por toda a sua vida. Muitos abandonavam a esperança de uma vida normal e caíam no crime. Assim, a tatuagem penal originou um grupo minoritário: os proscritos sociais.
  • Tatuar prisioneiros já era prática usada na Grécia clássica, lá os escravizados eram tatuados com o nome do seu dono. Já na França, conforme o código Noir de Colbert, de 1685, o escravizados fugitivo deveria ser marcado com uma flor de lis e ter uma orelha cortada. Em caso de reincidência, outra flor de lis deveria ser tatuada e ainda seria cortado o tendão de Aquiles do fugitivo. No caso de venda do escravizados, uma segunda marca, do novo dono, era feita6.
  • No período de escravidão negra (1690-1890), era comum em muitos países a utilização de marcas a ferro quente, para identificação de pertencimento, assim como ocorreu na Alemanha, Suécia, Holanda, Espanha, Estados Unidos e também no Brasil.
  • Na Inglaterra, utilizavam se as iniciais “BC” bad caracter, significando mau caráter, em inglês na pele dos condenados.
  • No século XIX, ex-presidiários americanos eram marcados com tatuagens, e, mais tarde, os internados em prisões siberianas e em campos de concentração nazistas foram também identificados assim.
  • Já os nazistas tatuavam, no antebraço esquerdo dos seus prisioneiros, um código numérico antecedido de letra ou de pequenas figuras geométricas. Essa marca além de contar, classificava, logo na entrada, os judeus, ciganos, homossexuais e prisioneiros políticos. O nazista Ilse Koch utilizava as “mais belas peles humanas tatuadas” nos campos de concentração, como parte de luminárias de mesa.
Tatuagens na prisão.
  • Em presídios do mundo inteiro, os próprios detentos tatuam se para diferenciar a facção à qual pertencem. No Brasil, ainda em 1912, o tema da tatuagem entre os detentos suscitou o estudo “Tatuagem e Criminalidade” de José Ignácio de Carvalho, no Rio de Janeiro. Ele observou 150 presos da Casa de Detenção do Rio de Janeiro, cujo diretor, Elysio de Carvalho, refere: […] a tatuagem brasileira é muito mais modesta, espiritual e menos irreverente, simples como ornamento artístico, e como significação às vezes ingênua […]
  • Naquela época, os tatuadores é que procuravam os clientes, nos quartéis e prisões. Entre os corantes mais utilizados, estavam nanquim, vermelhão, fuligem diluída em água, carvão de madeira pilado e diluído em água, tinta comum, pólvora diluída em suco de limão e anil.

Etapas do ritual da tatuagem

  • As etapas descritas aqui foram desenvolvidas intuitivamente durante a minha prática pessoal. Funcionou comigo e espero que possa funcionar contigo ou te inspirar a desenvolver o seu próprio método.

I) Preparativos

  • Se você escolheu a técnica da tatuagem para atingir um objetivo ritualístico, o primeiro passo é deixar claro para a si o alvo a ser alcançado. Comece a registrar todo o processo de construção da tatuagem.
Planejamento e registro de todo o processo.
  • Uma vez definido o objetivo, pense nos símbolos que podem ser desenhados que se relacionem com o seu alvo. Essa etapa precisa ser muito bem planejada e não tem duração definida. Inclusive, você pode planejar todas ou várias das tatuagens do seu corpo a fim que cada região do seu corpo tenha uma temática. Isso evita arrependimentos e pode ir replanejando a medida que for fazendo. Apenas passe para os próximos passos quando tiver certeza do que quer fazer.
  • Você pode fazer inclusive um kolossoi em um local escondido ou em local amostra, mas com aparência que não chame tanta a atenção. Com isso ele pode atuar como um símbolo de ligação para representar você ou outra pessoa.
  • Exemplos de elementos que podem compor o desenho:
    • Cores;
    • Animais;
    • Plantas;
    • Sigilos;
    • Objetos;
    • Cartas de tarot ou runas;
Mulher tatuada.
  • Com o conjunto de símbolos definido, agora você precisa escolher o local. Vai ser em um local visível para mim e todos ou vai ser um local escondido onde só você possa ver ou fique embaixo da roupa? Em qual parte do corpo? Vou escolher um local que dói mais para fazer ou que seja mais suave? As respostas para essas perguntas vão de encontro com o seu alvo. Veja alguns exemplos:
    • Símbolo de vertente religiosa. Precisa ser em um local visível porque quero que as pessoas da mesma vertente possam me identificar facilmente como membro dela. Não precisa ser em um local que dói.
    • Símbolo devocional. É opcional ser em um local visível, depende se você quer demonstrar aquela devoção publicamente. Só pense se quer que seja em um local que você consiga ver, facilitando a sua interação, ou tem um local que seja mais difícil de ver, como as costas, onde também pode ter uma conotação de proteção. É opcional ser em local onde cause dor, depende se você quer dedicar o sacrifício para o espírito/divindade.
    • Símbolo de proteção. Pode ser em um local visível, onde você quer que qualquer pessoa que olhe para ele já se sinta intimidada ou em local escondido agindo como um portal que direciona energias indesejadas para um outro local pré-definido. Pode ser em um local que você consiga ver e te proporcione segurança ao visualizá-lo. Não precisa ser em um local que cause dor.
Mapa da dor.
  • Quando irei fazer a tatuagem. Essa parte é muito difícil de acontecer exatamente como os seus planos porque vai depender da disponibilidade do tatuador. Se você conseguir agendar com antecedência, planejar em qual egrégora você quer fazer a sua tatuagem para potencializar a sua intenção, seria ótimo. Caso não consiga agendar com antecedência, reflita e registre em qual momento a sua tatuagem está sendo feita para saber quais são as influências no resultado simbólico dela.
  • Você inclusive pode iniciar um processo de preparação ritualístico dias antes da tatuagem incluindo jejum de alguns alimentos ou bebida de um chá específico relacionado com o objetivo da tatuagem. Você também pode incluir no seu altar uma imagem do desenho da sua tatuagem para você já ir criando uma egrégora nela e convidando seus guardiões para abençoarem esse momento.
  • Exemplos do que observar:
    • Estação do ano ou festivais religiosos;
    • Fase da lua e ciclo menstrual;
    • Regências astrológicas;
    • Temperatura e tempo do dia, se estava chuvoso, nublado, ensolarado, etc.

