Conceitos básicos

Tempo: aión, chrónos e kairós

Introdução

  • Na Grécia Antiga, o tempo não era concebido como uma linha única, homogênea e progressiva, como tende a ser no pensamento moderno.
  • Na antiguidade, o tempo se tornou uma das preocupações doutrinárias e se tornou um problema pra a experiência do homem que se revela incompatível com a noção de tempo cíclico frente aos fatos temporários e sucessivos da vida, das festas e das gerações, sendo necessário diferenciar um tempo cósmico, um tempo religioso e um tempo propriamente humano.
  • Para os gregos homéricos, o tempo não existe como algo homogêneo, ele tem qualidades e é diferente ao longo de sua extensão. Os gregos antigos não encaravam o tempo como algo simples e natural. Ele era um fenômeno carregado de afetividade e também um aspecto moral que ordena o universo em sua hierarquia, assim como a vida dos homens.
  • Existiam dois modos de vivenciar o tempo. Por um lado, o tempo do universo, das estações, os deslocamento dos corpos celestes e tudo que parece viver sob uma espécie de repetição cíclica que pode ser expressa também na cidade, por meio de festas religiosas a cada ano. Por outro lado, não se pode deixar de perceber o tempo como uma linha que caminha para o esgotamento irreversível, uma dança de aproximação contínua da morte inevitável e a marcha da velhice.
  • Os gregos distinguiam qualidades de tempo, cada uma com valor simbólico, filosófico e religioso próprio. Os principais conceitos são Chrónos, Kairós, Aión (e, em certos contextos, Hōra).

Tempo profano e tempo sagrado

  • O cientista das religiões Mircea Eliade defendia que as sociedades tradicionais viviam a realidade dividida entre dois modos de tempo: o tempo profano e o tempo sagrado.
  • O tempo profano é o tempo comum da vida cotidiana: linear, contínuo e marcado pelas atividades normais — trabalho, rotina, acontecimentos históricos. É o tempo “ordinário” em que as coisas simplesmente passam.
  • Já o tempo sagrado é qualitativamente diferente. Para Eliade, ele é o tempo dos mitos, das origens e dos atos divinos. Durante rituais, festas religiosas e cerimônias, o ser humano religioso “sai” do tempo comum e retorna simbolicamente ao momento primordial em que os deuses criaram o mundo ou instituíram determinados modelos de comportamento. Assim, o ritual não seria apenas uma lembrança simbólica, mas uma reatualização real desse tempo primordial.
  • Essa distinção aparece ligada à ideia de homem religioso (homo religiosus). Segundo Eliade, nas sociedades tradicionais o homem religioso compreende o mundo como permeado pelo sagrado. Lugares, objetos, astros e acontecimentos possuem significado transcendente porque revelam algo divino — aquilo que Eliade chamou de “hierofania”, a manifestação do sagrado no mundo.
  • Em contraste, o homem moderno tende a viver em um universo “dessacralizado”. Ele interpreta a realidade principalmente de forma racional, histórica e científica, sem enxergar nela uma estrutura sagrada objetiva. Mesmo assim, Eliade argumentava que vestígios do comportamento religioso permanecem no homem moderno, aparecendo em símbolos, mitos culturais, celebrações coletivas, cinema, literatura e até em certas formas de nostalgia por “origens” e experiências transformadoras.
  • Essas ideias aparecem especialmente em obras como O Sagrado e o Profano e O Mito do Eterno Retorno.
Amor sagrado e amor profano. Artista: Tiziano, 1514.
  • Pensando em gregos antigos, o tempo grego pode ser dividido em profano e outro sagrado, sendo marcado pelas festividades religiosas. As festas pertencem ao calendário civil, e se determinam dentro de sua estrutura. Contudo, elas representam um sentido muito mais importante de uma experiência descontínua do tempo.
  • Verifica-se que cada cidade grega usava cerca de três calendários, um para os feriados religiosos, como festas, outro para a visa política e um terceiro para a agricultura. No caso de Atenas, especificamente, o ano tinha 12 meses e 29 ou 30 dias, e era possível que fosse adicionado um outro mês para que o calendário correspondesse também as estações que guiavam as plantações.
  • As mudanças no calendário grego tinham uma representação não apenas prática, mas também simbólica, uma vez que modificavam a relação do homem com seu espaço e tempo.
  • Os festivais eram regulares e ocorriam todo ano na mesma data, indicando que o tempo era algo contínuo, eterno e cíclico. O calendário cívico tinham que atender as questões políticas e do comércio, e trazia o tempo para uma esfera humana de utilização, que precisava ser mensurável. Já o calendário da agricultura reafirmava os ciclos dos cosmos.
  • O uso de três calendários sobrepostos pelos atenienses indica que eles estavam interessados não em uma formulação rígida que contivesse todos os aspectos do tempo de forma única, mas que as experiências diárias em cada uma de suas configurações e as vivências geradas a partir disso eram importantes.
Tempo.

