Conceitos básicos,  Filosofia grega

Amor: eros, philía e ágape

Introdução

  • Na Grécia Antiga, o termo amor era dividido principalmente em três termos: eros, philia e ágape. Esses conceitos de amor estão muito presentes na filosofia aristotélica, platônica e estoica.
  • Entender a diferença entre esses amores nos ajuda a ampliar a nossa percepção sobre o amor e também identificar com maior facilidade qual aspecto do amor precisamos trabalhar.
O Amor e a Psique. Artista: William Bouguereau (1889).

Eros

  • Érōs (do grego ἔρως) é o amor do desejo intenso e da falta. Nasce da atração física, mas não se limita a ela.
  • Em Platão na obra Banquete e na obra Fedro, fala de érōs como uma força ambígua: pode escravizar o indivíduo à paixão, mas também pode impulsioná-lo à busca do belo, do bem e da verdade. Platão também associa o Amor a um ser que possibilita a relação entre os homens e os deuses, pela interpretação e transmissão de súplicas e sacrifícios, além de ser responsável pelas artes divinatórias e mágicas.
  • O amor eros faz referência ao desejo, impulso e atração. Ele pode ser aplicado na esfera corporal, afetiva e também espiritual.
  • Mitologicamente, Érōs pode ser considerado um deus primordial (Theoi Protogenoi) nascido do Caos e seguidor de Afrodite, segundo a Teogonia de Hesíodo. No entanto, ele também já foi tratado como filho de Afrodite ou como um daímōn, um intermediário entre deuses e humanos.
  • Independente das variações na genealogia de Eros, o deus sempre é encontrado como a força fundamental que garante a perpetuação dos seres e a coesão do universo.
  • Inclusive existe um debate entre os especialistas em mitos que fala que a associação de Eros ao deus romano Cupido, um menino travesso e desajeitado com flechas, era uma forma de infantilizar, domesticar e/ou tirar o poder caótico e selvagem da energia que o desejo evoca nas pessoas.
Tempo cortando as asas do Cupido. Artista: Pierre Mignard (1610-1695).

Philía

  • Philía (do grego φιλία) é o amor que une amizade, companheirismo, afeição familiar, respeito entre cidadãos. Ela envolve reciprocidade, confiança e continuidade. Ele é construído no tempo. É o amor que sustenta amizades duradouras, alianças, laços entre irmãos, pais e filhos, e até relações entre mestres e discípulos.
  • Para Aristóteles, é o cimento da vida ética e da pólis. Não nasce da carência, mas do reconhecimento mútuo. Na sua obra Ética a Nicômaco, ele diz que existem duas formas de amizade imperfeitas. Uma amizade por conta da utilidade, ou seja, quando uma pessoa ama a outra por conta do bem que recebe do amigo. Outra amizade por causa do prazer, ou seja, a amizade se dá por causa do caráter agradável que o amigo causa. A amizade perfeita seria a philía, dada pelos homens virtuosos que desejam encontrar e conviver com iguais, compartilhar as qualidades mútuas, fazendo a amizade durar, mas para isso é necessário tempo e familiaridade.
  • A philía faz referência vínculo, afeição, lealdade. Ela pode ser aplicada na esfera social, ética e política.
  • A palavra “philía” é usada como sufixo em diversas palavras do português em oposição a “phobia” que seria a aversão. Exemplos: cinefilia, zoofilia, bibliofilia, hidrofilia, filantropia, xenofilia.
Amizade e fraternidade.

Ágape

  • Ágape (do grego ἀγάπη) era um termo menos central que érōs ou philía, significando afeição serena, apreço, acolhimento ou cuidado.
  • Diferente de érōs, agápē não deseja possuir; diferente de philía, não depende da igualdade entre os envolvidos. É o amor que cuida, acolhe e se sacrifica.
  • O amor ágape faz referência a benevolência, cuidado, doação. Ele pode ser aplicado na esfera moral e espiritual.
  • Seu grande desenvolvimento ocorre mais tarde, especialmente no pensamento helenístico tardio e cristão primitivo, onde passa a designar o amor desinteressado, que se oferece sem exigir reciprocidade.
  • O amor ágape defendido pelos cristãos não surge entre os homens. Ele é uma dádiva, um dom de Deus como o mais alto dos sacrifícios, que seria o envio de Jesus para ser sacrificado. O amor entre os cristãos seria um sinal da presença de Deus. O exercício desse amor pressupõe benevolência, complacência, compaixão, indulgência e perdão ilimitados.
  • O mundo grego antigo veria como um monstruoso paradoxo, o que aconteceu na Galiléia, no Anno Domini, um deus espontaneamente vir aos homens e se tornar servo deles e morrer na cruz por eles.
  • O mundo grego compreende o amor numa relação em que o desejo do perfeito, do melhor, consiste no grande motor da vivência amorosa. Por outro lado, o cristianismo apresenta o amor como algo que nasce de uma gratuidade em que a origem do amor se dá a partir de um ato de humildade da divindade.