2) Dia da tatuagem

  • Tenha o mais claro possível a sua intenção com a tatuagem que você irá fazer. Você pode fazer uma oração ou encantamento relacionado a tatuagem para você repetir algumas vezes durante o dia, você pode ouvir músicas relacionadas com a energia da tatuagem, tomar chás relacionados com a energia, tomar um banho mágico com ervas correspondentes, fazer sigilos no local onde a tatuagem será feita.
  • Registre todo o processo da realização da tatuagem. Se a sua tatuadora ou tatuador for do meio pagão ou afins, e você tiver intimidade com ele/ela converse sobre assuntos relacionados ao significado da tatuagem. Se for uma tatuagem devocional, fale sobre o mito da divindade relacionada, peça para ouvir música, mesmo que em volume baixo…
  • Pause durante a tatuagem e vá para um banheiro ou local reservado para entoar orações e/ou encantamentos com as mãos sobre o local da tatuagem.
  • Declare e busque atrair o máximo de energias relacionadas ao objetivo da tatuagem. Evite assuntos que possam ser contra o objetivo da tatuagem. Por exemplo, não converse sobre escassez se é uma tatuagem de prosperidade, não fale sobre depressão se é um símbolo de alegria e por aí vai.
  • Ao terminar a tatuagem agradeça ao tatuador ou tatuadora por ela/ele participar desse momento especial e se encaminhe para casa com a mente em foco com o seu objetivo e se possível observando a tatuagem.
Dia de fazer a tatuagem.
  • Observação: Pode acontecer, mesmo que seja mais raro, que a sua tatuagem ritualística seja executada por uma tatuadora da sua vertente mágica dentro de um local preparado para um ritual e até junto de membros de um grupo mágico. Nesses casos, você pode elaborar um ritual com as etapas que a sua vertente costuma realizar e então criar ainda mais simbologias para potencializar o seu objetivo. Pode preparar todo o espaço antes da execução do ritual, fazer banimentos, entoar mantras, o leque de opções aumenta muito.

3) Após a tatuagem

  • O período de cicatrização já é um período natural de renúncia de alguns comportamentos (como exposição ao sol, ingestão de gordura em excesso, etc.) e dedicação ao cuidado com a pele (limpeza, uso de pomadas cicatrizantes e hidratação). Não será diferente com uma tatuagem devocional.
  • Para evitar possíveis alergias e processos inflamatórios, não coloque nada além de produtos neutros e sem essências/óleos durante os primeiros 15 dias ou até completar totalmente a cicatrização.
  • Apesar disso, você pode incrementar esse momento de cuidado diário com a pele com músicas, orações e encantamentos relacionados a sua intenção.
Cuidados pós-tatuagem.

