Chá com a bruxa

Relação entre bruxas e cristãos

O Julgo Desigual

14Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas?
15Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Esse é um dos primeiros argumentos usados por cristãos para justificar que apenas relacionamentos entre duas pessoas cristãs podem ter sucesso e validade.

Bíblia Cristã: 2 Coríntios 6:14-15
  • Quero deixar claro que as opiniões aqui expostas são baseadas inteiramente na minha vivência e não são regra para ninguém. No entanto, acho interessante expor algumas situações que podem ocorrer em um relacionamento entre cristãos e bruxas que podem te fazer pensar se vale ou não entrar nessa empreitada.
Pintura: “La Belle Dame Sans Merci” – Frank Bernard Dicksee (1857-1928).

Divergência de práticas

  • A divergência de práticas acontece em qualquer relação onde duas pessoas optam por caminhos espirituais diferentes. O caminho mais fácil sempre vai ser estar com alguém da mesma religião.
  • Fazer parte de um caminho religioso que é padrão como o cristianismo pode levar muitos cristãos a pensarem que podem impor sua prática aos demais ou acabam agindo de forma preconceituosa simplesmente por naturalizarem o agir intolerante.
  • Quando duas pessoas optam por se relacionar, elas precisam ter claro que vão existir divergências. O respeito é ingrediente principal nesse caldeirão e o diálogo é o tempero que nunca pode faltar.
  • Ninguém na relação pode se sentir coagido a falar sua opinião desde de que seja respeitosamente. É preciso respeitar o espaço de cada um se vocês querem que a relação funcione de forma saudável.
  • Admito que parece impossível uma bruxa se relacionar com um cristão, mas se houverem acordos e ambos entenderem seus limites, pode funcionar. Vejamos agora algumas situações que podem aparecer e conselhos de como lidar com elas.

Imagens e estátuas

3 Não terás outros deuses diante de mim.
4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

Bíblia Cristã: Êxodo 20:3-4
  • Na Bíblia existem inúmeras passagens que falam contra a criação de estátuas de deuses e espíritos. Embora isso não seja unânime entre os cristãos, isso pode vir a ser um ponto de divergência entre uma bruxa e um cristão. Bruxas tem o costume de erguer altares com imagens e estátuas, além de ter símbolos de suas divindades espalhadas pela casa.
  • Como lidar?
    • O seu parceiro cristão pode simplesmente ter que respeitar a sua opção de ter estátuas, imagens e símbolos.
    • Caso isso incomode muito ele, vocês podem entrar em um acordo e você pode concentrar suas estátuas no seu altar ou local reservado para suas práticas.
    • A bruxa possui inúmeras formas de representar suas divindades sem usar estátuas. Você pode colocar símbolos mais discretos pela casa e reservar suas estátuas ao seu altar.
Estátuas em um culto helênico em Athenas, Grécia.
Supremo Grupo dos Helênicos Étnicos (YSEE)

Os chifres

  • Esse aqui é um dos pontos mais polêmicos. Os cristãos, em geral, associam os chifres ao Diabo. E na bruxaria, os chifres são símbolos de poder e fertilidade.
  • Existem pontos como esse que são quase impossíveis de entrar em um acordo. Se você bruxa quiser colocar um crânio de algum animal chifrudo no centro da sala de estar ou uma estátua de um(a) deus(a) chifrudo(a), provavelmente vai incomodar de alguma forma o seu parceiro cristão.
  • Neste caso, o que eu penso é: A sua necessidade de usar imagens que incomodam ele em um lugar de uso comum é realmente grande ao ponto de você fazer ele se sentir mal?
  • Como lidar?
    • Pontos como esse que podem não ter um acordo, só funcionam com limites. Tenham lugares na casa que sejam reservados para cada um expressar sua individualidade religiosa sem causar incômodo ao outro.
    • Por exemplo: o meu altar é no escritório. Quando quero fazer uma prática que sei que pode incomodar de alguma forma, eu aviso que quero privacidade e vou para o escritório. Caso queira ainda mais privacidade, aviso com antecedência sobre meus rituais e peço para que ele agende ir para a casa de um amigo ou algo do tipo naquele horário.
Chifres na bruxaria.

