Bruxaria devocional,  Conceitos básicos,  Rituais & Feitiços

Thesauros

Introdução

  • Thesauros (do grego θησαυρός, tesouro, depósito, celeiro, local onde guarda algo de valor), é a mesma palavra que quando veio para o latim originou a palavra “tesouro” e é raíz para a palavra “thesaurus” em inglês.
  • É um termo que pode significar duas coisas diferentes na Grécia Antiga. O primeiro sentido é de edifício tesouro que seriam pequenas construções em forma de templo, erguidas dentro de grandes santuários para abrigar oferendas votivas. O segundo significado é para a caixa de oferendas monetárias propriamente dita, um receptáculo fixo, em geral de pedra, onde os devotos depositavam moedas como oferenda a uma divindade em um templo.
  • No texto de hoje, iremos explorar o segundo sentido que é mais próximo de uma prática devocional que pode ser chamada modernamente de “cofrinho sagrado” e que é facilmente replicável para a prática moderna.

Cofrinho sagrado: como funcionava

  • O cofrinho não era um objeto delicado. Tratava-se normalmente de um bloco maciço de pedra (ou de dois blocos encaixados um sobre o outro), escavado por dentro para formar uma cavidade. Na superfície superior havia uma fenda estreita — exatamente como a de um cofrinho moderno — por onde o devoto deixava cair as suas moedas, que se acumulavam no interior oco.
  • O detalhe importante é que essas caixas eram pensadas para serem seguras e invioláveis. As faces da pedra costumavam ter encaixes para mecanismos de travamento, de modo que ninguém pudesse simplesmente recolher o conteúdo. Como o bloco era pesado, em alguns exemplares há sulcos laterais que marcam onde se amarrava uma corda: era preciso içar a parte de cima para chegar ao dinheiro guardado embaixo. Em outras palavras, abrir a caixa dava trabalho — e era essa a intenção.
Esquema do thesauros do Santuário de Afrodite Urânia, datado de cerca do século IV, Museu da Acrópolis.

Para onde ia o dinheiro?

  • Aqui vale desfazer um mal-entendido comum: esse dinheiro não era do sacerdote. As somas recolhidas pertenciam ao deus — ou, na prática, ao santuário como instituição — e destinavam-se à manutenção do culto. Com elas se custeavam reparos no templo, a compra de animais para os sacrifícios, a organização das festividades, a aquisição de incenso e óleo, e por aí vai. O santuário funcionava, em certo sentido, como uma instituição econômica, com receitas e despesas.
  • Por isso mesmo, a abertura da caixa era um ato cercado de formalidades. Diversas “leis sagradas” (as leges sacrae, inscrições normativas afixadas nos santuários) regulavam quem podia abrir o thesauros, com que frequência, na presença de quais autoridades e em que o dinheiro poderia ser gasto. Era uma forma antiga — e bastante reconhecível — de prestação de contas: ao exigir a presença de várias testemunhas oficiais e ao registrar tudo por escrito, procurava-se evitar desvios e proteger a reputação do santuário.
Sacerdote de Zeus no Templo. Artista: Stefano Tofanelli.

Cofrinho de Afrodite Urânia

  • Um dos exemplares mais bem preservados vem do Santuário de Afrodite Urânia, situado na encosta norte da Acrópole de Atenas, e hoje pode ser visto no Museu da Acrópole.
  • São dois blocos de pedra que se ajustam, com a fenda para as moedas no topo. Nas faces da frente e de trás há indentações que serviam para prender o sistema de travamento; nas laterais, os sulcos para a corda que erguia o bloco superior na hora de contar o que havia sido arrecadado.
  • É um pequeno tesouro arqueológico justamente por nos mostrar, em pedra, toda a lógica do dispositivo: depositar é fácil, retirar é uma operação controlada.
  • A caixa de Afrodite Urânia está exposta no Museu da Acrópole, em Atenas, e é uma das melhores ilustrações físicas de como funcionava um thesauros-cofre.
Thesauros do Santuário de Afrodite Urânia, datado de cerca do século IV, Museu da Acrópolis.

O caso do Anfiarião de Oropos

  • Um exemplo concreto e fascinante vem do Anfiarião de Oropos, santuário dedicado ao herói-curandeiro Anfiarau, na fronteira entre a Ática e a Beócia. Ali se praticava a incubação: o devoto dormia no recinto sagrado na esperança de receber, em sonho, um diagnóstico ou cura do deus.
  • Uma lei sagrada do século IV AEC determinava que quem fosse se submeter à incubação deveria pagar uma taxa (eparche) de não menos que nove óbolos, depositada no thesauros na presença do neokoros — o zelador do templo. Uma segunda lei do mesmo século, que parece ter substituído a primeira, ajustava as regras, admitindo o pagamento em moeda corrente.
  • Esse pequeno detalhe nos diz muito. Mostra que a oferenda monetária podia ter o caráter de uma “taxa de serviço” religioso, que havia um funcionário responsável por testemunhar o depósito, e que as regras eram revisadas com o tempo, conforme a conveniência do santuário e a realidade econômica.
  • As leis sagradas do Anfiarião de Oropos (séc. IV AEC) são fonte-chave sobre as taxas depositadas no thesauros; sobre elas, ver, por exemplo, Eran Lupu, “Sacrifice at the Amphiareion and a Fragmentary Sacred Law from Oropos”, Hesperia 72.3 (2003).

