Conceitos básicos

O perigo do jovem místico

Introdução

  • Essa publicação foi motivada pela confusão de que pessoas com religiões não-cristã são encaixadas como o “jovem místico”. 
  • O “jovem místico” ou “pessoa esotérica” é aquela pessoa que utiliza elementos da Nova Era, como aromaterapia, meditação, Yoga, cromoterapia, tarot, cristaloterapia para aprimoramento pessoal. Essa pessoa normalmente é tachada de negacionista, exageradamente otimista e superficial. Isso porque eles não têm a preocupação de ter um aprofundamento filosófico e religioso do uso dessas ferramentas holísticas, apenas se beneficiam de suas propriedades, com uma prática utilitarista.
  • Muitas das ferramentas usadas pelo jovem místico tem profundos mistérios religiosos que não sagrados para muitas outras pessoas. Por exemplo, o jovem místico é aquela pessoa que sopra canela no primeiro dia do mês para atrair dinheiro, mas não tem uma prática profunda para entender sobre o espírito da canela.
  • A questão aqui não é questionar o jovem místico, se ele não quer se aprofundar, é uma escolha dele. Não é problema, se isso não afeta a vida de mais ninguém. O maior problema na realidade é muitas pessoas serem consideradas jovens místicas sem serem ou quando o jovem místico faz cursos ou produz redes de conhecimentos levianos. Além de existir uma desvalorização de conhecimentos ancestrais ou conhecimentos científicos. 
  • Alguns dos jovens místicos acabam confundindo pessoas que estão querendo se aprofundar porque esquecem os argumentos lógicos para justificar fatos simples da vida. Por exemplo: nem sempre que a vela queima diferente, tem uma explicação mística; ou quando surge uma abelha, tem um sinal divino. É preciso ter discernimento.
  • Nem toda pessoa vê um cristal apenas como uma pedra para atrair algo bom. Nem toda pessoa que acredita em aromaterapia não acredita em ciência. E por aí vai. Inclusive acredito que a fase “jovem místico” acaba sendo uma fase de transição para o paganismo que muitos pagãos já tiveram. Tem um papel de infância, prévio ao aprofundamento. Como se fosse algo equivalente ao “católico não praticante”. 
  • É preciso se ter respeito pela crença religiosa alheia. Nem toda pessoa religiosa nega a ciência.
  • Com o objetivo de trazer luz a conceitos que geram contradição, trago algumas definições importantes para o debate entre fé e ciência. 
  • O lembrete importante, é que existem debates longos sobre cada um desses conceitos que serão apresentados de maneira simplificada neste texto. Recomendo o aprofundamento, para tal, temos algumas indicações nas referências.
Esse foi o meme que motivou essa publicação.

O que é fé?

  • “Crença em algo abstrato que, para a pessoa que acredita, se torna verdade” (fonte: dicio.com.br)
  • Não é requisito da fé que esse algo abstrato tenha comprovação científica para se acreditar em sua existência. No entanto, esse algo abstrato que se tem fé pode vir a ser comprovado cientificamente.
  • O alvo da fé pode estar inserido em um sistema religioso ou não. 
  • Exemplo: existência de divindades ou espíritos, existência de outras dimensões, existência de alma, existência de reencarnação.

O que é superstição?

  • “Crendice; crença sem fundamento racional e lógico que, normalmente, se baseia situações recorrentes ou coincidências eventuais. Crença que faz com que alguém crie certas regras ilógicas, tenha medo de coisas inofensivas ou acredite em coisas sem fundamento”. (fonte: dicio.com.br)
  • Quando a crença tem um fundamento racional e lógico (científico, tradicional ou religioso), ela não é uma superstição. Uma mesma crença pode ser superstição para uma pessoa e não ser para outra. Depende do quão automática ou de maneira superficial aquela prática é feita.
  • Exemplo: “Se quebrar o espelho, você terá 7 anos de azar.” Essa crença não tem fundamento racional, não foi feita uma verificação desses 7 anos de azar e nem existem critérios nessa afirmação que permita que ela seja testada. No entanto, o espelho é um objeto sagrado e imbuído de significados para muitas pessoas. Para essas pessoas que levam o significado do espelho para algo mais profundo, a quebra do espelho pode ter uma lógica envolvida com azar. Para as pessoas que não entendem essa lógica, repetem de forma automática, é uma superstição.  
  • Outros exemplos: gato preto e azar, ferradura e sorte, trevo de quatro folhas;
Exemplos de superstições de maneira geral.

