Ancestralidade bruxa

Violante Pires

Introdução

  • Violante Pires, conhecida como bruxa do Itinga ou coruja de Itinga e que hoje corresponde ao bairro do Éden, no município de São João de Meriti, Rio de Janeiro (cidade onde eu nasci e moro até o momento).

Fontes primárias

  • Em uma reportagem publicada em 1º de novembro de 1929 no jornal Crítica existe a narra a excursão de trem de seus jornalistas a Itinga, referida como um velha localizada campesina do Estado do Rio de Janeiro e que hoje corresponde ao bairro do Éden, no município de São João de Meriti.
  • O caso de Violante Belloni Pires, acusada de feitiçaria pela Caravana, parece estar envolvido, com a mudança de nome do local para o do paraíso bíblico.

“Os mais idosos costumam relembrar suas infâncias atemorizadas pela ação de uma bruxa que perambulava pelas imediações no início da década de 1930. Nesta época, o bairro chamava-se Itinga (águas claras) e a lenda foi criada pela empresa de loteamento para chamar a atenção. Com o tempo acrescentou-se à história o detalhe de que a personagem se escondia na estação, então abandonada.”
Rocha, 2004, p. 52.

A feiticeira de Itinga.
  • Violante não era a única praticante de bruxaria na região: os moradores locais quando abordados pelos jornalistas, disseram que “em todos os distritos do município de Nova Iguassu eram communs os moambeiros” (Crítica, 01/11/1929, p. 8).
  • Além da gíria usual “contrabando”, de acordo com o Dicionário da Umbanda, organizado por Altair Pinto, a palavra “muamba” ou “moamba” também significa feitiço, despacho, trabalhos para fazer o mal e é muito utilizada no contexto de cultos de origem afro-brasileira. Assim, podemos supor que a bruxa era mais associada às religiões de matriz africana como Umbanda e o Candomblé, do que ao neopaganismo.
  • Recepcionados pela Bruxa de Itinga em sua casa, os jornalistas dedicam longos trechos da matéria descrevendo sua aparência como “velha e mirrada, andrajosa e de vez sumida sumida, em consequencia de pertinaz laryngite, que nos parece incurável” (Crítica, 01/11/1929, p. 8) e “(…) que não atraiçôa (…) siquer o mais leve traço da natural e intructiva amabilidade feminina (…)” (Crítica, 01/11/1929, p. 8). Em uma fotografia veiculada no jornal, confirmamos se tratar de uma mulher de origem humilde e idade mais avançada.
Legenda no jornal: “Violante, a comparsa de Satan. Eis a figura impressionante da bruxa de Itinga.” Crítica, 01/11/1929, p. 1
Manchete. Crítica, 01/11/1929, p. 1
Legenda do jornal: “Roberto Rodrigues fex esta reconstituição de acordo com informações prestadas por testemunhas da horripilante seena.” (Crítica, 01/11/1929, p. 1).
Crítica, 01/11/1929, p. 1.
  • A reconstituição de Roberto Rodrigues está relacionada a um ritual relatado por Violante, em que, após entoar um “comando cabalístico”, forma-se uma densa nuvem de fumo. Da fumaça, surge um bode preto que serve de montaria para a bruxa. Na ilustração, a vemos vestida com uma longa capa preta esvoaçante e descalça, guiando a besta pelos chifres, na companhia de uma pequena criatura não identificada acocorada na cabeça do animal.
Legenda no jornal: “Roberto Rodrigues traçou esta extraordinária creação, de um forte caracter fantastico e que figura a bruxa hedionda em disparada tragica, cvalgando o bode infernal.” (Crítica, 02/11/1929, p.1).
Crítica, 03/11/1929.
Crítica, 03/11/1929.
  • O texto do jornal Crítica de 07/11/1929 traz na margem superior direita uma foto de uma senhora diante de uma árvore apanhando folhas. A imagem em si não representa nenhuma captura de um acontecimento que tenha rompido com a ordem cotidiana. No entanto, os títulos grandes que preenchem a parte superior e lateral da foto, assim como a legenda, constroem um acontecimento de ordem sobrenatural.
Crítica, 07/11/1929.
Legenda da foto: “A bruxa apanha folhas para confecção de seus pós misteriosos e satânicos.” Crítica, 07/11/1929.

