Bruxaria devocional,  Chá com a bruxa,  Conceitos básicos

Anacronismo na religião

Introdução

  • Anacronismo é um conceito muito utilizado nas ciências humanas e acaba sendo empregado como se tivesse um significado óbvio, o que leva muitas pessoas de forma da área e leigas a usarem de maneira errada. Outra situação é que o desconhecimento do significado do anacronismo, praticam ele sem saber de suas implicações.
  • No texto de hoje falarei sobre as diferentes formas de definir o anacronismo e como ele pode ser prejudicial no campo religioso onde muitas pessoas revisitam textos antigos e aplicam em suas vidas hoje.
Releitura de Moça com o Brinco de Pérola (1665). Artista: Johannes Vermeer, com o elemento anacrônico da câmera fotográfica.

Definições de anacronismo

  • Para explicar esse termo, irei utilizar de dois termos “agente do passado” para aquele que produziu a obra ou texto e “pessoa do presente” para quem interpreta o texto sem ter acesso ao autor dele. No contexto de estudiosos das religiões pagãs antigas, os devotos modernos são “pessoas do presente” e os devotos antigos de quando a religião foi criada e os documentos históricos escritos são “agentes do passado”.

Erro que consiste em atribuir os costumes de uma época a outra.

Dicio.com

“Qualquer descrição, análise ou juízo sobre um evento que situe tal evento num ponto do tempo distinto daquele que, de fato, ocorreu – se o evento tiver ocorrido antes, o erro é chamado “pedantemente” de procronismo, e se depois, metacronismo”

David Hackett Fischer (1970) parafraseado por Oliveira (2022)
  • O anacronismo ocorre quando uma pessoa do presente obtém uma obra de um tempo passado e tenta explicar o que o agente do passado entendia daquela obra quando ela foi produzida. Ele também ocorre quando incluímos elementos/conceitos que não existiam no tempo do agente do passado gerando confusão e erros de interpretação.
  • A questão é: seria possível analisar algo produzido no passado sem impregnar seus significados com conceitos do presente que muitas vezes são recentes?
  • Outra questão preocupante é uma pessoa do presente tentar usar uma obra ou conceito do passado no tempo presente sem fazer uma avaliação de como esses conceitos podem não fazer mais sentido por conta das mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Inclusive o local onde a obra é produzida até mesmo se forem do mesmo tempo histórico já gera variação de significado.
  • Existem diferentes tipos de anacronismo que podem acontecer de forma consciente, por ignorância ou malícia de quem está interpretando, como:
    • Criação de mentiras sobre um período histórico;
    • Utilização de conceitos do presente para descrição de situações do passado;
    • Mistura de épocas diferentes;
    • Mudança de significados, atribuindo o significado presente de algo que tinha outro significado no passado;
    • Falta de análise ou omissão do contexto do agente do passado levando a julgo equivocado;

Quando não ser anacrônico?

  • De maneira geral, o anacronismo é entendido como uma mentira que ao ser identificado deve ser corrigido já que comprometem a compreensão do sentido que os agentes históricos davam ao texto ou obra.
  • É um grande tabu entre os historiadores, sendo recomendado evitar ao máximo usá-lo como recurso de análise. Inclusive pode ser considerado uma preguiça por parte do profissional.
  • Muitos historiadores falam que o anacronismo deve ser evitado quando a pessoa que o pratica não busca investigar o contexto intelectual, espacial, social e cultural dos autores da obra.
  • Se existem documentos e especialistas que explicam o contexto histórico de um agente do passado você não precisa ficar imaginando ou criando hipóteses de como ele seria. Se você não tem certeza de algo, diga que não sabe ou busque por textos complementares para compreender quais fatores podem ter influenciado a autoria da obra.
  • Práticas realizadas em um tempo e espaço podem fazer sentido apenas para os agentes do passado. A mudança de tempo e espaço levam consigo mudanças de paradigmas também. Não é válido julgar o agente do passado pela nossa ótica de pessoa do presente que tem um outro contexto. Assim como não vale repetir ações que já foram desacreditadas no nosso contexto pós-moderno.
  • Não faça anacronismo se a sua audiência não entender claramente que se trata de um anacronismo.

Quando ser anacrônico?