Aión

  • Aión (do grego Αἰών) é o tempo da vida, da permanência e da eternidade. Ele designa o tempo da existência plena, o destino, da duração vital ou da eternidade.
  • Pode significar: o curso completo de uma vida, uma era, ou o tempo eterno e imutável dos deuses.
  • O termo de aión, foi reutilizado pelos filósofos pré-socráticos, aparece em Platão, e mais tarde é recuperado por pensadores modernos como Nietzsche.
  • O aión apareceu em Homero com uma ideia de fluido vital corporal (lágrimas, suor, fluído cerebral-espinhal e esperma), o destino, ou intensidade de uma parte do tempo. Aion estaria relacionado a tudo que pudesse ser expelido ou que desaparece quando o homem morre, sendo próprias da vida. Nesse primeiro momento, o aión era relacionado ao tempo da vida humana.
  • Em um segundo momento, Píndaro e os demais dramaturgos trágicos, utilizavam o termo de aión para indicar uma parte da vida, uma parcela específica que cabia a cada pessoa e que estava relacionada ao destino, sofrendo influências divinas.
  • O aión não inclui apenas o passado, mas o presente e o futuro também. A palavra grega Αἰών quando aparece sem qualificações e advérbios se refere ao tempo através das eras, trazendo uma ideia de eternidade.
  • A mudança do significado do uso da palavra aión acontece em Platão, onde o aión deixa de ter uma temporalidade limitada e passa a ser ilimitado, com uma eternidade que está fora do tempo e gera o tempo. O aión passou a ser a traduçõ de um modelo de tempo no qual habitava o próprio demiurgo que criou o mundo, que é um ser vivo eterno.
  • Para Platão, o aión era o tempo do ser eterno que tentou também tornar eterno o mundo. Porém, a natureza daquele ser era diferente do ser gerado, de modo que o aión não era a forma adequada para o mundo porque ele era uma espécie de imagem imóvel, seria preciso que se construísse para os homens uma imagem móvel que pode ser percebida por meio do céu, um tempo cópia da eternidade, o chrónos.
  • Com isso, a partir de Platão se tem o tempo do relógio, que é concebido para a realidade humana, que é uma imagem móvel que se fragmenta; e o tempo da eternidade que pertence apenas a essência divina.

“Como acontece que este é um ser eterno, tentou, na medida do possível, tornar o mundo também ele eterno. Mas acontecia que a natureza daquele ser era eterna, e não era possível ajustá-la por completo ao ser gerado. Então, pensou em construir uma imagem móvel da eternidade, e, quando ordenou o céu, construiu a partir da eternidade que permanece uma unidade, uma imagem eterna que avança de acordo com o número; é aquilo a que chamamos tempo.”
Platão.