O que é ciência?

  • “Reunião de saberes organizados e obtidos por observação, pela pesquisa ou pela demonstração de certos acontecimentos, fatos, fenômenos, sendo sistematizados por métodos racionais”. (fonte: dicio.com.br)
  • Para um conhecimento se tornar científico, ele deve ser submetido ao método científico que consiste em ter uma hipótese que é observável na natureza ou serem preditivos, testável através de experimentos que podem ser avaliados e repetidos por outros cientistas. Não deve existir um envolvimento emocional do cientista com suas hipóteses. Elas podem ser corroboradas ou falseadas por outros cientistas. Esse movimento inclusive que leva ao aprimoramento científico.
  • A ciência se movimenta pela possibilidade de um conhecimento ser falseável. Ou seja, existe a possibilidade dele ser testável, comprovado ou contrariado. Novas evidências proporcionadas por um aumento tecnológico podem levar qualquer conhecimento científico a serem testados novamente. Por isso, as alegações científicas são temporárias e cautelosas.
  • Nem todo conhecimento atende a possibilidade de ser testável e replicável.
  • Exemplos: biologia, astronomia, antropologia, física, história, matemática, etc.

O que é pseudociência?

  • “Saber organizado que parece ter rigor de uma ciência”. (fonte: dicio.com.br)
  • É um termo pejorativo intencional para um grupo de conhecimentos que tem por objetivo ter o status de científico para ser validada e aceita como uma produtora de conhecimentos com rigor científico.
  • A pseudociência parte de uma conclusão para então criar formas de comprovar ela e invalidar questionamentos que possam refutar essa conclusão. Acaba sendo dogmática e agressiva ao ser criticada.
  • A pseudociência acaba usando estratégias que enganam quem está tendo acesso ao seu conhecimento. Podem usar elementos científicos como gráficos ou entrevistar especialistas para simular um conhecimento científico rigoroso.
  • O pseudocientista não leva em conta o conhecimento científico comprovado para formular seus conhecimentos, ou seja, é negacionista. Muitos pseudocientistas inclusive ficam ofendidos quando seus métodos ditos científicos são questionados. O pseud-cientista se declara cientista.
  • Incluem conhecimentos que:
    • Não passaram por um experimento com rigor científico (réplicas, replicabilidade);
    • Contradizem resultados de experimentos já estabelecidos;
    • Não permite uma verificação na natureza;
    • Não é falseável, ou seja, usam afirmações que não podem ser testadas como verdadeiras ou falsas.
  • Exemplos: terraplanismo, criacionismo, frenologia, homeopatia, parapsicologia, design inteligente, ufologia, geologia do dilúvio, piramidologia.

O que é conhecimento tradicional?

  • “Saber relacionado a tradição, com a transmissão de lendas, ritos, usos, culturas, crenças, etc. de uma geração para outra. Que se pauta na tradição: comportamentos tradicionais; opinião tradicional”. (fonte: dicio.com.br)
  • O conhecimento tradicional não tem por objetivo se tornar ciência e nem negar a existência dela. Ela apenas busca organizar e transmitir conhecimentos folclóricos de um grupo de pessoas. Muitas vezes essa transmissão é oral. Muitos conhecimentos tradicionais são baseados na fé e nas superstições das pessoas que os possuem.
Povos originários indígenas como exemplo de produtores de conhecimento.
  • A preocupação do conhecimento tradicional muitas vezes está além do corpo físico, envolvendo o ser humano em uma esfera holística, incluindo parâmetros energéticos, espirituais e religiosos.
  • Alguns conhecimentos tradicionais podem ser testados e terem um viés de conhecimento científico. A diferença é que o conhecimento científico é restrito a esfera física, o conhecimento tradicional vai ser, por natureza, algo que ultrapassa a barreira física. Por exemplo: o estudo das propriedades químicas de óleos e chás tem seu viés científico em busca de moléculas e suas ações fisiológicas, mas também tem seu viés tradicional sobre o efeito energético dessas plantas.
  • Existem conhecimentos que não podem atender aos critérios do método científico. Não tem como comprovar ou fasear a ideia astrológica de que o movimento dos planetas tem relação com o comportamento humano através do método científico. Não tem como fazer um experimento científico que comprove efeitos espirituais de uma prática de aromaterapia ou uma meditação. Isso não quer dizer que esses efeitos não existam.  
  • Exemplos: astrologia, meditação, mediunidade, divinação, reiki, radiestesia, numerologia, aromaterapia, medicina ayurveda, etc.