  • Uma questão importante sobre o anacronismo está na impossibilidade de uma pessoa de um tempo histórico diferente do autor do texto ou obra conseguir avaliar qual era o significado original em sua totalidade por ter valores distintos que levam a uma interpretação diferente.
  • Dito isso, o anacronismo poderia ser admitido, usando conceitos atuais para descrever situações ou obras antigas quando não existem evidências de como esses significados seriam interpretados pelo agente do passado, mas é necessário ter um método que pode variar caso a caso.
  • É importante que toda vez que o anacronismo for feito, seja de forma consciente, e ele precisa ser identificado para os leitores terem claro os motivos dele ter sido usado.
  • Muitas vezes é dada uma licença poética para autores de obras artísticas, teatrais ou similares para incluírem elementos anacrônicos. Os artistas não tem a preocupação de reportar um recorte com precisão histórico. Infelizmente nem sempre fica clara essa inclusão, seja por ignorância do próprio autor ou da audiência. Um verdadeiro perigo para a construção histórica de um momento no imaginário popular.
  • Um exemplo de situação onde o anacronismo poderia ser aceito é para descrever situações dos agentes do passado usando conceitos da pessoa do presente porque eles ainda não estavam disponíveis na ocasião da criação da obra do passado. Por exemplo:
    • É possível interpretar atos de machismo ou misoginia em textos do passado mesmo quando esses termos não existiam. No caso, o comportamento machista e misógino existia, mas não era debatido ou definido pelos agentes do passado.
    • É possível interpretar o contexto histórico e traços da personalidade do agente do passado pela forma que ele escreve, mesmo que não esteja escrito de maneira óbvia.
  • Outro exemplo de uso do anacronismo que pode ser aceito é em obras de ficção como o jogo “Assassin’s Creed Odyssey” que relata o período da Guerra do Peloponeso. Apesar da inserção de diversos elementos anacrônicos para encaixar a jornada do jogo, ele desperta a curiosidade do público para a história antiga. No entanto, os elementos anacrônicos são inseridos de forma diluída ao ponto que o jogador não consegue discernir todas essas inserções, podendo levar a erros interpretação. Apenas uma audiência com arcabouço da mitologia e história grega consegue entender todos os pontos anacrônicos.
Jogo Assassin’s Creed Odyssey
Perséfone no jogo Assassin’s Creed Odyssey é retratada como prisioneira de Hades no submundo. Existem inúmeras imprecisões nos mitos e figuras históricas de tempos diferentes aparecendo, assim como inserções de tecnologias de épocas distintas. No entanto, existem muitos elementos que são precisamente descritos, confundindo a audiência.

Analisando um texto antigo

  • Os textos antigos escritos pelos agentes do passado são chamados de “fontes primárias”, em teoria são os textos que registraram a prática religiosa em primeira mão e a partir dela são criadas novas versões. Já as “fontes secundárias” são textos que discutem e analisam as fontes primárias.
  • Ao analisar uma fonte primária é necessário levar em conta alguns parâmetros para que a sua interpretação tenha a menor quantidade de anacronismo possível, pense nas seguintes perguntas:
    • Estou lendo no idioma original? Se sim, sou fluente e entendo das mudanças na gramática e ortografia que ocorreram entre a escrita e o momento que peguei o texto? Se você estiver pegando uma versão traduzida, é importante saber se foi traduzido direto do idioma original ou é a tradução de uma tradução. Em ambos os casos, é preciso entender se os tradutores tinham competência para fazer a tradução e comparar traduções.
    • O texto original foi escrito em qual ano e em qual lugar? Qual era o contexto histórico-político-social do autor do texto ou obra? Ele era rico ou pobre? Ele fazia parte de algum grupo dominante e privilegiado? Entender esse contexto auxilia na detecção de comportamentos preconceituosos e limitados.
    • Estou lendo o texto completo ou só um fragmento dele? Muitas vezes a ação do tempo acaba destruindo parte das obras antigas, isso pode levar a uma compreensão defasada. Em alguns casos, o texto que chega até nós é um fragmento onde as lacunas são preenchidas pelo tradutor. É muito importante que essas partes estejam claras para você entender até onde é original e onde começa as inserções tardias.
    • Quais são as análises que especialistas da área fazem sobre esse texto? Quando vamos ler um documento antigo e não somos especialistas do assunto, é importante que não sejamos prepotentes e busquemos quem entende da área. As fontes secundárias também são importantes. Inclusive é importante buscar por mais de um especialista e que sejam de diferentes áreas do conhecimento que se complementem, como arqueólogos, antropólogos, historiadores, especialistas em literatura clássica e por aí vai.
    • O conceito que estou analisando foi ressignificado? Pode acontecer que você se depare com uma cena ou termo na obra antiga que hoje tenha um significado diferente do significado dado pelo agente do passado. Por isso tenha cuidado ao fazer suas interpretações com a ótica do presente. Esse tipo de análise precisa passar por especialistas para se aproximar do que seria o significado original e evitar interpretações ou julgo de valores que não fazem sentido com o tempo onde a obra foi criada.