Rituais

  • Os cristãos e as bruxas possuem o hábito de fazer rituais individuais e em grupo. Seja a bruxa que quer fazer um ritual vestida de lua, se reunir com seu coven, fazer uma meditação ou algum ato devocional mais ritualístico. Seja o cristão que quer fazer uma oração de exorcismo ou estudo bíblico em grupo.
  • Como lidar?
    • Nessas ocasiões, é preciso entender os limites um do outro. Assim como no caso dos chifres, você precisa estar atento e com o diálogo em dia para saber o que o seu parceiro tolera sem se sentir desconfortável.
    • Se for algo que não vai incomodar. Faça.
    • Se for algo que vai incomodar e precisa ser feito em um ambiente comum, como a sala de estar, combine com o seu parceiro com antecedência para que ele esteja ausente durante o seu ritual.
    • Em alguns rituais, você pode querer a participação do seu parceiro. Convide, mas também entenda se ele não quiser participar. Por exemplo:
    • Se eu faço uma comida mágica, eu aviso ao meu parceiro cristão a intenção colocada naquela comida e dou a opção de comer ou não (normalmente ele come porque é super gostoso).
    • Eu também faço amuletos e feitiços para ele, ele entende que é uma boa intenção sendo empregada ali. Ele até me pede para sentir o cheiro de incenso de canela.
    • Eu também não me incomodo em participar de orações cristãs, aceito ser ungida, vou em casamentos e batismos em igrejas e também não ligo de ouvir estudos bíblicos.

Parentes e amigos intolerantes

  • O seu parceiro e você podem ter acordos que respeitam a prática um do outro e vocês possuem uma relação saudável. No entanto, não temos poder sobre o que nossos parentes e amigos podem falar ou fazer. Podemos acabar colocando nossos parceiros em situações desconfortáveis por conta de pessoas que não entendem e respeitam uma relação entre pessoas de religiões diferentes.
  • Isso pode acontecer tanto da parte dos conhecidos do cristão quanto dos conhecidos da bruxa.
  • Como lidar?
    • Exija respeito as crenças do seu parceiro. Elas fazem parte dele e você não pode tolerar que ele seja constrangido.
    • Se a pessoa intolerante for um parente, você pode evitar o assunto de religião ou não pedir que o seu parceiro interaja com essa pessoa nas reuniões de família. Inclusive, deixe-o a vontade para pedir para ir embora, caso esteja desconfortável.
    • Se a pessoa intolerante for um amigo, você deve questionar se vale a pena manter a amizade com alguém que não respeita as suas escolhas e o seu parceiro.

Proselitismo

“Esforço contínuo para converter alguém, fazendo com que essa pessoa pertença a determinada religião, seita, doutrina; catequese: proselitismo religioso.”

Fonte: Dicio
  • Uma das bases do cristianismo consiste em falar do evangélio para que novos adeptos sejam conquistados.
  • Na bruxaria, não se pratica o proselitismo. Cada um encontra o seu caminho espiritual e não existe um caminho mais certo que o outro.
  • Como lidar?
    • O parceiro cristão precisa entender que a bruxa está segura do seu caminho e não quer passar pelo constrangimento de ser evangelizada.
    • Assim como a bruxa não pode ficar desmerecendo as práticas do seu parceiro por não entender as lógicas delas.
    • Aqui é cada um no seu quadrado. Ninguém é melhor que ninguém. Cada um que siga feliz no caminho que escolheu para si.
    • O meu parceiro cristão, por exemplo, entende que evangeliza através de seu exemplo de comportamento. Com isso, não precisa ficar convencendo ninguém para ser adepto da sua fé.

Criação de filhos

  • Quando o relacionamento chega ao ponto da decisão de terem filhos juntos, significa que vocês se respeitam, conhecem as práticas de cada um e já possuem um diálogo bastante sólido sobre as suas escolhas. Ninguém se sente coagido em seguir com suas práticas religiosas.
  • De maneira geral, a criação de filhos envolve muitos acordos para nenhum dos pais se sinta inferiorizado ou desautorizado. As decisões são todas tomadas em conjunto.
  • Para que não exista um cabo de guerra, é preciso decidirem como querem lidar com a questão religiosa antes de terem filhos: vocês vão incluir seus filhos nos ritos de passagem das duas religiões? vocês não vão incluir seus filhos em ritos de nenhuma das religiões para que ele decida sozinho quando adulto? o colégio vai ter ensino religioso?
  • No meu caso, ainda não passei por essas questões porque acreditamos que ainda estamos longe de termos filhos. No momento, acho que o comportamento e prática de cada pai ou mãe vai naturalmente levar o filho a optar por um dos caminhos ou por um terceiro. Isso sem nem ter um esforço de convencimento. Basta serem vocês mesmos e respeitarem um ao outro.

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