Debate

  • Agora que já se tem as definições de forma simplificada, é possível entender alguns pontos. Existem muitas formas de geração de conhecimento. O conhecimento científico é apenas uma forma de gerar conhecimento. O conhecimento científico não é o único válido. Existia muito conhecimento sendo produzido muito antes da ciência existir. O conhecimento tradicional é gerado fora do ambiente acadêmico universitário e precisam ser validados pela ciência para se tornarem importantes para a sociedade do ponto de vista social, político e religioso.
Sacerdotisas e devotas de Dan, em Benin, como exemplo de produtoras de conhecimentos.
  • Para a fé não faz diferença se o objeto dela tenha tido a sua existência comprovada pela ciência. Basta acreditar na sua existência. O que não quer dizer que se você tem fé aquilo é uma superstição ou não tem comprovação científica. Nem tudo que se não se tem comprovação científica atualmente, vai ficar sem explicação científica para sempre.
    • Um exemplo disso são os chás. Muitos remédios foram descobertos e aprimorados pela ciência com base nos efeitos de chás que não tinham comprovação científica da sua eficácia.
    • O teoria de que o planeta Terra é o centro do universo já foi considerada ciência e creditada pela fé cristã. No entanto, através do avanço científico foi possível testar essa teoria e ver que ela não descreve a realidade.
    • Os trovões eram manifestações divinas e com o avanço científico foi comprovado que eles possuem uma explicação física para acontecerem.
  • O que é superstição para uma pessoa pode não ser considerado para outra. Você pode ganhar um pé de coelho e deixar contigo no carro porque dizem que vai dar sorte. Afinal, não custa nada deixar lá o objeto, mal não vai fazer. No entanto, essa prática de ter consigo um pé de coelho tem profundos significados para outras pessoas de religiões afroamericanas. Muitos comportamentos ditos superstições tem raízes em conhecimentos profundos. Você não saber a origem de uma superstição não a torna inválida para todos. Você repetir um comportamento sem saber sua origem que o torna uma superstição. Uma lógica que é uma superstição para você hoje, pode ser parte do conhecimento tradicional de um grupo de pessoas e ainda ser comprovado ou não cientificamente algum dia.
  • Muitas vezes algo não tem explicação científica por conta de limitação tecnológica, falta de interesse científico em uma questão ou por falta de investimento financeiro. Por exemplo: provar a existência de deus não é uma preocupação da ciência, já que a sua existência ou não, não deve influenciar decisões políticas ou não traz desenvolvimento tecnológico. Tudo bem também acreditar em algo que não tem comprovação científica. A ciência não deve ser a única fonte válida de conhecimento. A ciência apenas foca em explicações racionais e lógicas para certos fenômenos que nos levam a entender sobre fisiologia, anatomia ou desenvolvimento tecnológico. Explicações espirituais não são de interesse científico. E tudo bem. Muitos conhecimentos religiosos acabam sendo explicados pela ciência se influenciar nesses campos da vida material. 
  • A pseudociência é muito preocupante. Ela acaba sendo uma produtora de conhecimentos com um viés ideológico de dominação sobre massas. Esse tipo de conhecimento afasta as pessoas da realidade. O pseudocientista se aproveita que maioria da população não ser alfabetizada cientificamente. Isso faz com que a maioria das pessoas não tenha as ferramentas para possibilitar a crítica e a distinção do conhecimento científico de um conhecimento falso. Com isso, o objetivo de afastar pessoas do conhecimento comprovadamente científico é alcançado.
Opinião sem base em observações não faz parte do método científico.
