
Melikatron
Introdução
- O melikatron é uma mistura de leite e mel oferecida como bebida nutritiva para crianças, mas também era utilizada em rituais necromantes e práticas devocionais ligadas a espíritos e divindades ligados a ritos funerários.
- O termo “melikatron” deriva do grego μελίκρατον, que é uma combinação das palavras mel e leite que são os componentes dessa mistura.
- Esse termo também pode fazer referência ao hidromel, uma bebida alcóolica fermentada de mel que pode ser referenciada como vinho doce como mel.

Quando fazer?
- Na obra Odisseia atribuída a Homero, no canto XI é narrada a Nekyia, que é a decida de Odisseu e seus companheiros ao Hades em busca de respostas do adivinho Tirésias. Para isso, ao chegar ao submundo, ele teria que fazer um ritual necromante indicado pela deusa feiticeira Circe. Uma das etapas desse ritual incluía a libação do melikatron.
“Aí Perimedes e Euríloco seguraram as vítimas;
e eu, desembainhando a espada afiada de junto da coxa,
cavei uma vala de um cúbito em ambas as direções,
e em seu redor verti uma libação para todos os mortos,
primeiro de leite e mel, depois de vinho doce,
e em terceiro lugar de água, polvilhando com branca cevada.
Ofereci muitas súplicas às cabeças destituídas de força dos mortos,
jurando que ao chegar a Ítaca sacrificaria uma vitela estéril,
a melhor que tivesse, e que numa pira poria coisas nobres;
e que a Tirésias em separado ofereceria um bode,
todo negro, o melhor dos nossos rebanhos.
Depois de com preces ter suplicado às raças dos mortos,
tomando as ovelhas, degolei-as por cima da vala,
e o negro sangue turvo correu; e vieram
do Érebo as almas dos mortos que partiram:
noivas e rapazes que nunca casaram e cansados anciãos;
virgens cujo o coração conhecera o desgosto recente;
e muitos, também, feridos por lanças de bronze,
varões tombados em combate, com armaduras ensanguentadas.
Todos vinham para a vala de todas as direções,
com alarido sobrenatural; e o pálido terror me dominou.
Ordenei então aos meus companheiros que esfolassem
as ovelhas, que ali jaziam degoladas pelo bronze impiedoso,
e as queimassem, dirigindo preces aos deuses,
a Hades poderoso e à temível Perséfone.
Eu próprio, desembainhando a espada afiada de junto da coxa,
fiquei ali sentado: não permiti que as cabeças destituídas de força
dos mortos se chegassem ao sangue, antes de interrogar Tirésias.”
Odisséia, Homero, Canto XI, versos 23 ao 50.
- Nessa passagem fica claro que o melikatron é uma libação aos espíritos do submundo, pois é vertida direto em uma vala na terra. Provavelmente a dualidade da mistura inclui o simbolismo da nutrição do leite e a doçura do mel como apaziguador, reconciliador e uma oferta energética aos espíritos dos mortos. As abelhas também são consideradas animais ligadas ao submundo e a alma dos mortos.
“Aos fantasmas, para lhes amansar a alma, oferecia-se uma mistura chamada melikatron, leite e mel.”
Obsidiyana
- Como todo ritual necromante, ele requer experiência e segurança por parte do regente do ritual. Por isso, não é recomendado para iniciantes. Pelo próprio relato na Odisseia, é possível ver que a prática envolve sacrifícios e atrai diversos espíritos que precisarão ser ordenados com autoridade. Além do mais, é preciso ter discernimento para identificar se a comunicação está sendo feita com o espírito desejado. Esse ritual em mãos inseguras facilmente pode gerar consequências indesejadas.
- Existem outras referências que citam a utilização do melikatron para honra de heróis em suas lápides e também em honra a deuses ctônicos. Existem citações em placas órficas que indicam que a bebida era utilizada como símbolo de renascimento e nutrição.

- Dito isso, irei listar algumas situações mais seguras onde o melikatron pode ser utilizado:
- Honra a parentes e entes queridos que faleceram;
- Honra em rituais ligados ao submundo, como práticas de outono e inverno;
- Em rituais lunares ligados a lua minguante e lua nova;
- Ofertar para as abelhas nos dias nacional e internacional;
- Conexões com espíritos do submundo como deuses, daemons, ninfas e daemons;
- Como pedido de licença ao entrar em cemitérios ou locais de tragédias.
“Para os deuses do mundo inferior, os homens vertem leite e mel, enquanto aos olímpicos oferecem vinho puro.”
Plutarco, Questões Gregas
Como fazer?
- Não existe uma receita fixa da proporção de leite para mel na mistura do melikatron, por isso, todas as indicações feitas aqui são intuitivas e você pode ficar a vontade para fazer suas experimentações. Como ponto de partida eu sugiro um copo de 300 mL de leite para 1 colher de sopa de mel. Aos veganos, pode ser um leite vegetal e melaço.
- De maneira geral, ao fazer uma libação, você precisa pensar em três pontos:
- Motivo: Entenda o propósito ligado ao submundo que te leva a fazer a libação do melikatron.
- Quando: Entenda o dia e horário mais propício para potencializar o ato mágico.
- Onde: Separe um recipiente para conter o melikatron e pense onde irá verter ele. Tradicionalmente é em um buraco no chão ou sobre a lápide do falecido, mas você pode adaptar para as suas possibilidades. Opções possíveis incluem uma vasilha preta representando o escuro do submundo, um pote com terra, um jarro de planta.



- Tendo um motivo bem claro para a libação, selecionado quando vai fazer e como vai fazer, também é importante que entoe uma canção ou prece antes de realizar a libação. Veja um exemplo a seguir que poderia ser feito em auxílio após grandes tragédias.
[Com a taça de melikatron nas mãos e próximo ao peito, diga:]
“Ao casal subterrâneo eu chamo, temível Perséfone e Hades poderoso estou aqui.”
[Bata com firmeza os pés no chão e diga:]
“Encaminhe para o seu reino os espíritos inquietos que morte precoce tiveram.
Que o luto seja sentido e que a cura venha consigo.”
[Derrame o melikatron no chão do local da tragédia]

- Modernamente, você também pode utilizar a mistura de leite e mel como banho mágico para auxiliar em práticas de conexão com suas sombras e com deuses do submundo. Inclusive, existem linhas de cosméticos que incluem leite e mel em suas composições que podem ser utilizados como potencializadora nessas práticas necromantes.

Referências
- Obsidiyana. O caminho de Perséfone. São Paulo, SP: Editora Goya, 2024. 240 p.
- Håland, E. J. (2012). When the Dead Ensure the Food. Death and the Regeneration of Life Through Festivals, Food and Social Gathering during the Ritual Year in Modern and Ancient Greece. Cosmos: The Journal of the Traditional Cosmology Society, 28, 309-346.
- Júnior, M. R. R., Canaver, A. B., & Bassan, C. F. D. (2015). Produção de hidromel: análise físico-química e sensorial. Revista UNIMAR Ciências, 24(1-2).
- Homero. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Editora Pengin Clássicos Companhia das Letras, 2011.