Os edifícios-tesouro

  • Voltemos agora ao primeiro sentido da palavra. Nos grandes santuários pan-helênicos — sobretudo Delfos e Olímpia —, thesauros designava também construções inteiras, pequenas e em forma de templo, erguidas para guardar e exibir as oferendas votivas mais preciosas.
  • Essas construções eram financiadas por cidades-estado individuais. Atenas, Siracusa, Sícion, os tesouros se sucediam ao longo da paisagem sagrada. E aqui entra um aspecto muito grego: construir um tesouro num santuário pan-helênico não era apenas um gesto de devoção. Era também uma forma de propaganda cívica.
  • Cada cidade aproveitava a ocasião para exibir sua riqueza, seu prestígio e suas vitórias militares diante de todas as outras cidades gregas que peregrinavam até ali. O Tesouro dos Atenienses, em Delfos, ladeando a célebre Via Sacra que subia em direção ao templo de Apolo, é o exemplo mais conhecido — financiado, segundo a tradição, com os despojos de uma vitória, e portanto um monumento tanto à piedade quanto ao orgulho do Estado.
  • Os edifícios-tesouro podem ser visitados (em ruínas e reconstruções) nos sítios arqueológicos de Delfos e Olímpia; o viajante antigo Pausânias os descreve no século II EC em sua Descrição da Grécia.
Exemplo de edifício-tesouro no Santuário de Delfos em Atenas, cerca de 490 AEC.
Edifícios-tesouro de Olímpia dedicados a Zeus, datados de cerca do século V AEC. Acima reconstrução digital e abaixo sítio arqueológico.

O que isso nos ensina sobre a religião grega

  • A figura do thesauros — nas suas duas formas — desfaz a ideia de que a religião antiga era pura espiritualidade desligada do mundo material. Pelo contrário: o sagrado grego estava imerso na vida econômica e cívica. A relação com os deuses obedecia, em boa medida, a uma lógica de reciprocidade que os romanos resumiriam na fórmula do ut des — “dou para que dês”.
  • A oferenda, fosse uma estátua de bronze ou algumas moedas deixadas numa caixa de pedra, era parte de uma troca: o devoto honrava o deus e, em retorno, esperava proteção, cura ou favor.
  • E havia, por trás disso, uma máquina administrativa concreta: inscrições contabilizando rebanhos, funcionários conferindo cofres, leis regulando despesas. O cofre de oferendas, tão modesto à primeira vista, é uma janela privilegiada para esse lado pouco lembrado — e profundamente humano — da religião grega.

Prática moderna

  • Como já foi dito, a prática do thesauros é uma oferta em dinheiro para as divindades. Isso pode ser feito de diferentes formas na nossa vida moderna.
  • Aqui vale um alerta: essa não é a prática do dízimo presente em outras religiões onde obriga o devoto a dar 10% de seus ganhos para a igreja mensalmente. Além disso, esse dinheiro também pode acabar sendo utilizado para fins diferentes do devocional e não é esse o ponto aqui.
  • No caso do thesauros, é um dinheiro que você vai ofertar aos deuses. Aqui cabe o quanto estiver nas suas possibilidades. Eu costumo deixar um cofrinho em formato de porco no meu altar e todas as moedas que tenho, eu deposito ali. Quando o cofrinho fica cheio, eu utilizo para comprar itens como velas e incensos.
  • Existem outras formas que você também pode fazer essa prática pensando no contexto moderno. Existem muitos sacerdotes que desempenham seu sacerdócio por meios digitais e utilizam recursos que possuem um custo alto para manter, além do tempo de dedicação. Uma forma de aplicar esse dinheiro devocional é escolher um sacerdote para você contribuir para ajudar ele a manter sua partilha sacerdotal. Poderia ser uma doação periódica ou eventual para o mesmo sacerdote ou para diferentes sacerdotes que fazem um trabalho sério que você confia.
  • Outra forma é mantendo um cofrinho onde você junta moedas em honra a deuses da prosperidade como Deméter, Hermes ou Zeus e depois utilizar o dinheiro para comprar uma ou mais de uma refeição para moradores de rua ou para alguma ONG que realiza um trabalho social que você admira.
  • Eu sei que a oferta de dinheiro não é uma possibilidade para muitas pessoas, mas se uma moeda ou outra não te fizer falta, você pode investir no seu caminho espiritual.
Cofrinho moderno.

Referências

  1. Barringer, J. M. (2025). The workings of treasuries in Greek sanctuaries. Opuscula. Annual of the Swedish Institutes at Athens and Rome18, 159-183.
  2. Rups, M. (1986). Thesauros: A study of the treasury building as found in Greek sanctuaries. The Johns Hopkins University.
  3. Vickery, B. C. (1960). Thesaurus—a new word in documentation. Journal of documentation16(4), 181-189.

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