  • O grande perigo é a arrogância das pessoas em achar que o único conhecimento válido é o científico. Então colocam todos os conhecimentos não científicos como pseudociência. Algo não ter uma explicação científica não faz o conhecimento ser inválido automaticamente. O conhecimento tradicional não tem os objetivos negacionistas, ideológicos e doutrinadores da pseudociência.
  • Muito conhecimento científico foi criado a partir do conhecimento tradicional. Inclusive é preciso ter cuidado porque existe um movimento de apagamento das origens tradicionais desses conhecimentos. A origem tradicional de um conhecimento não deve desqualificar a ciência. A origem tradicional de um conhecimento deve ser preservada e valorizada. Muitas vezes algo se torna superstição porque as origens daquele conhecimento foi perdida no tempo, restando só o costume.
  • Existem também muitos artigos científicos que comprovam o efeito benéfico de muitos conhecimentos tradicionais e religiosos na fisiologia do corpo. A meditação é um grande exemplo disso. Durante o processo meditativo, regiões do cérebro específicas são estimuladas e existe uma produção de hormônios específicos que favorecem o desenvolvimento humano. No entanto, existem efeitos que vão muito além dos físicos e que não podem ser medidos pelo método científico.
  • Em muitos campos da vida vemos que existe um privilégio dado aos homens, brancos, cis, ocidentais e europeus. Na ciência não é diferente. Existe uma tendência ocidental, racista e sexista na ciência também. Acaba que o que é considerado verdadeiro é ditado por um grupo muito seleto de pessoas. Conhecimentos que tenham origens diferentes desse padrão, são mais invalidados ou existe menor esforço científico e investimento financeiro para exploração deles. É preciso ter consciência disso para avaliar os argumentos dados, inclusive no que é dito científico.
  • Algumas pessoas tratam de conhecimentos tradicionais como científicos sem ter as comprovações. Cuidado! Se alguém fizer isso, foje. Um exemplo disso são alguns astrólogos que acham que a astrologia só é válida se falar que é científica. Não é por aí. Astrologia tem suas raízes holísticas e tradicionais tornando um conhecimento válido fora do âmbito científico.  Algo semelhante acontece com alguns terapeutas holísticos que empregam medicinas tradicionais ou alternativas e ignoram a importância dos psiquiatras e psicólogos para tratar questões físicas.
Astrologia como exemplo de campo do conhecimento que é dito pseudociência para algumas pessoas e como conhecimento tradicional para outras pessoas. Astrologia não precisa ser comprovada pela ciência para ser considerada válida.  
  • O negacionismo não é requisito de ser religioso. Ser ateu não é requisito para ser cientista. Eu posso compreender a evolução como um mecanismo do meu deus agir. Agora falar que a humanidade surgiu diretamente do barro, de forma literal, é negar as evidências científicas. Embora o mesmo mito possa ser usado de forma figurativa ou para transmitir conhecimentos tradicionais e reformar o papel de deus na formação da humanidade. Eu posso acreditar que é deus que faz o fenômeno elétrico que forma os trovões. Eu posso acreditar no poder espiritual de um chá e ter uma explicação química para aquelas sensações. Não é preciso escolher entre um conhecimento e outro.

Referências

  1. Ellis, B. (2002). Why is a lucky rabbit’s foot lucky? Body parts as fetishes. Journal of folklore research, 51-84.
  2. Grosfoguel, R. (2016). A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Sociedade e Estado, 31, 25-49.
  3. Superstição. Disponível em <https://www.dicio.com.br/supersticao/> Acessado em 15/08/2022.
  4. Fé. Disponível em <https://www.dicio.com.br/fe/> Acessado em 15/08/2022.
  5. Pseudociência. Disponível em <https://www.dicio.com.br/pseudociencia/> Acessado em 15/08/2022.
  6. Ciência. Disponível em <https://www.dicio.com.br/ciencia/> Acessado em 15/08/2022.
  7. Tradicional. Disponível em <https://www.dicio.com.br/tradicional/> Acessado em 15/08/2022.

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