“(…) na experiência cristã, ocorreu uma reviravolta radical a respeito das noções do amor e do conhecimento, do valor e do ser. Denominei esse fato de “inversão do movimento do amor”, pois constitui uma negação do axioma grego segundo o qual o amor seria o movimento do mais baixo para o mais alto, do mé on (não ser) para o ontos on (o ser), do homem para o Deus que ele não ama, para o Deus que também não ama, do pior para o melhor. Tal fato consiste em conceber o amor como movimento do mais alto para o mais baixo de Deus se rebaixando até o homem, do santo ao pecador e assim por diante, ideia que se encontra definitivamente integrada à essência do mais alto e, portanto, do Altíssimo, de Deus.”
Max Scheler, obra Amor e conhecimento, 1996, p. 113.

Atena e Odisseu. Artista: Rienk Keyert (1709-1775). Museu Nacional de Varsóvia.

Outros termos para amor

  • Existem outros termos relacionados ao amor que são menos comuns que são associados a Grécia Antiga, mas que são releituras modernas inspiradas no idioma grego como:
    • Philautía (φιλαυτία) – Amor de si mesmo. Pode ter um sentido positivo com o cuidado consigo, autoestima justa e base para a virtude. Assim como pode ter um sentido negativo com o egoísmo excessivo e narcisismo. Esse amor é necessário para amar o outro de modo saudável, mas se torna nocivo se ignora o bem comum.
    • Storgē (στοργή) – Amor natural, familiar e instintivo. Ele descreve o afeto espontâneo entre pais e filhos, entre membros da família ou até entre humanos e animais. É um amor silencioso, pouco dramatizado na literatura trágica. Ele é um amor baseado no hábito e na proximidade, estável, protetor e pouco passional, semelhante a philia.
    • Manía (μανία) – Amor obsessivo, possessivo e desmedido. Na cultura grega, manía significa loucura, irracionalidade, muitas vezes associada à intervenção divina. Quando ligada ao amor, indica paixão que ultrapassa o limite da medida (métron), princípio fundamental da ética grega. Ele pode incluir ciúme extremo, dependência e perda de autocontrole.
    • Prâgma (πρᾶγμα) – Amor durável, construído pela prática. Esse não é um termo clássico, sendo uma classificação moderna inspirada na ideia de compromisso e constância. Seria um amor amadurecido, baseado em decisões e responsabilidade, movido mais pela ação do que emoção.
    • Lúdus (do latim) – Amor-jogo, leveza e sedução. É um termo latino e não grego, mas pode ser aproximado do erotismo leve e do jogo de sedução presente em poetas gregos. No sentido moderno pode se relacionar a flertar, brincar e experimentar com pouco compromisso.
Hércules e Athena expulsando Ares em “Alegoria da Guerra”. Artista: Victor Wolfvoet (1630-1640). Museu Hermitage, São Petersburgo.

Feitiçaria do amor

  • A magia relacionada aos diferentes aspectos do amor são uma das mais populares e procuradas. Conhecendo a diversidade presente no amor, podemos ampliar o nosso repertório. É possível considerar magia de amor, inclusive, práticas devocionais em busca de conexão com os deuses.
  • A prática da xenia, o príncipio grego da hospitalidade, também seria um ato de amor. O cuidado com os pais, filhos, familiares e com a sua cidade também seria demonstrações de amor.
  • Na prática mágica, você pode utilizar a escrita das palavras em grego para criar símbolos e sigilos, escrever em velas ou colocar dentro de patuais e potes. Você pode especificar que tipo de amor deseja evocar com maior detalhamento, inclusive evocar amores doentios como a mania.
  • Rituais e práticas de autoestima podem incluir o trabalho com deuses nessa vibração de amor, como Afrodite e Eros.
Eros e Afrodite. Artista: Edoard Toudouze. Musee des Beaux-Arts, Rennes, France.

Indicação de leitura

  • Existe inúmeros livros que trazem a temática do amor, mas eu senti de trazer para vocês uma série de livros da bell hooks (escrito em letra minúscula mesmo, conforme a autora prefere). Eles me ajudaram muito e espero que possam ajudar vocês. Na minha opinião, eles deveriam ser leitura obrigatória para todo o ser humano.
Coleção sobre amor de bell hooks.

Referências

  1. Quadros, E. M. (2011). Eros, Fília e Ágape: o amor do mundo grego à concepção cristã. Acta Scientiarum. Human and Social Sciences33(2), 165-171.

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