4) Ativação da tatuagem

  • Com a tatuagem totalmente cicatrizada, você pode incluir na sua rotina a ativação mágica dessa tatuagem. O símbolo presente ali vai atuar passivamente, sem procedimentos extras, desde de que você não esqueça o motivo de ter feito a tatuagem. No entanto, você pode potencializar ativamente a sua atuação em caso de necessidade ou incluir essa ativação na rua rotina mágica.
  • Tenha sempre cuidado para não deixar em contato com a sua pele produtos e ervas que você possa ter alergia ou desconfie de qualquer tipo de toxicidade.
  • Veja alguns exemplos de ativação:
    • Uso de cosméticos naturais como perfumes, cremes e óleos hidratantes a base de ervas relacionadas com o objetivo da tatuagem.
    • Você pode fazer uma água energizada com cristais e ervas específica para ativar a sua tatuagem.
    • Você pode escolher algumas cartas de tarot ou runas para potencializar a energia da sua tatuagem.
    • Crie sigilos de ativação que você desenha sobre a tatuagem com um creme ou com o dedo molhado em um chá específico.
    • Crie encantamentos ou orações para serem ditos sempre que quiser que a tatuagem seja ativada.
Ativação da tatuagem.

Alertas importantes

  • Não tatue algo que você não compreende profundamente. Saiba que nunca saberemos sobre algo a ponto de esgotá-lo, mas busque saber minimamente do que se trata o conjunto de símbolos que irá usar tanto no inconsciente coletivo quanto no seu inconsciente individual. Não tatue símbolos de uma egrégora que você não está familiarizado.
  • Busque um tatuador ou uma tatuadora que você se sinta bem, que responsável e que siga as orientações de higiene dando boas indicações de cuidados pós-tatuagem.
  • Não tatue sem o aval dos seus responsáveis, caso você seja menor de 18 anos ou não se sinta apto a tomar essa decisão. Isso inclui não tatuar em estados alterados de consciência seja induzido recreativamente ou ritualisticamente, isso pode causar arrependimentos. Seja autocrítico e verifique se você não está tomando uma decisão impulsiva e/ou imatura. Tatuagens são perpétuas e há quem diga que mesmo removidas por laser, elas permanecem em nossos corpos astrais até mesmo ao longo do ciclo de reencarnações.
Veja também o relato de Amanda Celi do Tempero de Bruxa e sua tatuagem devocional a Gaia.

Experiência da Héspera

  • Eu fiz a minha primeira tatuagem no dia 06 de setembro de 2023 e foi ritualística em honra a Perséfone. Eu queria que essa tatuagem representasse o meu retorno as campinas. Eu passei por anos difíceis com a pós-graduação e dificuldades financeiras e agora estava experimentando férias e estabilidade pela primeira vez.
  • Eu escolhi um local que fosse visível para mim o tempo todo para práticas devocionais e que não doesse tanto para uma primeira tatuagem. Eu busquei uma estátua quebrada e com olhar voltado para a terra que representaria os vestígios do antigo culto de Perséfone sobrevivendo através de mim, sendo uma ação de oração e graças aos devotos ancestrais. Além disso, coloquei ramos de trigo para mostrar a abundância e os narcisos para mostrar a beleza, amor próprio e o convite ao mergulho no profundo. Com isso, em uma só tatuagem eu teria o contato entre submundo e campinas, assim como a ancestralidade helênica. Um altar devocional no meu corpo.
  • Busquei a tatuadora Maju Frota (@majufrotattoo) que é uma mulher gorda super simpática e talentosa que já fez esse estilo floral, sombreado realista e linhas finas que eu queria. Eu já tinha visto o trabalho dela em outra amiga e a cicatrização tinha sido ótima. O estúdio dela tem janelas lindas que eu pude ver o céu e árvores lindas.
  • Fiz bem na transição para a Anábasis e agora quero fazer tatuagens para Perséfone nesses meses de setembro e março para os movimentos transitórios energizarem o ritual. Especificamente essa tatuagem caiu em um dia que eu tinha acabado e ficar quase 8 dias seguidos sem água em casa e eu me conectei a energia de Perséfone, senhora das sereias e a água voltou minutos antes de sair de casa. Senti como se tivesse sido uma provação de fé.
  • O jejum pós-tatuagem foi sofrido, mas senti que foi necessário. Fiz a hidratação conforme as recomendações e agora utilizo cremes florais ou a base de hortelã, trigo ou aveia para ativá-la.
Primeira tatuagem ritualística de Héspera em honra a Perséfone.

Referências

  1. Lise, M. L. Z., Gauer, G. J. C., & Neto, A. C. (2013). Tatuagem: Aspectos Históricos e Hipóteses Sobre a Origem do Estigma. Brazilian Journal of Forensic Sciences, Medical Law and Bioethics2(3), 294-316.
  2. Tatuagem. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tatuagem> Acessado em 05/11/2023.
  3. Tatuagens antigas. Disponível em <https://www.archaeology.org/issues/107-1311/features/tattoos?start=5> Acessado em 05/11/2023.
  4. É Islam ou islamismo? Disponível em <https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/e-islam-ou-islamismo/> Acessado em 21/11/2023.

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