Chrónos

  • Chrónos (do grego Χρόνος) é o tempo quantitativo, que passa, possui uma duração, ele é mensurável e sucessivo. É o tempo dos dias, das estações, do envelhecimento e da história. Ele flui de modo contínuo e impessoal, devorando tudo o que existe — imagem que mais tarde será reforçada pela associação simbólica com o titã Crono que devora os filhos.
  • Na vida prática, chrónos regula: a agricultura, os calendários cívicos, os ciclos naturais, a memória histórica. O tempo chrónos é quantificável por números cardinais e responde a perguntas como “com que rapidez?”, “quão frequente?”, “quantos anos?”.
  • O tempo chrónos e aión se diferenciam a partir de uma ordem hierárquica, porque aión lida com o divino, a verdade e o pensar; e chrónos lida com o humano e sua ação produtiva. No caso, o chrónos tenta reproduzir o modelo original do aión.
  • Essa percepção de chrónos captou a atenção de Platão, Aristóteles, Plotino e se estendeu até a Idade Média. As discussões eram em torno da relação de chrónos e aión e a percepção do tempo como chrónos.
  • O chrónos tem relação com a aceleração dos corpos e dos objetos no mundo. A palavra chrónos já era usada desde Homero para designar um determinado intervalo de tempo, sendo próximo dos termos gregos de dia (ἦμαρ), certo momento do dia, ou de uma estação ou do ano (ὥρα), mês (μείς), hoje (σήμερον), estação, ano (ἐνιαυτός), presente ou agora (ἡγῇ).
  • Existe também a noção de que chrónos é uma invenção de demiurgo que busca tornar o mundo dos homens mais próximo ao mundo imortal e eterno, ele é uma imagem do reino da unidade que não aparece senão por meio desta metáfora, e que realiza uma brincadeira entre o tempo que se move e o céu que muda.
Thesmophoria, 1894-1897. Artista: Francis David Millet. Brigham Young University, Museum of Art.
  • O tempo com letra maiúscula, Krónos (do grego Κρονος) também era usado para designar o deus titã de mesmo nome. Esse deus, mediante uma profecia de Gaia, descobre que será destronado por um de seus filhos, passa a devorá-los assim que sua esposa Reia dá a luz, até que cansada, ela se rebela e esconde o último filho, Zeus que cresce escondido e depois realiza a profecia, destronando o pai e resgatando os irmãos, condenando Krónos ao tártaro.
  • A associação do tempo chrónos e a divindade Krónos é a noção de que a temporalidade sucessiva atua como um soberano para os homens, sendo uma força destruidora que devora sucessivamente a vida, e da qual não se pode escapar. Ele ainda é a noção de um juíz, que tudo vê e tudo sabe porque conhece o passado e o futuro e determina o que cabe a cada homem.
  • Na tradição órfica, Krónos é libertado do Tártaro e reconciliado com Zeus, também é entendido como um rei bom e o primeiro que reinou na época das lendas da Idade de Ouro. Após os homens se tornarem maus na Idade de Bronze, Krónos teria retornado aos céus, e suas lendas alcançaram a África, a Sicília e, de modo geral, o Ocidente mediterrâneo.
  • Neste caso, o tempo como chrónos não é o tempo sucessivo que se encontra em Parmênides e que foi desenvolvido por Platão e Aristóteles e passou para a tradição. Trata-se antes de uma sacralização do tempo imortal e imperecível, um tempo que é único e eterno e que continua ininterrupto em seu trono de rei benéfico. Essa noção aponta um anseio grego por uma unidade frente à constante mudança do mundo.
  • Existiam outras divindades ligadas a noção de tempo chrónos. As divindades Hōrai (do grego Ὥρα ou Ὡραι) eram deusas das estações e das porções naturais do tempo. Elas presidiam as revoluções das constelações celestes pelas quais o ano era medido, enquanto suas três irmãs as Moiras, teciam a teia do destino.
  • É o tempo ordenado e cíclico que refere-se ao tempo marcado pela ordem natural: estações, fases do dia, ritmos da natureza. É um tempo circular, associado à repetição e ao equilíbrio.
  • As Hōrai, divindades femininas, personificavam essa harmonia temporal ligada à justiça, à fertilidade e à regularidade do mundo. Elas também guardavam os portões do Olimpo e reuniam as estrelas e constelações do céu.
  • As Hōrai eram particularmente cultuadas por agricultores que plantavam e cuidavam de suas colheitas em sincronia com o nascer o pôr das estrelas – indicadores da passagem das estações.
  • As três Hōrai eram geralmente chamadas de Eunômia (Boa Ordem, Bons Pastos), Irene (Paz, Primavera) e Dice (Justiça), deusas que representavam individualmente as condições necessárias para a prosperidade agrícola. As Hōrai às vezes personificavam as quatro estações do ano: Primavera (Eiar), Verão (Theros), Outono (Phthinoporon) e Inverno (Kheimon). Como tal, eram descritas como filhas do deus-sol Hélio, que guiavam o caminho de seu pai pelos céus e supervisionavam o florescimento e a frutificação da terra.
  • A associação da agricultura com a lei e a ordem também pode ser encontrada nas divindades Zeus, Deméter, e nos Daimones Khryseoi. Perséfone também é referida como companheira das estações como um de seus epítetos.
As Horae, personificações das quatro estações, são retratadas como donzelas aladas coroadas com coroas de flores. O inverno (em cima) tem uma coroa de juncos, as flores na primavera (no centro à esquerda), o trigo no verão (no centro à direita) e as uvas no outono (embaixo). Museu Jamahiriya, Trípoli.