“A bruxa de Itinga, em meio ao Sabat, grita esse nome [Violante] que é o seu, aos duendes e aos bodes pretos. E para eles estas quatro sílabas tem um poder sobrenatural. A enviada de Satan exulta de demoníaca alegria quando alguém a procura para fazer mal (…). As mulheres são as melhores consulentes de violante. E para elas a megera emprega uma sorte de magia original e infalível. Ordena Violante que a paciente se dispa. Depois sobre o peito esquerdo, com uma navalha, faz uma incisão de alguns centímetros. O sangue jorra em borbotões. A feiticeira, então, com um morcego sinistro, suga a ferida longamente, sequiosamente, tragicamente.”
(Crítica, 07/11/1929)

Crítica, 07/11/1929.
  • A Caravana diz receber informações de moradores locais a respeito de rituais envolvendo a ingestão de corações de crianças mortas, cozidos e “temperados de succo de hervas bizarras e intragaveis ao paladar de outra qualquer pessoa” (Crítica, 08/11/1929)
  • Violante também aparece representada à esquerda, com um longo manto preto e segurando pelas pernas o cadáver de um bebê com uma ferida sangrando no peito, diante de seu pequeno caixão. Ela leva a mão à boca, como se devorasse o coração de sua vítima. À sua volta, vemos outras mulheres participantes do sabá, com expressões e gestos que transitam entre melancolia e tormenta.
Crítica, 07/11/1929.
  • Assim como as bruxas durante a antiguidade e a perseguição da Inquisição, a Violante também foi retratada com animais como bodes, corujas e serpentes.
Crítica, 05/11/1929.
Crítica, 05/11/1929.
Crítica, 06/11/1929.
Crítica, 06/11/1929.
Crítica, 06/11/1929.
Crítica, 09/11/1929.
Crítica, 10/11/1929.

Imaginário da bruxa

  • As representações de Roberto Rodrigues sobre o caso da Bruxa de Itinga parecem intimamente relacionadas às pinturas feitas durante a Inquisição da Igreja Cristã e que retratam os sabás das bruxas ou aquelarre como eram conhecidos as reuniões de bruxas na Espanha. Era comum na iconografia medieval e moderna o demônio ser retratado como figura chifruda, de barba pontiaguda, cascos de animais e cauda bifurcada, pelo que a cabra e o bode se encontram também associados ao diabo e a feitiçaria.
  • Assim como as bruxas frequentemente são retratadas como anciãs, onde a partir do romantismo se intensificou a ideia de que o corpo velho e sem fertilidade não eram alvos de desejo sexual e se tornaria algo maligno e repulsivo.
  • É preciso salientar que segundo o IBGE em 1920, considerando a população acima de 5 anos, o analfabetismo girava em torno de 71% dos brasileiros, em sua maioria negros e pobres. Para a burguesia carioca, os jornais tratavam de crônicas do mundo não civilizado da periferia.
  • Nessa década de 1920, o jornalismo brasileiro tinha um estilo francês com artigos polêmicos e gênero opinativo livre. Apenas na década de 1940 que o jornalismo brasileiro passou a utilizar técnicas americanas, adotando uma linguagem impessoal e menos emotivo, sem uso de tantas metáforas e adjetivos.
  • O cenário do Rio de Janeiro do século XX não era favorável para a prática de nenhuma crença que não fosse cristã: terreiros e casas de lideranças religiosas estavam sendo invadidos e violados pela polícia, intolerantes e jornalistas. Ao mesmo tempo que a Constituição de 1890 garantia a liberdade religiosa, o artigo 157 do código penal de 1890 condenava a prática de espiritismo, da feitiçaria, magia, curandeirismo, este último considerado prática ilegal de medicina bem como a adivinhação, com destaque para a cartomancia, extremamente difundida entre as classes mais altas brasileiras.
O sabá das bruxas (1798). Artista: Goya.

Referências

  1. Schreiner, B. C. (2023). As reconstituições visuais de crime de Roberto Rodrigues no Jornal Crítica (1929). Faculdade de Belas Artes. Trabalho de conclusão de curso. Rio de Janeiro.
  2. Souza, R. M. e Silva, M. R. (2021). Estereótipos associados à religiosidade afro-brasileira nas narrativas jornalísticas cariocas na década de 1920. Revista Mídia e Cotidiano 15 (2): 256-280.
  3. Rocha, J. L. (2004). Memória ferroviária de uma cidade. Revista Pilares da História 3 (4): 46-53.
  4. Hemeroteca Digital da Biblioteca Digital. Jornal Crítica. 01 de Novembro de 1929. Anno 1 – Número 300; 02 de Novembro de 1929 Número 301; 03 de Novembro de 1929 Número 302; 05 de Novembro de 1929 Número 303; 06 de Novembro de 1929 Número 304; 07 de Novembro de 1929 Número 305; 08 de Novembro de 1929 Número 306; 09 de Novembro de 1929 Número 307; 10 de Novembro de 1929 Número 308. Disponível em <https://bndigital.bn.gov.br/acervo-digital/critica/372382> Acessado em 17/03/2026.

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