Reconstrucionismo é anacronismo?

  • Sim! Essa seria a resposta rápida. Agora vamos para a resposta mais longa:
  • O reconstrucionismo é um termo usado por grupos religiosos pós-modernos que buscam retomar práticas religiosas que foram criadas no passado, mas que foram descontinuadas por algum motivo, e, por isso, não tem agentes do passado vivos para dar seus relatos.
  • Por conta dessa descontinuação, o reconstrucionista precisa lidar com práticas e conceitos que não são possíveis serem reproduzidos com exatidão por vários motivos. Seja porque não se tem uma documentação que descreva com detalhes claros o que era feito ou seja porque o contexto histórico-espacial não permite que as práticas sejam continuadas porque não passaram pelas ressignificações do tempo.
  • Portanto, a menos que existisse uma máquina do tempo para vermos e experienciarmos as práticas dos cultos antigos pessoalmente, teremos que nos contentar com relatos fragmentados e muitas vezes escritos por uma classe dominante e privilegiada que em sua maioria era branca, machista, escravista, xenófoba e rica (pelo menos no contexto helênico). As fontes secundárias muitas vezes são feitas por cientistas sem uma visão religiosa dos fatos.
  • Outra questão também que perpassa práticas reconstrucionistas é compreenderem um período histórico muito longo onde as próprias práticas antigas sofreram transformações que não são tão claras para pessoas do presente. Acabamos pegando fontes de períodos diferentes e locais diferentes e não entendemos as minúcias que estão por trás. Um exemplo disso é ver representações de pinturas renascentistas ou modernas e esquecer que aquela cena também passou pelo crivo anacrônico do artista e não podem ser consideradas fontes primárias.
  • Outro ponto, é que muitas práticas não podem ser reproduzidas atualmente porque mudamos de contexto temporal e espacial. Exemplos disso é a impossibilidade de reproduzir ritos agrários ou sacrifícios animais da forma que eram feitos. Estamos em outra posição no globo terrestre, gerando estações e colheitas em épocas diferentes e, de maneira geral, por não cultivarmos e nem criarmos/caçarmos animais como era feito no passado. Não tem como fazer procissões nas mesmas datas e pelos mesmos percursos. Não tem como cultuarmos os mesmos santuários naturais. Não temos a nossa disposição os mesmos vestuários, altares, templos e instrumentos. Adaptações precisam ser feitas necessariamente.
Vestiário de mulheres na Grécia Antiga (fonte: National Geographic).
Exemplos de vestimenta de mulheres pós-modernas (Fonte: Instituto de Cinema SP – Todas as mulheres do mundo).
  • Isso pode ser um alívio ou um motivo de desespero. No meu caso, eu fico muito feliz por ter clara essa impossibilidade e me permitir criar minhas práticas com o que tenho ao meu alcance. Isso não quer dizer ignorar como era feito, muito pelo contrário. É buscar honrar as práticas ancestrais e se inspirar nelas, mas ressignificando o que for possível para o que está ao meu alcance e faz sentido para mim.
  • Nem tudo que era feito na Grécia Antiga pode ser reproduzido em uma sociedade do século XXI EC, o culto antigo foi descontinuado e substituído por uma sociedade predominantemente cristã. Temos novas formas de pensar, se vestir e se portar na sociedade. Enfrentamos outras questões sociais para serem superadas e estamos em um processo de ganho de muitos direitos civis e mudanças de paradigmas. Felizmente não precisamos mais reproduzir práticas machistas, LGBT+fóbicas, racistas ou xenófobas.
  • Dito tudo isso, a mensagem final é: não super valorize agentes do passado e nem menospreze tudo que é novo. É importante ter bom senso e equilíbrio para ter uma prática saudável e responsável com as memórias dos antigos. Você pode tirar o peso de ter que reproduzir de maneira idêntica, isso não é possível e nem recomendado. Somos pessoas diferentes, nem melhores e nem piores.
Mulher romana acendendo uma lâmpada em seu altar doméstico (1911). Artista: Stephan Wladilawowitsch Bakalowicz.

Referências

  1. Oliveira, B. G. (2022). Os sentidos do anacronismo. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography15(38), 285-314.
  2. Anacronismo. Disponível em <https://www.dicio.com.br/anacronismo/> Acessado em 01/03/2023.

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