Kairós

  • Kairós (do grego Καιρός) é o tempo oportuno, não é quantidade, mas qualidade do momento. É o instante certo, o ponto exato em que uma ação deve ser realizada para ser eficaz, um tempo curto, a hora certa, a oportunidade. Na retórica, na medicina e na guerra, agir fora do kairós significava fracasso.
  • Kairós é breve, instável e exige atenção e sabedoria. Ele não se repete e não pode ser controlado — apenas reconhecido.
  • Diferente de aión e chrónos, a noção de kairós aparece mais tardiamente entre os gregos. O primeiro significado esta palavra estava relacionado a uma ideia espacial, ainda na obra Ilíada de Homero, e referia-se a um ponto mortal de corte onde poderia encontrar-se uma falha na armadura, coo o peitoral, dobradiças ou encaixes, e que uma vez aplicado um golpe, ele seria mortal. Neste caso, ele seria o adjetivo καίριος, onde o que estava em jogo era o próprio destino do homem.
  • A καῖρος era usada para se referir à tecelagem ou ao ato de trançar que separava e unia os fios, enquanto a palavra καιρός tratava o espaço entre pares de rocas que permitiam o entrelaçamento dos fios ou uma espécie de abertura, de um descontínuo em um contínuo, seria a violação do tempo ou do espaço.
  • O termo καιρός foi determinante também para tratar da retórica e permeou autores como Alcídamas, Isócrates e os Sofistas. O καιρός diz respeito a um tipo de improvisação sofistica que, em grego, foi chamada de ἐπὶ τῷ καιρῷ e que teve Górgias como figura principal.
  • O termo καιρός é um dos mais difíceis de traduzir porque ele é marcado por uma ideia sofista onde o tempo é revertido por uma marca de perigo e oportunidade. É o segundo específico para que se diga algo, a resposta e a réplica. Ele tem relação com a ideia de oportunidade, excepcionalidade ou raridade. Ele é um momento único, específico, e sobretudo passageiro, que não pode ser aprisionado. Ele ocorre raramente, e jamais torna a se repetir, cada kairós é diferente e único. Ele se refere a um tempo que não é exatamente o tempo biológico ou o tempo físico; ele não pertence nem ao mundo externo ou interno da alma, situando-se no meio destes dois extremos e quase desaparecendo nas bordas destas circunstâncias.
  • O kairós poderia ser identificado pelas perguntas “quando?” e “a que horas?”. Embora kairós não se trate do tempo físico, ele pode ser percebido como um momento especial e único que transcorreu, o momento adequado em que se deveria ter dito ou ter feito algo, e que não cabe, depois que passou, mais uma vez.
  • Enquanto chrónos se interessa na avaliação quantitativa do tempo, quanto transcorreu desde o início da atividade, um número de horas, de anos ou de meses; o tempo kairós se importa com a qualidade do momento, uma exceção que não se repete e que não pode ser medida por um número, mas sim por um sentimento.
Tempo como ocasião (1543-1545). Artista: Francesco Salviati.

Conclusão

  • Para os gregos, o tempo não era apenas algo que se mede, mas algo que se vive. Saber viver bem significava: suportar Chrónos, reconhecer Kairós, habitar Aión.
  • Reflexões devocionais importantes podem vir a partir dessa perspectiva. O tempo dos deuses é diferente do nosso, por isso muitas práticas mágicas podem ter efeitos rápidos ou demorados. Entender essa distinção é um exercício de paciência, maturidade e controle da ansiedade.
  • Quando realizamos ritos de passagem na bruxaria, como mudanças de estação, fases da lua, ciclo circadiano, podemos nos referir ao chrónos. Também podemos definir em quanto tempo queremos que uma magia se concretize, neste caso seria o chrónos também. Da mesma forma em feitiços relacionados a aniversários e ciclo de vida.
  • Quando queremos fazer uma magia que precisamos que ela se manifeste em um momento específico, podemos nos referir a kairós.
  • Quando estamos falando de mitos e da vontade dos deuses, podemos falar de aión.
Saturno devorando seu filho. Artista: Francisco de Goya.

Referências

  1. Eliade, M. (2018). O sagrado e o profano – a essência das religiões. WMF Martins Fontes, 4ª edição, 191 páginas.
  2. Haubert, L. E. (2019). Apontamentos sobre a questão do tempo na Grécia. Prometheus (31).
  3. Horai. Disponível em <https://www.theoi.com/Ouranios/Horai.html> Acessado em 20/05/2026.

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